O opositor Mohamed ElBaradei, Prêmio Nobel da Paz e ex-diretor da AIEA (agência atômica das Nações Unidas), criticou neste domingo as negociações entre o governo do Egito e representantes da oposição e disse não ter sido convidado para as conversações.

ElBaradei afirmou que as negociações encabeçadas pelo vice-presidente Omar Suleiman foram dirigidas pelas mesmas pessoas que comandaram o país nos últimos 30 anos e que, por isso, sofrem de falta de credibilidade.

Segundo ele, as negociações não são um passo em direção à mudança que os manifestantes antigoverno têm demandado nos últimos 13 dias, pedindo pela saída do poder do ditador egípcio, Hosni Mubarak.

"O processo é opaco. Ninguém sabe quem está falando com quem nesse estágio", disse ElBaradei ao programa "Meet the Press" da emissora americana NBC.

Neste domingo, Suleiman reuniu-se com grupos de oposição, incluindo a oficialmente banida Irmandade Muçulmana. No dia anterior, o vice-presidente --ex- chefe da inteligência egípcia-- conversara com figuras opositoras para discutir opções para uma transição de poder.

"Isso [a negociação] foi dirigido pelo vice-presidente Suleiman", afirmou o Nobel da Paz. "É tudo dirigido pelos militares que são parte do problema."

"Não fui convidado para participar das negociações ou diálogo mas tenho acompanhado o que está acontecendo", completou.

No entanto, um representando do grupo de ElBaradei, a Associação Nacional por Mudança, se reuniu com Suleiman neste domingo e descreveu as conversas como um positivo primeiro passo.

ElBaradei disse que ainda há uma "grande falta de confiança" entre o governo e manifestantes e que há temor de que o governo recue e volte ao poder.

"Se você realmente deseja construir confiança, você precisa engajar o resto do povo egípcio --os civis."

NEGOCIAÇÕES

Suleiman e representantes da oposição fecharam acordo para fazer reformas na Constituição e encerrar a Lei de Emergência, vigente no país desde 1981, informou a televisão estatal do país.

Segundo o comunicado, em uma reunião mantida neste domingo, as duas partes acordaram com uma reforma para os artigos 76 e 77 do texto constitucional, que estipulam os requisitos para a candidatura presidencial e o número de mandatos que pode permanecer no poder.

O porta-voz do governo, Magdi Radi, informou que as reformas devem ser implementadas antes da primeira semana de março.

Segundo ele, houve um "consenso sobre a formação de um comitê que contará com o poder judiciário e um certo número de representantes políticos, para estudar e propor as emendas constitucionais e legislativas que se fizerem necessárias".

Radi afirmou também que os participantes da reunião concordaram com uma "transição pacífica do poder, baseada na Constituição". No encontro, o governo se comprometeu a criar um órgão para receber queixas sobre prisioneiros políticos, respeitar a liberdade de imprensa e não ferir os manifestantes que pedem a saída de Mubarak.

DIÁLOGO

A Irmandade Muçulmana, um dos grupos mais influentes da oposição ao regime, aceitou, hoje, a entrar oficialmente no diálogo para colocar fim à atual crise do país.
As conversas com o vice-presidente reúnem representantes da Irmandade Muçulmana, do Partido Wafd (liberal) e do Tagammou (esquerda), que fazem parte de um comitê escolhido por grupos defensores da democracia. Estes lançaram o movimento de contestação que exige, desde 25 de janeiro, a saída de Mubarak.

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, apoiou neste domingo a participação da Irmandade Muçulmana no diálogo com as autoridades do Egito.
Nas últimas declarações, representantes norte-americanos apontaram Suleiman como a pessoa mais indicada para conduzir um governo de transição no país.