CARACAS, 11 Nov 2010 (AFP) -O governo do presidente Hugo Chávez entrou com força na dieta dos venezuelanos, ao assumir o controle de várias empresas para conseguir a "soberania alimentar", uma opção questionada por empresários que temem uma invasão do Estado em um campo gerido pela iniciativa privada.

Chávez tem estatizado, desde 2007, várias empresas do setor da alimentação, de agroquímicas, firmas de alimentos congelados e produtoras de envases de vidro até redes de supermercado.

Ele também "recuperou" 2,5 milhões de hectares desde 1999, embora apenas 50.000 estejam produtivos, segundo cálculos de agricultores particulares.

O governo diz estar lutando contra a especulação, os monopólios e o estoque de produtos para a cobrança de ágio, embora os empresários afirmem que, em um setor tão regulado, é impossível especular sobre os preços.

"Devemos acabar com os oligopólios, os monopólios. Lutemos contra o capitalismo", disse recentemente Chávez, que promete alcançar a "soberania alimentar" neste país petroleiro que importa grande parte dos produtos que consome.

"Liberada a terra, liberado o trabalho escravagista, veem os planos produtivos, a produção de alimentos, não para torná-los mercadoria, mas para alimentar nosso povo", disse Chávez, no poder desde 1999.

No começo de 2010, o governo nacionalizou a rede de supermercados Exito, da cadeia francesa Casino, que agora faz parte da estatal Corporación de Mercados Socialistas, que abrange de restaurantes a concessionárias de veículos e vende produtos a preços baixos no país com a inflação mais alta da região (25,1% em 2009).

O governo também nacionalizou processadoras de café, arroz e açúcar, e decretou em 2003 o controle de preços para vários produtos básicos. Nos supermercados venezuelanos, no entanto, estes alimentos, assim como leite e carnes, costumam faltar.

Em meados deste ano, o governo enfrentou também um escândalo com a descoberta de milhares de toneladas de alimentos podres, encontrados em depósitos estatais.

"O governo está assumindo uma série de atribuições, tornando-se industrial, comerciante, agricultor, invadindo a atividade normal dos setores privados, que não lhe são próprios, mas que considera estratégicos", disse à AFP o presidente da entidade patronal Fedecámaras, Noel Álvarez.

"É uma concorrência desleal e aberta contra o setor privado", acrescentou.

Álvarez afirmou que, com preços controlados "não rentáveis" e com a escassez de divisas em um país onde o mercado cambiário é regulado, "o governo leva à destruição a infraestrutura produtiva".

Segundo a Câmara Venezuelana da Indústria de Alimentos, 160 empresas do setor foram nacionalizadas ou estão a caminho de sê-lo, e quase a metade de todas as companhias de diversos setores considerados estratégicos, como petróleo e cimento, foi estatizada nos últimos três anos.

Opositores a Chávez afirmam que as nacionalizações, como a da firma americana de recipientes de vidro Owens Illinois, visam a encurralar a privada Polar, a gigante venezuelana de cerveja e alimentos que, muitas vezes, foi ameaçada de expropriação.

A Owens Illinois controlava 60% do mercado na Venezuela e era a principal fornecedora da Polar, à qual Chávez acusa de armazenar produtos e conspirar contra seu governo, embora tenha dito que, por enquanto, não tem planos de nacionalizá-la.