O governo da Argélia decidiu nesta quarta-feira proibir as manifestações convocadas pelo partido opositor Assembleia pela Cultura e Democracia (RCD) para reivindicar uma mudança de regime político, previstas para sábado em Argel e Oran - segunda maior cidade do país.

O ministro de Interior argelino, Dahou Ould Kablia, assinalou que o protesto agendado para a capital do país não tinha sido autorizado por motivos de segurança pública.

"Há imperativos de segurança. As manifestações em Argel correm o risco de gerar desordem", declarou à imprensa o titular de Interior, segundo quem esses "imperativos" se referem tanto à segurança dos próprios participantes quanto à proteção da cidade "contra toda ameaça terrorista".

O ministro afirmou que o que proibia protestos na capital não era o estado de exceção - cancelado no último dia 24 de fevereiro pelo presidente do país, Abdelaziz Bouteflika, após 19 anos de vigência -, mas outra disposição legal.

Segundo o governo argelino, as concentrações urbanas na capital não são permitidas desde um protesto de militantes berberes em junho de 2001, mas a oposição e vários meios de comunicação argelinos consideram que não existe nenhuma normativa legal ou governamental sobre essa proibição, e por isso a consideram anticonstitucional.

Daho Ould Kablia indicou que, nas demais províncias do país, as manifestações são permitidas desde que recebam autorização da administração local.

Essa é justamente a autorização que a convocação do RCD não obteve em Oran.

Os organizadores do protesto decidiram, no entanto, "continuar com sua luta" e consideram que a proibição "não atende a nenhuma lógica atual, já que o estado de exceção foi suspenso".

Nesta quarta-feira também foi impedida a habitual manifestação das famílias de desaparecidos, que se reúnem toda quarta-feira há anos em frente à sede da comissão estatal de proteção dos direitos humanos em Argel.

Esses familiares se concentram semanalmente para reivindicar "a verdade" sobre os desaparecimentos registrados na sangrenta década de 1990 no país.

Mundo árabe em convulsão
A onda de protestos que desbancou em poucas semanas os longevos governos da Tunísia e do Egito segue se irradiando por diversos Estados do mundo árabe. Depois da queda do tunisiano Ben Ali e do egípcio Hosni Mubarak, os protestos mantêm-se quase que diariamente e começam a delinear um momento histórico para a região. Há elementos comuns em todos os conflitos: em maior ou menor medida, a insatisfação com a situação político-econômica e o clamor por liberdade e democracia; no entanto, a onda contestatória vai, aos poucos, ganhando contornos próprios em cada país e ressaltando suas diferenças políticas, culturais e sociais.

No norte da África, a Argélia vive - desde o começo do ano - protestos contra o presidente Abdelaziz Bouteflika, que ocupa o cargo desde que venceu as eleições, pela primeira vez, em 1999; mais recentemente, a população do Marrocos também aderiu aos protestos, questionando o reinado de Mohammed VI. A onda também chegou à península arábica: na Jordânia, foi rápida a erupção de protestos contra o rei Abdullah, no posto desde 1999; já ao sul da península, massas têm saído às ruas para pedir mudanças no Iêmen, presidido por Ali Abdullah Saleh desde 1978, bem como em Omã, no qual o sultão Al Said reina desde 1970.

Além destes, os protestos vêm sendo particularmente intensos em dois países. Na Líbia, país fortemente controlado pelo revolucionário líder Muammar Kadafi, a população vem entrando em sangrento confronto com as forças de segurança, já deixando um saldo de centenas de mortos. Em meio ao crescimento dos protestos na capital Trípoli e nas cidades de Benghazi e Tobruk, Kadafi foi à TV estatal no dia 22 de feveiro para xingar e ameaçar de morte os opositores que desafiam seu governo. Na península arábica, o pequeno reino do Bahrein - estratégico aliado dos Estados Unidos - vem sendo contestado pela população, que quer mudanças no governo do rei Hamad Bin Isa Al Khalifa, no poder desde 1999.

Além destes países árabes, um foco latente de tensão é a república islâmica do Irã. O país persa (não árabe, embora falante desta língua) é o protagonista contemporâneo da tensão entre Islã/Ocidente e também tem registrado protestos populares que contestam a presidência de Mahmoud Ahmadinejad, no cargo desde 2005. Enquanto isso, a Tunísia e o Egito vivem os lento e trabalhoso processo pós-revolucionário, no qual novos governos vão sendo formados para tentar dar resposta aos anseios da população.