A relação entre os vizinhos Colômbia e Venezuela, de dez anos para cá, foi marcada por polêmicas que refletem um histórico muito mais de ódio do que de amor. Ao longo da administração Álvaro Uribe, trocas de farpas e acusações - pronunciadas pelo ex-ministro da Defesa e atual candidato à presidência Juan Manuel Santos e pelo líder venezuelano Hugo Chávez - geraram tensões que podem interferir diretamente nas eleições do próximo dia 30 de maio.

Especialistas em relações internacionais concordam que as diferenças entre os dois países, crescente ao longo dos anos, podem se agravar ainda mais com a possível eleição de Santos, do Partido Social da Unidade Nacional, mais ligado aos Estados Unidos. Apesar da Colômbia ser a principal parceira econômica da Venezuela, Chávez já prometeu cortar relações, caso Santos seja eleito, e colocar a Argentina como substituta comercial.

O Equador é outro país que deve se posicionar da mesma forma que o governo venezuelano. Linha dura no combate às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), em março de 2008, o então ministro da Defesa Santos comandou a ação do exército que matou o líder guerrilheiro Raúl Reyes em solo equatoriano, alimentando um novo desconforto da Colômbia com um outro vizinho.

Mesmo que o ânimo entre as duas nações ainda seja incerto no caso de Santos vencer as eleições, analistas políticos colombianos não acreditam em hostilidades extremas. Especialistas consultados pelo site Votebien.com acham que pensar em guerra é uma loucura, ainda que o nível de desentendimentos não ajudem em nada os dois povos. Afirmam que é preciso buscar caminhos para negociar devido aos impactos econômicos.

Relembre os principais fatos que minaram a diplomacia bilateral entre Venezuela e Colômbia:

Abril, 2002
Juan Manuel Santos, então ministro da Fazenda, passou a se relacionar publicamente com o dirigente empresarial Pedro Carmona, que retirou Hugo Chávez momentaneamente do poder após um golpe de Estado em 11 de abril de 2002. Cinco dias depois de Chávez retornar ao poder, Carmona recebeu asilo na embaixada da Colômbia em Caracas, deteriorando seriamente as relações entre os dois países.

Em 2006, a Justiça da Venezuela solicitou a extradição do golpista. Na época, Roy Chaderton, embaixador da Venezuela na Colômbia, disse que Santos "apoiou com entusiasmo público e aberto ao golpe e, após um ataque de arrogância, reiterou seu apoio a Carmona".

Abril, 2004
Santos escreveu um artigo para a revista Diners entitulado "Arde a Venezuela...e pode queimar a Colômbia, em que afirma que a "democracia foi sequestrada por Hugo Chávez". No texto, o político também qualificou o presidente venezuelano de "ressentido político" e o acusou de "manipular a memória de Bolívar (Simon Bolívar, líder revolucionário venezuelano e importante personagem na história da América Latina) com o objetivo de irromper contra a ordem constitucional".

Em mais de uma ocasião, Santos disse que a Venezuela simpatizava com as Farc e que esse país havia iniciado uma corrida armamentista liderada por Chávez, "ditador tropical" e "violador dos direitos humanos".

Agosto, 2006
O presidente colombiano, Álvaro Uribe, nomeia Juan Manuel Santos como ministro da Defesa, desagradando o chefe de Estado venezuelano. Nesta mesma época, o ministro denunciou a existência de acampamentos que davam refúgio a guerrilheiros das Farc na fronteira venezuelana.

Maio, 2007
Em declarações ao diário espanhol El País sobre os efeitos que teve o fim da relação de Caracas com a agência americana antidrogas (DEA, na sigla em inglês), Santos disse que "boa parte da droga colombiana saia pela Venezuela". Em resposta, o governo vizinho afirmou em nota que a atitude foi "cínica, já que a Venezuela era a principal vítima da incapacidade das autoridades vizinhas de colocar um ponto final no tráfico". O ex-ministro se defendeu e disse que suas palavras foram mal interpretadas.

Outubro, 2007
Em dois comunicados, um do presidente colombiano e outro da chancelaria, foram desautorizadas algumas declarações do ministro da Defesa Santos sobre Chávez de que ele se movimenta "segundo o seu estado de ânimo" no Pacto Andino. O governo da Colômbia teve que reiterar o apoio e a confiança da gestão de Chávez. O ministro de Comunicação e Informação da Venezuela da época, Andrés Izarra, afirmou que o "ministro Santos odeia a Venezuela e se comporta, desde Washington, como um francoatirador".

Março, 2008
Após o bombardeio ao acampamento guerrilheiro que matou o líder rebelde Raúl Reyes, Chávez acusou o governo vizinho de "violar a soberania equatoriana", ordenando o envio de tanques à fronteira com a Colômbia e solicitando a saída dos integrantes da embaixada colombiana em Caracas, em solidariedade ao Equador.

Julho, 2008
Chávez e Uribe se reuniram na Venezuela para eliminar as asperezas produzidas pela operação militar no Equador. Uma semana antes em Washington, Santos adimitiu nos EUA que o exército colombiano utilizou o logotipo da emissora de televisão interestatal Telesul na operação que permitiu o resgate de 15 reféns, incluindo Ingrid Betancourt. "Santos é o inimigo número um da integração entre nossos povos. É um homem da extrema direita além de paramilitar", acusou Chávez.

Setembro, 2008
O ex-vice-presidente venezuelano José Vicente Rangel, acusou Juan Manuel Santos de dirigir uma conspiração contra o presidente Hugo Chávez.

Março, 2009
Um ano depois da operação que terminou com a morte do chefe das Farc Raúl Reyes, Santos disse que golpear terroristas que operem dentro de um país, e não em seu território, é um "ato de legítima defesa". O presidente Chávez qualificou Santos como uma "ameaça ao continente" e suas atitudes de um "ato de loucura".

Julho, 2009
Santos exige respeito à soberania da Colômbia depois da decisão de firmar um acordo de bases com cooperação americana. "O governo colombiano jamais protestou quando o presidente venezuelano, Hugo Chávez, quis armar-se até os dentes".