Era o maior mau pagador da cidade, e disparado o maior sovina da região. Chico “Xexo” fazia questão de dar calote e de não dar nada a niguém. Dinheiro emprestado, prestação de prestamista, aluguel, conta no boteco. Não pagava. E não gastava. Só o minimamente essencial. Sua filosofia era: “ – O mundo já me deve o bastante!”
Solteirão convicto, mulherengo de insucesso, vivia de “renda” e na solidão. Sovina que só, economizava até o último tostão. Tinha casa de aluguel, carro do ano, terra, camisa de seda. Tudo fruto da herança da mãe, viúva de fiscal de renda corrupto. Menos uma mulherzinha.
Chico “Xexo” odiava o apelido. Era sim Francisco Malaquias Vicentino. O resto, qualquer alcunha, cognome ou antonomásia era intriga da oposição. Virava onça quando ouvia a referência ao “xexeiro”. Partia para as vias de fato.
Francisco, nosso Chico, vivia assim. Solitário, pão duro e caricato na São Jose do Bonfim, cidade do sertão nordestino onde água era artigo de luxo e luxo artigo de poucos. Até o dia em que conheceu Amelinha, sobrinha de dona Ziza, sua inquilina.
Não havia outra definição: Amelinha era linda. Loura, baixinha, quartuda. E ponto final. Chico “Xexo” arriou. Que fazer? Namorar... Mas para namorar, tem que gastar. E Amelinha, moça criada em sítio, acostumada com fartura, não queria pouco. Deslumbrada estava com o comércio do município, para ela uma nova descoberta.
E, ainda para ela, São Jose do Bonfim era uma metrópole. Queria vestido novo, “maquilagem”, sapato do bom. Cinema, namoro na praça com lanche e viagem para a capital, se fosse para casar.
O namoro começou, para euforia e apreensão de Chico. Se era para ter a mulher amada e desejada, teria que se desfazer de um pouco do capital em pequenas quinquilharias do capitalismo, sempre medíocres.
Nas primeiras semanas, vestido novo. E perfume também, afinal, Amelinha gostava de lavanda, da boa, importada sabe-se lá se, de Paris. Presilha, “volta” banhada a ouro, o novo filme do Sinatra. Amelinha descobria as benesses da pequena burguesia bomfinense, mas nas costas do Chico era dose.
Que desespero ao abrir a carteira! Que dor! Chico pagava com olhar de transtorno e desolação a cada desejo supérfluo da galega.
Que dor!
Por freio em início de namoro e perder a moça. Nem pensar! Até que pensava, a cada cédula, já que sem crédito nenhum na praça só lhe vendiam a dinheiro vivo. Estupefatos todos os lojistas! Chico "Xexo" pagando, e a vista. Milagre!
Um ano se passou e a moça cada vez mas emperiquitada estava. Para sua alegria e para definhar diário do Chico. E um ano era muito tempo, hora de casar. “ – Vai que, casada, o freio é mais fácil”, pensou o mão de vaca. Pedido de noivado feito, e aceito pela donzela perfeita em curvas, o jeito era casar logo. Assim era mais economia em enxoval, em festa, e não dava tempo para convidar a parentada da noiva lá da capital, que ai sim eram mais bocas, e mais custos, nos festejos.
Mas Amelinha era insaciável em sua fome consumista. Enxoval, só do melhor. Colchas de “chenil” foram umas vinte! Geladeira, tinha que ter, comprada e vinda de caminhão naqueles idos de 1960. Camisolas e robes, aos montes. E a festa tinha que ter banda boa, tocando os clássicos da jovem guarda e da seresta. Chico via suas economias se esvaindo. Tinha muito guardado, mas cada centavo de mil-réis era punhalada covarde nos peitos.
Chico “Xexo” adiou, adiou, disse que faltava tempo, e nem terno novo comprou. Não via a hora de casar logo e ir para a noite de núpcias com aquela donzela chatinha, “gastadeira”, mas um primor de mulher em formas. Sapato, botou a bota da formatura em contabilista, de mais de 20 anos. A cada dia a aflição aumentava.
E eis que chegara o grande dia. Chico, em transe, só diminuía, ou aumentava, o mal estar, quando associava o pensamento nas coxas da galega ao saldo bancário que lentamente se queimava, a despeito de muito no banco ter já que foram anos de pouco comprar e raro pagar.
Cadillac alugado (que horror para Chico!), Amelinha foi para a igreja com o tio, órfã de pai que era. Chegou lá, nada do noivo, que se atrasara. Foi uma noite sem dormir para Chico e, além disso, fora de cavalo para economizar o diesel da Rural. Amelinha, na porta da igreja, esperava o amado. Ao avistá-lo, tranqüilizou-se. Seria feliz para sempre?
Chico chegou branco, esbaforido, suado. Não quis conversa com ninguém. Olhos esbugalhados, pegou nos braços da noiva. Queria acabar com aquilo logo, desfrutar da vantagem carnal do casamento e, já marido, brecar a fome de gastar da semi esposa.
Dispensou a condução do tio e resolveu ele mesmo levar a noiva, que pegou na sua mão fria e pensou: “- Deve ser emoção”! Ao se abrirem as portas da catedral de Bomfim, ao ver a igreja lotada, toda decorada de crisântemos, topada de gente e até com orquestra e coral, além de damas de cerimônia, quase foi ao chão. Mas suportou, espartano de bolso e de emotividade.
Correu com a noiva, pediu pressa ao vigário. Os convidados nem ouviram toda a marcha nupcial. O padre estranhou, mas conhecia as “esquisitices” de Chico sovina, desde moleque. Rezou Pai Nosso, fez trocar alianças e juramentos, deu o livro para assinar. Chico, cada vez mais pálido, ofegante.
Hora do beijo. Tão esperado! Amelinha tirou o véu do rosto. Busto farto à mostra, colar de ouro no peito. Festança e viagem para a praia em hotel de carestia como lua de mel. Boca de Chico cheia d’água, coração cheio de pulsação. Chico não agüentou!
Enfarto agudo do miocárdio. Morte imediata. Amelinha recém casada, recém viúva ficara.
Foi um choque em toda a cidade. Francisco Malaquias Vicentino morria no altar, minutos após o sim. Amelinha, aos prantos, chamava seu amor!
Viúva, herdou automaticamente tudo de Chico. A Rural azul e branca novinha, casas, chácara e uma conta bancária cheia!
Mandou comprar o caixão mais barato e nem vestiu o defunto. Afinal, arrumado na hora da morte ele já estava. Velou a noite e enterrou no dia seguinte.
Aquele fato consternou todo o município e região. Mas o que fez todo mundo fuxicar foi um mês depois Amelinha namorar e se juntar ao Joca Presépio, jogador de cartas, “raparigueiro” de muitas donas, vagabundo e enganador.
Ao conquistar a viuvinha formosa, Joca acertou no milhar. Viveu o resto de sua via às custas do espólio do Chico, que demorou mas pagou, mesmo não tendo levado.