Já vai longe o tempo em que Mané do Cavaco deixava sua Mangueira em direção ao Morro dos Macacos, reduto da Vila Isabel do amigo Martinho, toda sexta-feira.O destino era a Tenda do Cabeção, de onde o músico só se despedia dos amigos de boemia na segunda. Mas o tráfico tomou conta das comunidades, a guerra entre facções tornou rivais as duas favelas, e a batidinha predileta de Mané teve que esperar algo à época considerado pouco provável: a paz subir novamente o morro.


Como inspiração de artista subverte a lógica, Martinho gravou uma música utópica para o CD Brasilatinidade, lançado em 2005. Nela, mostrava como seria um passeio por favelas cariocas livres da violência. Ouvida agora, a faixa parece profética: quatro comunidades — Formiga, Borel, Salgueiro e Andaraí — estão pacificadas e outras três receberão Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em breve: justamente o Macacos, de Martinho, e a Mangueira, de Mané, homenageado na letra, além do Turano.


— Eu ouvia as pessoas dizendo: “Eu queria ir na favela tal, queria ir lá no Macacos...” E eu dizia: “Agora, só quando essa onda passar”. Aí, tive a ideia da música. Hoje, isso está começando a acontecer — explicou Martinho, num encontro com Mané do Cavaco, promovido pelo jornal Extra na última segunda-feira.


Para o cantor e compositor da Vila Isabel, a tensa espera por uma invasão, seja da polícia ou de uma facção criminosa inimiga, afastou as pessoas das comunidades:


— Antes, havia uma referência, um respeito com os moradores. Mas, quando o morro é tomado por outra facção, entra um pessoal que não conhece ninguém, estranha todo mundo e está com medo de todo mundo. Aí, não dá para ir, né?! Se você for, os próprios caras (do tráfico) falam: “É melhor você ir embora”. Estão todos sempre esperando uma invasão, de outra facção ou da polícia.


Talento por trás da introdução de sucessos como “Devagar, devagarinho” e “Cuca maluca”, Mané do Cavaco mudou de hábito por contada desconfiança gerada por essa tensão:


— Uma vez estava indo para a Tenda do Cabeção e um casal ficou olhando para mim. Decidi continuar andando e eles até me cumprimentaram, mas não vou mais ao Macacos.


Unificação da cidade


Na visão do sambista da Vila Isabel, devolver a paz às comunidades, é só início do processo de cidadania.


— Eu escrevi um livro, “Ópera Negra”, que falava sobre isso que está acontecendo. Não adianta subir a favela e depois ir embora. Tem que ocupar, mas não só com a polícia. Tem que levar avanços: escola, hospital. Devia ter um pessoal da Defensoria Pública também quando a polícia subisse, para ter uma outra abordagem — diz Martinho, que acredita que a pacificação une a cidade:


— Acredito que é um caminho bom e sem volta. Se isso tivesse sido feito tempos atrás, o Rio hoje seria uma cidade só. Há muito tempo existem duas: a favela e o asfalto.


E a tal promessa da roda de samba no Macacos?


— Brevemente — assegura Mané do Cavaco.


— No duro, nós poderíamos ir mesmo sem as UPPs, né Mané? Não teríamos problema e não ia acontecer nada com a gente. Mas o pessoal ficaria tenso, e tem que ser descontraído. Vai ser mais legal agora — confessa Martinho.

 

Confira a letra da música:

 

Quando essa onda passar
(Composição: Martinho
da Vila )

Quando essa onda passar

Vou te levar nas favelas

Para que vejas do alto
Como a cidade é bela
Vamos à Boca do Mato
Meu saudoso Pretos Forros
Quando essa onda passar
Vou te levar bem nos morros


Não sei onde vamos primeiro
Quando essa onda passar
Formiga, Borel ou Salgueiro
Quando essa onda passar
Sei que vou lá na Mangueira
Pegar o Mané do Cavaco
E levar pra uma roda de
samba
No meu Morro dos
Macacos


Quando essa onda (...)
É bom zuelar nas
umbandas lá do Vidigal
Candomblés, no Turano
Um funk, um forró, um
calango
No Andaraí, Tuiuti ou
Rocinha

Ver os fogos de fim de ano
Da porta de uma tendinha
E depois vamos dançar um
jongo num terreiro da Serrinha