Tudo tem conserto nesse mundo? Sim. E aquilo que ficou por consertar - tranquilizemo-nos - conserta-se no próximo. Mas, claro, nosso incurável ceticismo prefere que as coisas se reorganizem diante dos nossos olhos. Como São Tomé, preferimos que tudo se ate por aqui mesmo. Melhor assim, economiza energia cósmica da Sabedoria Universal, poupa força cármica.
Pensei nisso depois de assistir ao O Concerto, filme comovente como há muito não via. Daqueles para se chorar mesmo, lavar a alma. Catarse. Leve o lenço e deixe o namorado em casa, se quiser manter pose de durona e resolvida. O roteiro prende a nossa atenção. A música de Tchaikovsky ajuda um bocado - harmônica, magistral, sublime.
Como todo filme (na verdade, toda obra de cultura) interessado nos desafios e nas grandezas humanas, o sabor do enredo é agridoce, mistura complexa de dor e riso, sofrimento e alegria. Não estamos diante de uma comédia ou um drama, entendidos em seus modelos tradicionais. O que temos é uma verdade maior e mais ambígua, a da experiência humana em zona intermediária entre o absoluto da tristeza (que nunca é tão completa que não possa ser superada) e a da felicidade (que, infelizmente, como lembrou o poeta, "de leve oscila", sem poder jamais deter-se, eternizar-se em infinita perfeição).
Não quero contar muito para não tirar o prazer que aguarda o espectador. Adianto apenas pequeno comentário. Trata-se da história de dois salvamentos. No primeiro movimento, o Maestro salva uma menininha de poucos meses para, num segundo movimento, trinta anos depois, ser salvo por ela, desabrochada uma violinista talentosa.
Sob a batuta de Radu Mihaileanu (que já havia nos brindado, há 12 anos, com o adorável Trem da Vida), o andamento encadeia encontro, separação, reencontro, abraço final entre Maestro e Solista. Os momentos mais intensos se passam no teatro do Chatelet, em Paris, referência de música e bom gosto. Sua imponência monumental - mais de duas mil cadeiras e várias frisas -, atapetada de veludo vermelho, é filmada de maneira estranha, mostrando uma espécie de lugar fora da realidade, descolado da arquitetura convencional que nossos olhos reconhecem prontamente.
A lente mostra o cenário da redenção dos personagens como espaço embebido de mistério, afastado da realidade. Mais um acerto do diretor, enfatizando o caráter sagrado de toda redenção, explicitando que, incomum, maturação mística, ela remodela o mundo ao redor. Não vai se arrepender quem for ver esse concerto, bálsamo para o ouvido e para a alma.
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