Depois do terror, hora de voltar para casa e contabilizar o prejuízo. Mas a dor parece ser inevitável. As memórias recentes e as histórias de amigos não deixam o trauma se tornar mais uma lembrança. Pelo menos esta foi a sensação que a equipe do CadaMinuto teve ao percorrer três cidades afetadas no Vale do Mundaú, em Alagoas: Rio Largo, União dos Palmares e Branquinha.
O universo é bem maior. Ao todo foram 26 municípios, que sofreram com estragos causados pela enchente, da última sexta-feira (18). Arriscar a nascente desta tragédia é um tanto quanto inconseqüente. Diversas variantes podem ser apontadas como causas: ocupação irregular, construções deterioradas, sem as mínimas condições básicas de infra-estrutura. Mas o que se percebe é destruição.
Os mais velhos, que parecem ter mais experiência, ainda não acreditam o que aconteceu. Muitos não conseguem dimensionar, afinal, nunca viram nada parecido. “Eu sempre morei aqui na cidade, minha vida é intimamente ligada com este rio [Mundaú]. Nunca o vi subir tanto”, se emocionou dona Irene Ferreira, de 71 anos.
Ela foi encontrada na parte baixa da cidade de Rio Largo. Entrando de loja em loja, passando de banca em banca. “Tenho que ver se todos estão bem. São amigos de longa data, muitos eu vi crescer, sempre nesta feira. É um carinho que desenvolvemos com o passar dos anos”, justificou Irene.
De rua em rua, os olhos desta rio-larguense se enchiam de lágrimas. O que se via eram geladeiras, mesas, carros, dentre outros bens materiais. Mas o que sentia é que ali não estava o mero investimento, que pode ser recuperado, e sim um sonho. Cada um traduzia em palavras, gestos ou muito trabalho, o que os olhos insistiam em não acreditar. “O que não podemos é desistir, nem desanimar, não é meu filho?”, se encheu de esperanças, a exemplar senhora.
Rio Largo: pouco tempo, alerta em cima da hora
Muitos comerciantes da cidade reclamaram do alerta que foi emitido pela Defesa Civil do Município. As casas, estabelecimentos comerciais do centro da cidade, que ficam à beira do Rio Mundaú, foram invadidas logo após a emissão do alerta – sem dar tempo às vítimas. “Não deu tempo para retirar os imóveis, muitos de nós saímos somente com a roupa do corpo”, Maria do Socorro.
Bem próximo à sua casa, Socorro sustenta sua família com uma banca de feira. Na hora da enchente, ela estava na banca – comercializando seus produtos. “Todas as minhas mercadorias foram embora, só a banca escapou: Graças a Deus”, suspirou a feirante. Tomates, cebolas, pimentões e os mais variados temperos foram levados pela água.
Até esta segunda-feira (21), muitas ruas ainda são de difícil acesso. Fato que acaba comprometendo o trabalho da Assistência Social da cidade. “Não é possível que ninguém chegue, nem para saber como estamos? Até agora, nenhum caminhão da prefeitura veio retirar os destroços”, reclamou Maria do Socorro.
Por este motivo, a cena que mais se repetia eram grupos de familiares ou amigos que se uniam para retirar os entulhos, ajudar a limpar o que sobrou do local: na tentativa de dar sequência à vida. Mesmo que de forma ressabiada, pois, ao menor sinal de nuvens pesadas no céu, todo o terror se alastra.
União dos Palmares: devastação e desafios
Em União dos Palmares, o rio Mundaú subiu seis metros. No começo da devastação, dos 607 desaparecidos registrados, 500 são da cidade. Agora, a prefeitura trabalha com um universo de apenas 40 desaparecidos, além dos 11 mil desabrigados.
As cenas ainda impressionam. Os bairros ribeirinhos foram totalmente devastados. Postes caídos, casas desmoronadas, desespero que dá só de olhar. Todos na cidade conhecem ou viveu uma história que deixa a sensação: ‘renasci’. Mesmo com a sua pouca idade, Raul Gomes da Silva, 20, se diz chocado com os estragos proporcionados pela enchente. “Na minha casa, só restou o armário. Todos os outros utensílios, roupas e eletrodomésticos, foram levados pela água”, relatou o jovem morador.
Com os amigos, Raul busca forças para reconstruir a sua vida. Em uma roda de conversa, risadas ajudam a descontrair o sombrio ambiente. “Só na alegria que conseguimos seguir em frente. Se não fossem eles, não sei como estaria”, desabafa Raul Gomes. Ele lembra que a água começou a entrar pelos fundos da casa, que dá para o leito do rio. Em questão de segundos, as águas tomaram o imóvel: e comprometeram toda a estrutura do prédio.
“Paredes caíram, roupas então, não sabemos mais o que é isso”, desafia a vítima, apontando para as poucas peças que veste. A fúria das águas que desanima a reconstrução acalenta: ‘pode cair a chuva que for, não tem mais o que destruir’, salienta o jovem.
Branquinha: cidade sitiada
O clima na cidade denuncia: algo de errado acontece. Sem energia, a população transporta água potável de forma braçal – em baldes, bacias ou qualquer objeto que o valha. A cena já denuncia a falta de estrutura. O trânsito, só para veículos de grande porte. Na maioria das vezes da polícia: seja federal, do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), ou simplesmente da Guarda Municipal. Estes são os únicos que transitam pelas ruas empossadas de lama.
Os mais carentes formam filas em frente aos postos de doações. Eles estão em busca do mínimo de apoio possível. “Itens de necessidade básica, comida, qualquer coisa já ajuda”, declarou uma das vítimas, que preferiu não se identificar. Entre as três cidades visitadas, ela ganha destaque pela precária estrutura que possui. A principal e única entrada da cidade está comprometida. O socorro é de difícil acesso.
“Se eu precisar de um médico, hoje, não dá pra contar. Ambulância não chega. Energia não foi re-estabelecida, o que podemos fazer?”, indagou Maria dos Anjos. Perguntas são as mais freqüentes: por quê? Acredita-se que as respostas indicam um novo caminho. Algumas das cidades atingidas podem sucumbir, literalmente, ‘sumir no mapa’. O momento é para reavaliar.















