Para aproximar a polícia da realidade dos jovens de comunidades carentes e evitar episódios como o do cineasta Rodrigo Felha, que disse ter as calças abaixadas por um PM, um projeto da Central Única das Favelas (Cufa), com inauguração marcada para este sábado (14), vai oferecer aulas de rap, audiovisual e grafite para 45 policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio.
A iniciativa, denominada Mão na Cabeça, une jovens da CDD e PMs nas salas de aula. De acordo com Celso Athayde, fundador da Cufa e um dos coordenadores do projeto, MV Bill e Negra Li darão aulas de rap; Caetano Veloso foi convidado para falar sobre trilha sonora; Luiz Eduardo Soares ministra oficina de roteiro; Lázaro Ramos é esperado para curso de atuação; Paula Lavigne e Flora Gil falarão sobre captação e produção audiovisual.
Os PMs também aprenderão hip hop, break, skate, edição de imagem, entre outros cursos. Ao fim das oficinas, que devem durar seis meses, será lançado um cd e ainda um documentário. "O diferencial é que não vai chegar aqui um cienasta bacana para fazer um filme, eles é que vão fazer seu próprio filme", disse Athayde. Depois das aulas de grafite, os muros das UPPs do Rio ficarão pintados no fim de 2010. A notícia foi divulgada na coluna Alcelmo Gois, do jornal O Globo, na sexta-feira (13).
Em maio, em entrevista ao G1 durante o festival de cinema de Cannes, Felha já havia mencionado a ideia do projeto de conscientização dos policiais. Na ocasião, ele declarara: "O soldado vai ser punido? Vai. O assunto morre? Não. Acho que a gente tem que formar alguma coisa positiva com isso".
Na queixa registrada, o cineasta afirmou que foi humilhado por um soldado, quando saía de casa, por volta das 23h. O assistente de direção Fernando Barcellos, que também trabalha no filme, contou que o PM não pediu identificação e puxou as calças dos dois.
"Ele sequer perguntou meu nome, sequer perguntou do meu trabalho ou onde eu morava. Foi só 'mão na parede', e minha calça, que é de tac-tel e elástico, foi abaixando", declarou o cineasta na época do episódio. "A polícia está entrando para acertar a favela a partir do ponto de vista deles, mas acho que chegou a hora de a favela consertar eles também", concluiu.
Recursos próprios
Segundo Athayde, os gastos com o projeto serão bancados pelos próprios alunos - jovens da CDD e policiais. Mas já existe uma negociação com o governo do estado.
"Os PMs que vão pagar suas passagens, sprays, grafites. Vamos levar o projeto para o estado para que a Secretaria Social e de Cultura possam abraçar esse projeto, já que não é só de interesse dos PMs, mas precisa virar referência para o resto do país.", disse.
Segundo Fernanda Borrielo, da coordenação de núcleo de projetos da Cufa, a organização já fechou uma parceria com o governo do estado através da Secretaria de Assistência Social.
O comandande Medeiros contou que a tropa que irá participar do projeto está motivada. "Tem PM que se inscreveu em todos os cursos. Estamos tendo oportunidade de construir juntos", concluiu.