O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, desmentiu na tarde de quarta-feira um tiroteio na comunidade da Fazendinha, no Complexo do Alemão, zona norte do Rio, nesta madrugada. "Não houve troca de tiros. Houve falha na empunhadura de uma arma", disse, durante caminhada no conjunto de favelas, ocupado desde domingo por forças de segurança. Segundo Beltrame, os disparos partiram da própria polícia e supostos traficantes não revidaram.

O secretário caminhou por cerca de uma hora por um trajeto de 2 km dentro do Alemão. Ele entrou pela comunidade da Grota, atravessou a favela e saiu na em Canitá. Apesar de forte escolta policial, Beltrame estava sem colete à prova de balas e usava apenas uma camiseta branca. O secretário chegou ao conjunto de favelas acompanhado de chefes da polícia no Rio, que usavam camisas dos clubes cariocas Flamengo, Fluminense e Vasco, para dar um tom mais popular à visita. O comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio usava a do Vasco.

Durante o percurso, ele parou para conversar com alguns moradores e recebeu apenas acenos discretos. "Este lugar tem um estigma de violência desde os anos 90. Hoje eu recebi alguns cumprimentos discretos e dá até para entender, já que as pessoas não estão completamente à vontade. O que eu posso garantir a elas é que a polícia vai ficar aqui e este local será policiado continuamente", afirmou.

Para uma moradora que se queixou de abuso policial no interior de sua residência, Beltrame disse que reconhecia a ausência do Estado no local e disse que essa não é uma conduta esperada dos policiais que participam da ação. "Há registro de algumas queixas nesse sentido e queremos apurar todas elas", afirmou. "É temerário e injusto acusar sem podermos provar. A iniciativa de trazer a ouvidoria (da polícia) até aqui foi minha e vamos analisar caso a caso", disse sobre a ouvidoria instalada na Penha para registrar queixas de moradores.

Violência
Os ataques tiveram início na tarde de domingo, dia 21, quando seis homens armados com fuzis incendiaram três veículos por volta das 13h na Linha Vermelha. Enquanto fugia, o grupo atacou um carro oficial do Comando da Aeronáutica (Comaer). Na terça-feira, todo efetivo policial do Rio foi colocado nas ruas para combater os ataques e foi pedido o apoio da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para fiscalizar as estradas. Ao longo da semana, Marinha, Exército e Polícia Federal se juntaram às forças de segurança no combate à onda de violência que resultou em mais de 180 veículos incendiados.

Na quinta-feira, 200 policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) tomaram a vila Cruzeiro, no Complexo da Penha. Alguns traficantes fugiram para o Complexo do Alemão, que foi cercado no sábado. Na manhã de domingo, as forças efetuaram a ocupação do Complexo do Alemão, praticamente sem resistência dos criminosos, segundo a Polícia Militar. Entre os presos, Zeu, um dos líderes do tráfico, condenado pela morte do jornalista Tim Lopes em 2002.

Desde o início dos ataques, pelo menos 39 pessoas morreram em confrontos no Rio de Janeiro e 181 veículos foram incendiados.