OSLO, 10 dez 2010 (AFP) -Diante de uma cadeira vazia para simbolizar a ausência de Liu Xiaobo, o Comitê Nobel realizou nesta sexta-feira, em Oslo, a cerimônia de entrega do Prêmio Nobel e pediu publicamente à China que liberte o dissidente chinês condenado a 11 anos de prisão.

"Liu só exerceu seus direitos cívicos. Ele não fez nada de ruim. Ele deve ser libertado", declarou o presidente do Comitê Nobel, Thorbjoern Jagland, enfatizando que a Constituição chinesa garante oficialmente a liberdade de expressão e o direito de criticar o aparelho de Estado.

Ao terminar seu discurso, Jagland pousou simbolicamente o diploma e a medalha do Nobel da Paz 2010 numa cadeira vazia. Junto à cadeira, havia um grande retrato de Liu sorridente.

"Muitos perguntarão se, apesar de seu poderio atual, a China não mostra certa fragilidade ao considerar necessário prender um homem durante 11 anos pelo mero fato de ter expressado suas opiniões sobre a forma como se deve governar o país", acrescentou Jagland.

"A pena severa infligida a Liu fez dele algo mais que um porta-voz central dos direitos humanos. Quase de um dia para o outro ele virou símbolo, tanto na China quanto no exterior, da luta por esses direitos na China", enfatizou.

O pedido de liberdade para Liu foi repetido em várias partes do mundo durante a cerimônia.

O presidente americano, Barack Obama, afirmou que Liu Xiaobo representa valores universais, e pediu à China que o liberte o quanto antes possível.

Obama, que recebeu o Nobel da Paz no ano passado, disse, em um comunicado, que "o senhor Liu Xiaobo merece muito mais este prêmio do que eu".

"Os valores que defende são universais, sua luta é pacífica e ele deveria ser libertado o quanto antes possível".

"Lamento que se negue ao senhor Liu e a sua esposa esta oportunidade de assistir à cerimônia, à qual Michelle e eu fomos no ano passado. Hoje também é o Dia Internacional dos Direitos Humanos, e deveríamos redobrar nossos esforços para promover os valores universais para todos os seres humanos".

A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, também pediu sua libertação.

"Reitero meu pedido para sua libertação imediata", afirmou Ashton, que já havia solicitado ao governo chinês que soltasse o dissidente quando seu nome foi anunciado como ganhador do Nobel da Paz.

"Neste dia dedicado aos defensores dos direitos humanos no mundo, penso em Liu Xiaobo", afirmou a chefe da diplomacia europeia.

O ministério chinês das Relações Exteriores, por sua vez, criticou o que chamou de "teatro político" do Comitê Nobel.

"Esse tipo de teatro político jamais fará vacilar a determinação do povo chinês no caminho do socialismo com características chinesas", declarou o porta-voz do ministério, Jiang Yu, em um comunicado que também faz menção a uma certa "mentalidade de guerra fria".

A cerimônia de entrega simbólica do prêmio Nobel da Paz, exibida ao vivo em vários países, foi censurada na China. Sem causar surpresas, as telas dos canais de televisão estrangeiros BBC, CNN e TV5 saíram do ar no momento do início da cerimônia.

Durante todo o dia, as autoridades chinesas bloquearam a transmissão dos programas de televisão estrangeiros sobre a entrega do Nobel. Os sites e vários outros meios de comunicação também foram censurados.

A China mobilizou muitos recursos para que a entrega simbólica em Oslo do Nobel da Paz ao dissidente passasse em branco para os 1,3 bilhão de habitantes do país.

Em 109 anos de história do Nobel da Paz, esta é segunda vez que o prêmio não pôde ser entregue ao laureado ou um representante. Sob o regime nazista na Alemanha, o pacifista Carl von Ossietzky não pode ir pegar seu Nobel em 1936 já que estava preso em um campo de concentração.

Em Oslo, ante chineses vivendo em exílio, a presidente da Câmara dos Representantes americana Nancy Pelosi e o casal real norueguês presentes apesar das ameaças de Pequim, a atriz norueguesa Liv Ullmann leu as intenções pacíficas de Liu Xiaobo um pouco antes de sua condenação.

"Não tenho inimigos, nem ódio", escreveu o ex-professor de 54 anos.

"Nenhum dos policiais que me vigiaram, me prenderam e interrogaram, nenhum dos procurados que me acusaram e nenhum dos juízes que me julgaram são meus inimigos", acrescentou.

Durante a cerimônia, cerca de cinquenta chineses manifestaram, em frente a jornalistas, na capital norueguesa para protestar contra a decisão do comitê Nobel, relatou um jornalista da AFP.

"Criminoso = Nobel da Paz?" ou "Nobel da Paz à China!" eram as mensagens escritas em inglês e em chinês nos cartazes amarelos dos manifestantes, todos muito parecidos.

"Ele quer transformar a China no modelo americano", declarou um manifestante, Ya Ming.

Segundo a Anistia Internacional, as autoridades chinesas pressionaram os chineses de Oslo para que eles participassem de contra-manifestações.

Classificando o opositor de "criminoso", a China tenta limitar o impacto do Nobel ao exigir que outros países boicotassem a cerimônia com ameaças de "consequências" aos Estados que apoiassem o dissidente.

Quase 20 países, incluindo China, Rússia, Afeganistão, Cuba, Venezuela, Irã e Iraque, recusaram o convite "por diversas razões", segundo o Instituto Nobel.

Alguns países que haviam recusado o convite anteriormente acabaram indo ao evento. São eles Colômbia, Sérvia, Filipinas e Ucrânia.

Já a Autoridade Palestina mudou de opinião e desistiu do convite.

Cerca de 45 outros Estados, no entanto, assistiram à cerimônia, como os membros da União Europeia, os Estados Unidos, Japão, Índia e Coreia do Sul.

Cinco outros prêmios Nobel 2010 foram entregues em Estocolmo para as disciplinas científicas (medicina, física química, economia) e literatura, para Mario Vargas Llosa (Peru).