Como nenhuma outra, esta eleição joga luz sobre a presença feminina na corrida às urnas e sobre a influência do voto delas no resultado do pleito. O fato de haver duas mulheres na disputa pelo cargo mais alto do Executivo – Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) – reforça essa ideia. Primeira colocada nas pesquisas, Dilma apostou todas as fichas no voto feminino. A estratégia deu certo e não foi montada à toa. As mulheres representam mais da metade (52%) do eleitorado brasileiro, de 135 milhões de pessoas. São 70 milhões de votos.
Mas será que o gênero pesa mais na hora da escolha delas? Ou, no caso de Dilma, a herança e a imagem de Lula predominam? VEJA.com consultou especialistas sobre a questão. Eles não são unânimes em garantir que as mulheres tendem a votar em outras simplesmente por serem mulheres. Porém, o crescimento da petista entre o público feminino indica que apostar em uma campanha direcionada a elas pode fazer a diferença.
No início do ano, José Serra (PSDB) tinha a história a seu favor. Desde a primeira candidatura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre teve mais eleitores homens que mulheres. Elas costumavam ser maioria no voto aos tucanos. Em março, a diferença no voto feminino entre Dilma e Serra era de 16 pontos porcentuais a favor dele. Até aquele momento, a petista não era tão conhecida e tinha uma imagem sisuda e considerada séria demais para representar as mulheres. O PT entendeu o recado e mudou de estratégia.
Já na pré-campanha, Dilma adotou o ritual de abrir os discursos cumprimentando as mulheres presentes e fez mudanças radicais no visual. Trocou os óculos por lentes de contato, fez cirurgia plástica, arrumou os dentes, pintou os cabelos. Na última semana, a transformação chegou ao guarda-roupa. O renomado estilista Alexandre Herchcovitch foi contratado pelo marqueteiro João Santana para ser o consultor de moda da candidata.
A ofensiva petista para conquistar as mulheres não parou por aí. Integrantes da campanha e do governo passaram a chamá-la de “a primeira presidenta do Brasil” - assim mesmo, com “a”. O feminismo da palavra, apesar de incomum, não é errado e foi enfatizado estrategicamente pelos marqueteiros. “Não foi uma simples mudança gramatical e de imagem, eles perceberam que havia esse vácuo na representação feminina na política e apostaram nisso”, analisa a socióloga do Instituto Patrícia Galvão, Fátima Pacheco Jordão.
Estratégia – O resultado da tática petista é visto com clareza na pesquisa Datafolha de 20 de agosto, ao fim da primeira semana de propaganda eleitoral na TV. O programa de Dilma apelou para o lado emocional da história da candidata, com destaque explícito para seu papel de mãe. “Essa questão da família tem um peso muito grande, é uma instituição muito forte no mundo ocidental”, argumenta Rui Tavares Maluf, cientista político da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
Até a polêmica passagem de Dilma pela guerrilha na época do regime militar foi usada em benefício de sua imagem. “Com depoimentos de amigas dela, a guerrilheira virou guerreira. Conseguiram transformar o fator negativo da luta armada em fator positivo”, comenta Fernanda Feitosa, cientista política e consultora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea). “É uma estratégia de cálculo muito sutil e inteligente que está conduzindo a essa perspectiva de vitória”. De acordo com o Datafolha de 25 de agosto, Dilma passou a ter 15 pontos porcentuais a mais que Serra entre as mulheres.