A mina San José, onde 33 mineiros ficaram presos por quase dois meses a 700 m de profundidade, funcionava sem cumprir determinações de segurança do Serviço Nacional de Geologia e Minas do Chile (Sernageomín, na sigla em espanhol). Localizada no deserto do Atacama, no Chile, a mina funcionava há 30 anos e já havia sido fechada por várias vezes por problemas de segurança. Depois da última interdição, em julho passado, os trabalhos foram retomados com autorização do Sernageomín, mesmo sem cumprir as determinações feitas pela fiscalização. As informações constam no relatório feito pela Comissão de Minas e Energia da Câmara de Deputados do Chile, e foram confirmadas pela proprietária da mina, a Compania Mineria San Esteban Primeira S.A., em conversa telefônica com a reportagem do Terra.

O relatório da comissão da Câmara chilena, que deve ser concluído no início de novembro e ao qual o Terra teve acesso, aponta que, ao ser reaberta, após um acidente que amputou a perna de um mineiro em 3 de julho, a mina não tinha uma segunda saída (que poderia ter evitado o enclausuramento dos 33 homens) e uma escada no duto de ventilação - requisições que haviam sido feitas pelo Sernageomín, órgão responsável pela fiscalização no Chile, em dezembro de 2009. Mesmo assim, foi liberada para funcionamento pelo subdiretor regional do Sernageomín no Atacama, Rodolfo Díaz. Trinta e quatro dias após a mutilação do mineiro, a San José soterrou 33 homens.

Esta liberação, segundo relatório do legislativo chileno, aconteceu sem que fossem cumpridas as tais normas de segurança. No documento citado pelo relatório dos parlamentares, Díaz afirma apenas que considerou "cumpridas as medidas solicitadas" pelo órgão de fiscalização.

Em conversa telefônica com a reportagem do Terra, a assessoria de imprensa da empresa Compania Mineria San Esteban Primeira S.A. confirmou que a mina foi reaberta sem que as medidas de segurança tivessem sido concluídas e que o Sernageomín sabia disso. No entanto, a Sernagomín informou que os episódios que envolvem a mina estão sob investigação e não quis comentar o caso. Disse apenas que os departamentos regionais só podem autorizar a reabertura, após análise da sede na capital, Santiago.

Essa informação também consta no relatório da comissão parlamentar chilena, que detalha os incidentes ocorridos nos últimos três anos na San José. Segundo o documento, desde 2007, a mina foi interditada duas vezes por causa de acidentes. O mais grave aconteceu em janeiro daquele ano, com a morte do geólogo Manuel Villagrán Díaz, após o desprendimento de uma rocha.

Após o primeiro acidente, a mina foi fechada e voltou a funcionar parcialmente em março de 2008 sob autorização do subdiretor Nacional de Minas, Exequiel Yanes, mesmo sem que as informações geotécnicas solicitadas pela Sernageomín tivessem sido entregues pelo gerente-geral da mina San José, Alejandro Bohn. No dia 30 de maio de 2008, Patricio Leiva, na condição de subdiretor Nacional de Minas, disse que haviam sido aprovados pelo Sernagomín os projetos de ventilação, elétrica, e o estudo geomecânico, solicitados após o acidente, e a mina voltou a funcionar plenamente. A próxima interdição foi a de 3 de julho.

A mina de San José funciona desde 1980. É considerada de médio porte, o tipo mais problemático junto com as de pequeno porte, segundo informações do legislativo chileno. A assessoria de imprensa da empresa San Esteban afirma que a segurança na mina era maior do que a determinada pela legislação chilena, e o refúgio onde ficaram abrigados os 33 mineiros presos é prova disso. A empresa sustenta que nenhuma medida de segurança poderia evitar o desabamento de 5 de agosto. Os donos da empresa preferem não conversar com a imprensa, mas, por meio da assessoria, afirmam que se as regras de segurança no Chile não são suficientes, e o governo deveria pensar em mudá-las.

Com faturamento de US$ 7, 8 milhões em 2009, a Companhia Mineira San Estaban Primera S. A. emprega cerca de 300 pessoas. Corre na justiça chilena um processo de falência da empresa, e um especialista foi designado pelo tribunal para analisar se a empresa poderá retomar suas atividades. A decisão judicial deve sair em 20 dias. Segundo a assessoria da San Esteban, a empresa enfrentava problemas financeiros, mas nos dois meses anteriores ao acidente, apresentou bons resultados, graças à renegociação de dívidas com credores e trabalhistas.