Todo ano ele vestia branco, ia à ceia, à missa, dava abraços falsos, pulava ondinhas, acertava tapinhas nas costas e participava de amigo secreto...
Jovem, servidor público bem empregado, bom salário, bonitão e certinho... muito certinho e reacionário, preconceituoso, patético... este era Miguel.
Ele era do tipo que não bebia, não fumava, não saia de noite... namorava só “de porta”, com “moça” e “pra casar” (embora fosse chegado à uma “conquistazinha” barata na periferia, às escondidas de todos, é claro!).
Conservador metido a “cabra macho”, odiava depravação.
Palavrão? Nem em pensamento! Libertinagem? Era pecado e papai do céu castigava!
Mas nos minutos finais de 2010 se operou, por graça de uma santíssima trindade etílica, uma alteração no destino do “garotão da mamãe”.
Na orla, ele se empolgou... amigos de fora, gente feia e bonita à disposição... um desfile de mulher e de bebida... música alta, contagiante... Queria mudar de vida e em 2011 tudo seria diferente...
Começou na inocente “Sidra” com sua característica maçãzinha. Só uma (duas, três, quatro, nove... onze...) taça (de plástico!), tolinha mesmo! Mas o álcool lhe subiu à cabeça e esta foi a primeira das divindades sagradas do réveillon. Faltavam outras duas, que não custaram a chegar.
Logo depois, antes das 22 horas, uma despretensiosa garrafa e um generoso copo de “Quinta do Morgado” surgiu a sua frente não se sabe pela mão de quem. Hummm... que delícia, só para rebater o “espumante”... e lá foi Miguel, já meio goró...
A orla já parecia o próprio inferno. Carros de babaca com aquelas caixas de som de tamanho inversamente proporcional ao cérebro de seus proprietários, pagode em último volume, ele já sem camisa se requebrando ao som do pandeiro...
Aí apareceu o terceiro santo do ano novo: balde de gelo, copão largo e aquela garrafa bregamente deitada de “Old Eight”. Já eram 23:30 horas, quase contagem regressiva e Miguel já tinha se transformado em Mimi... atordoado pelo que nunca experimentara, agora queria beijar muito...
Quase dez minutos antes das zero hora, multidão afoita. Um lance de olhares fez os de Mimi cruzarem com os de Scarlett. Foi paixão à primeira vista!
Quando os fogos começaram, só se viam línguas enroscadas... era a do garotão se digladiando com a bocarra daquela loiríssima de 2 metros de altura, seios fartos, pernas longas, quadril avantajado...
Rolaram na areia da praia, amando-se embaixo de jangada, sob um show de luzes e votos de Feliz 2011... Scarlett até sua carteira de identidade perdeu, reencontrando-a dias depois nos Correios da Rua do Sol, com a ajuda do amado.
Para tanto, foi só preciso dar seu nome de batismo: Francisco Rocha Pinto. Sim, Scarlett era, na realidade, “Chicão”...
Na manhã do dia 1º de janeiro, acordou com a lambida do cachorro na sua boca, em frente ao Maceió Mar Hotel, sob os olhos incrédulos de hóspedes turistas que vinham de São Paulo.
Seus atos na virada do ano repercutiram em toda a burguesia maceioense.
Dizem que depois disso Miguel pediu transferência para uma capital vizinha.
E vive hoje muito, muito, muito feliz!
“Toma uma” de vez em quando, não perde uma micareta... passou a ser mais tolerante e gente boa.
Assumiu Scarlett e vive junto “dela” em um constante ninho de amor.
O réveillon de Maceió foi catártico. Momento de purificação!