A escola onde o menino Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade, 11, foi atingido ontem por uma bala perdida receberá na segunda-feira (19) a visita de uma equipe multidisciplinar do Proinape (Programa Interdisciplinar de Apoio às Escolas Municipais). De acordo com a assessoria de imprensa da prefeitura do Rio, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais se reunirão com professores, pais e alunos do Ciep (Centro Integrado de Educação Pública) Rubens Gomes.
A secretária municipal de Educação, Claudia Costin, disse nesta sexta-feira (16), no Twitter, que irá à escola na segunda-feira. Mas sua assessoria não confirma.
Na manhã deste sábado, no enterro de Wesley, professores e alunos estavam apreensivos em relação ao retorno às aulas. "Não sei se vou conseguir voltar", desabafou a professora que dava aula ao menino no momento em que ele foi atingido. Ela pediu para não ter seu nome divulgado.
Estudante da terceira série, Denise Moreira, 10, disse que não quer voltar a estudar. "Sempre tem tiro lá. A gente sai da sala, se abaixa e fica no corredor. Um menino da minha sala se machucou porque pisaram nele", contou. "Eu não quero mais voltar para a escola".
Enterro
Wesley foi sepultado no final da manhã deste sábado, no cemitério de Irajá, zona norte do Rio. Colegas e professores do Ciep Rubens Gomes, onde o menino estava quando foi atingido no peito por uma bala perdida disseram estar traumatizados.
Nenhuma autoridade municipal ou estadual compareceu ao enterro. A escola é municipal, e a Polícia Militar, estadual, poderá ser responsabilizada pela morte de Wesley. A polícia fazia uma operação em favelas de Costa Barros (zona norte) contra traficantes, e os tiroteios culminaram na morte do menino. Em função do episódio, o comando da Polícia Militar exonerou ontem o coronel Fernando Prínicipe do comando do 9º Batalhão de Polícia Militar.
Em voz alta, a diretora do Ciep, Rejane Pereira, lamentou na capela do velório o que aconteceu. "Foi tudo embora com o Wesley. Todo o nosso trabalho foi embora. Wesley, perdoa a gente, filho. Perdoa a professora, perdoa", disse.
A Secretaria Municipal de Educação comunicou à direção da escola que quem não se sentir bem não precisa ir à escola na segunda. Mas pediu para quem for usar roupas brancas.
Segundo os relatos, eram comuns os tiroteios na região. As crianças eram orientadas a ir para o corredor, pois as janelas das salas são voltadas para as favelas. Ontem, depois que os tiroteios pararam, voltaram para a sala. Em seguida, Wesley foi atingido. Caminhou para o corredor e caiu diante da porta de outra sala.
"Pelo amor de Deus, não deixa ele morrer", diziam as crianças, apavoradas, segundo lembravam os professores no enterro.
O professor Felipe Ribeiro reclamou do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Disse que ligou três ou quatro vezes no intervalo de meia hora, e não foi atendido. Professoras e funcionárias da escola acabaram pondo Wesley num carro. No caminho para o hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, encontraram uma ambulância, que as ajudou. Mas o menino morreu antes de ser atendido no hospital.
"Quem garante que ele vai ser o último?", gritava a doméstica Rejane Célia, vizinha de Wesley e cujos dois filhos estudam no Ciep.
"Ninguém toma providência. Hoje é o filho dela, amanhã é o meu, ninguém faz nada", afirmou outra mulher, sem se identificar.
Muito abalada, a mãe de Wesley não quis falar com repórteres. O pai, o caixa de restaurante Ricardo Freire de Andrade, 31, disse não estar "com a cabeça para pensar em nada", e que depois vai decidir se entra com ação contra o Estado.
Wesley morou com pai em São Paulo até os 8 anos. Depois veio para o Rio morar com a mãe, já que o casal era separado. Havia a possibilidade de ele voltar a morar com o pai, que desejava ir para Recife, sua cidade natal, para tentar escapar da violência da área em que o menino morava.