Os EUA traçaram um plano para incorporar a comunidade libanesa no Brasil, majoritariamente pró-Ocidente, à estratégia americana de apoiar movimentos anti-Síria e anti-Irã no Líbano.

Não está claro se o plano teve êxito, mas fontes americanas e libanesas no Brasil admitiram à Folha que mantêm um diálogo "constante".

O interesse americano nos árabes residentes no Brasil é detalhado em telegramas confidenciais, obtidos pelo site WikiLeaks, que circularam entre representações dos EUA na América do Sul, Europa e Oriente Médio e o Departamento de Estado.

O plano é sugerido em texto de 9 de outubro de 2008, redigido pelo consulado geral em São Paulo, após visita à cidade de dois funcionários do governo americano especializados em contraterrorismo: Jared Cohen, diplomata, e Janine Keil, assessora de Inteligência da então secretária de Estado, Condoleezza Rice.

"A oportunidade mais importante surgida da visita de Cohen e Keil é a possibilidade de que a comunidade libanesa no Brasil possa apoiar os esforços do governo americano para construir um Líbano democrático e independente", diz o telegrama.

Na prática, o documento pede que autoridades americanas incentivem e coordenem contatos entre libaneses no Brasil e o movimento 14 de Março, formado por muçulmanos sunitas e cristãos apoiados pelos EUA.

O 14 de Março está em permanente disputa de poder com o Hizbollah, um misto de partido político xiita e milícia defendido por Irã e Síria.

Para reforçar as fileiras pró-Ocidente, Cohen sugere a articulação de uma "mobilização de diáspora" com o intuito de incentivar libaneses do Brasil a se envolver mais com a vida política e econômica de seu país de origem, a exemplo do que ocorre com judeus americanos e Israel.

A iniciativa permitiria, entre outros planos, que cada vez mais jovens libaneses-brasileiros trabalhassem ou fizessem estágios no Líbano, com a ideia subjacente de que se tornassem influentes líderes de opinião.

PROPAGANDA

Cohen também menciona planos de se filmar um documentário para mostrar a suposta boa convivência no Brasil entre libaneses cristãos, sunitas e xiitas.

O filme seria divulgado em um canal de TV de grande audiência, como a Al Jazeera, para propagar teses opostas às do Hizbollah, tidas como intolerantes.

Segundo o telegrama, "a maioria dos interlocutores brasileiros-libaneses abraçou a ideia de [colaborar com os EUA]".

As autoridades americanas avaliam, conforme redigido nos documentos, que a maior parte dos cerca de 10 milhões de libaneses naturais ou de origem instalados no Brasil são cristãos ou muçulmanos sunitas apegados ao Líbano e contrários à ingerência síria e iraniana.

O telegrama descreve em tom de aprovação os esforços de Suheil Yamout, empresário e representante informal do 14 de Março no Brasil, de financiar viagens de milhares de libaneses para que possam votar em eleições locais, como forma de engrossar o bloco pró-Ocidente nas urnas.

Consultado pela Folha, Yamout negou ter pago viagens, mas admitiu que mantém "cooperação cultural" com o consulado americano em São Paulo. Ele se negou a dar detalhes.

O consulado disse que tem "boas relações" com os libaneses no Brasil e que encara o convívio pacífico entre diferentes facções no país como um "exemplo para todo o Oriente Médio".