A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, anunciou nesta quarta-feira o primeiro pacote de sanções unilaterais contra cidadãos do Irã por violação de direitos humanos --um recado duro de Washington em meio aos esforços para retomar as negociações sobre o controverso programa nuclear iraniano.

O alvo das sanções são oito dirigentes iranianos por violações de direitos humanos na dura repressão governamental contra os protestos da oposição reformista. Entre eles está Mohammad Ali Jafari, um dos chefes da Guarda Revolucionária do Irã, que teria comandado as forças que reprimiram violentamente os pacíficos protestos da oposição após a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, a qual denunciam ter sido fraudada.

A lista inclui ainda Sadeq Mahsouli, ministro de Bem Estar e Segurança Social. Ele foi ministro do Interior na época da eleição e, como tal, tinha autoridade sobre as forças policiais. Suas forças, alega o governo americano, foram responsáveis pelo ataque contra os dormitórios da Universidade de Teerã, em 15 de junho de 2009, no qual estudantes foram espancados e detidos.

Entre os afetados estão também Said Mortazevi, ex-procurador geral de Teerã, suspenso de suas funções após ter sido acusado pela morte de três opositores ao regime numa prisão em julho de 2009.

O anúncio foi feito por Hillary e pelo secretário do Tesouro, Timothy Geithner, contra aqueles "responsáveis por violações severas e sustentadas dos direitos humanos no Irã". As medidas determinam que os bens dos oito sejam congelados e proíbem cidadãos americanos de fazerem qualquer transação financeira com eles.

Hillary afirmou que as sanções são uma declaração dos valores americanos. "Expressamos assim solidariedade pelas vitimas destas ações ao redor do mundo", disse a secretária americana, acrescentando que Washington demonstra ainda sua solidariedade com os iranianos "que querem um governo que respeite os direitos humanos e a liberdade".

"Falamos por aqueles que não conseguem falar por si por temer violência contra si mesmos e suas famílias", continuou Hillary, que exortou o governo iraniano que encerre os abusos de direitos humanos.

Questionada por repórteres, Hillary afirmou que as sanções já aplicadas ao Irã estão surtindo efeitos e que, ao serem aplicadas contra dirigentes específicos, não trarão consequências negativas ao povo iraniano --uma crítica costumeira contra as medidas punitivas.

REELEIÇÃO

Ahmadinejad foi reeleito em pleito do dia 12 de junho do ano passado, com cerca de 63% dos votos contra 34% do principal candidato da oposição, Mir Hossein Mousavi.

O anúncio do resultado foi imediatamente questionado por adversários. Milhares de pessoas foram às ruas para pedir a recontagem dos votos em face das acusações de fraude. Os protestos, enfrentados com violência pela polícia e a milícia Basij, ligada à Guarda Revolucionária, deixaram ao menos 20 mortos, dezenas de feridos e cerca de 2.000 presos.

Foi o período de maior agitação política no país desde a Revolução Islâmica, três décadas antes. Entretanto, as autoridades eleitorais rejeitaram a recontagem. Imagens da repressão que se seguiu aos protestos correram o mundo, principalmente a partir de filmagens feitas por manifestantes em Teerã e em outras cidades do país. Jornalistas tiveram sua cobertura fortemente restrita durante os incidentes.

O Conselho dos Guardiães do Irã, órgão responsável por ratificar o resultado do pleito, aceitou fazer uma recontagem parcial dos votos para acalmar a oposição, mas confirmou a reeleição de Ahmadinejad depois de afirmar que a fraude em cerca de 3 milhões de votos não era suficiente para mudar o resultado das urnas.