Dois bonecos enforcados com uma estrela de Davi pintada na gravata e muitos dólares saindo dos bolsos representam o presidente egípcio Hosni Mubarak e podem ser vistos pendurados nos sinais de trânsito da praça Tahrir, no centro de Cairo, capital egípcia, e dão o tom da chamada "marcha do milhão", que marca o oitavo dia das manifestações contra Mubarak.

A censura à internet, bloqueio a celulares, imposição de um toque de recolher mais rígido. Nada intimidou os manifestantes egípcios que há oito dias tomam as ruas de Cairo e de outras cidades, em protesto contra o regime de Mubarak, há 30 anos no poder.

"Este vai ser um grande dia, o dia da liberdade", exclama Ahmed En Nahas, um diretor de cinema de 60 anos, que gesticula para mostra as milhares de pessoas agrupadas na praça Tahrir, reduto dos manifestantes há semanas.

"Até há pouco tempo estas pessoas não teriam saído de maneira tão maciça por medo que a polícia disparasse contra ela", acrescentou, mostrando a pequena filmadora com que pretende registrar as manifestações do dia.

Uma “maré” humana ocupa o local perto da ponte sobre o rio Nilo desde as primeiras horas do dia, respondendo ao chamado dos opositores para que um milhão de pessoas se reúnam em Tahrir.

O ambiente é mais tenso do que nos dias anteriores, apesar da presença de várias famílias. Uma menina de cinco anos se diverte enquanto seu pai dança com ela nos ombros, ao ritmo do slogan entoado pela multidão: "o povo quer que Mubarak saia".

Apesar de o acesso à internet estar proibido desde sexta-feira passada, as novas tecnologia estão muito presentes em Tahrir, onde inúmeros manifestantes enviam mensagens, tiram fotos e filmam a movimentação.

Um jovem abaixa as calças diante da imprensa ocidental para mostrar as marcas do impacto da bala de borracha que recebeu em um dos protestos. Perto, um grupo de homens barbudos exibe um cartaz onde afirmam estar "dispostos a morrer pelo Egito".

"Mubarak demonstra que está desconectado da realidade", diz Omar, um jovem que exibe um cartaz dirigido ao presidente americano Barack Obama e à chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton. "Não queremos diálogo, e sim que Mubarak saia", diz.

Antes de entrar na praça, os manifestantes tiveram de se submeter a controles de identidade por parte dos militares que vigiam os acessos a Tahrir.

As Forças Armadas continuam com uma boa imagem entre os manifestantes. Quando um ônibus cheio de soldados tenta abrir passagem a buzinadas, a multidão ao invés de reclamar, grita e aplaude: "O povo e o Exército são o mesmo braço".

Em Alexandria, segunda maior cidade do Egito, a população também está respondendo à convocação para a "marcha do milhão". Quase 50 mil pessoas se reuniram diante da mesquita Qaed Ibrahim e da estação de trem, no centro da cidade, agitando bandeiras egípcias e gritando frases para pedir a queda de Mubarak.