mportantes líderes palestinos – homens que já comandaram milícias – estão se juntando a marchas pacíficas de protesto contra políticas israelenses, e estão sendo presos. Bens produzidos em assentamentos israelenses foram queimados em demonstrações públicas. O primeiro-ministro palestino entrou em áreas da Cisjordânia que são oficialmente zonas proibidas à sua autoridade, para plantar árvores e declarar a terra como parte de um futuro estado.
Há algo fervendo na Cisjordânia. Com a diplomacia e a luta armada em desfavor por terem fracassado em acabar com a ocupação israelense, a Autoridade Palestina dominada pelo Fatah, acompanhada pela comunidade de negócios, está tentando criar uma terceira maneira: incitar as paixões populares enquanto evita a violência. A ideia, enquanto o Fatah luta para revitalizar sua liderança, é construir uma política de estado virtual através de atos de resistência popular.
“Estamos falando de uma auto-delegação de autoridade”, disse Hasan Abu-Libdeh, o ministro de economia nacional palestino, referindo-se a uma campanha para acabar com a compra de produtos de colonos e com a contratação de palestinos por colonos e suas indústrias. “Nós queremos que as pessoas comuns se sintam como acionistas no processo de construir um estado.”
A nova abordagem permanece na pequena escala, enquanto os esforços para reativar conversas de paz, liderados pelos norte-americanos, seguem travados. Contudo, entrevistas de rua mostraram que o povo estava consciente e apoiava seu potencial de trazer pressão em Israel, mas em dúvida a respeito de sua eficácia final.
Cartazes se espalharam como parte de uma campanha contra a comercialização de produtos de colonos, mostrando um dedo apontado e a frase “Sua consciência, sua escolha”. O Ministério Palestino de Comunicações acabou de proibir a venda de cartões de telefones celulares israelenses, pois sinais israelenses são estabelecidos a partir de torres colocadas dentro dos assentamentos. O primeiro-ministro Salam Fayyad está passando mais tempo fora de seus ternos de executivo e dentro de vilas negligenciadas, abrindo projetos relacionados a esgotos, eletricidade e educação – e pedindo por “sumud”, ou determinação.
"A determinação deve ser traduzida de um slogan a ações e fatos na vida real”, disse ele a uma multidão no final de março, numa vila chamada Izbet al-Tabib, perto da cidade de Qalqilya – uma região onde a barreira de separação de Israel torna o acesso à terra extremamente difícil aos agricultores. Antes de plantar árvores, Fayyad disse às cerca de mil pessoas reunidas ao seu redor: “Este é nosso projeto real, estabelecer nossa presença em nossa terra e manter nosso povo dentro dela.”
A não-violência nunca deu certo por aqui, e o exército de Israel afirma que a nova abordagem não chega a ser exatamente de não-violência. O atual conjunto de campanhas, entretanto, está tentando incorporar uma pressão pacífica de maneiras limitadas. Rajmohan Gandhi, neto do líder independente indiano Mahatma Gandhi, visitou recentemente Bilin, uma vila palestina com uma marcha semanal de protesto.
Em 28 de março, a polícia israelense prendeu, em Belém, 15 palestinos que estavam protestando contra a dificuldade de chegar a Jerusalém por um fechamento de segurança. Abbas Zaki, autoridade sênior da Organização para Libertação da Palestina, foi preso, gerando demonstrações no dia seguinte contra sua detenção. Alguns palestinos também estão rejeitando cartões VIP, distribuídos por israelenses, que lhes permitiriam passar rapidamente por postos de segurança.
Analistas políticos palestinos dizem ser cedo demais para avaliar as possibilidades da abordagem pacífica. Geralmente, dizem eles, dada a divisão entre o Hamas, os governantes de Gaza e a Autoridade Palestina local dominada pelo Fatah, aparentemente nada irá mudar sem uma reviravolta política e uma liderança unificada. Ainda assim, segundo eles, a resistência popular, combinada a apelos internacionais e à construção de instituições, vem ganhando atenção entre palestinos.
"O Fatah está atravessando uma crise de visão”, afirmou Mahdi Abdul Hadi, presidente da Sociedade Acadêmica Palestina para o Estudo de Assuntos Internacionais, em Jerusalém. “Como eles podem combinar serem um movimento de libertação com serem um partido governante? Essa é uma forma. A ideia é despertar o orgulho nacional e suprir a ansiedade e o entusiasmo do povo. Obviamente, o Hamas e a resistência armada continuam sendo uma opção real para muitos."
Khalil Shikaki, que administra o Centro Palestino de Política e Pesquisa em Ramallah, disse: “A sociedade está dividida. O público acredita que Israel reage ao sofrimento, e não à resistência não-violenta. Mas tampouco existe um interesse considerável na violência atualmente. Nossas pesquisas mostram 47% de apoio à resistência armada em março. Na essência, o povo se sente preso entre a o fracasso da diplomacia e o fracasso da luta armada”.
As Autoridades militares israelenses não decidiram como reagir. Algumas atividades são permitidas a Fayyad dentro das áreas oficialmente proibidas a ele, mas algumas vezes o que ele constrói é destruído.
Eles rejeitam o termo não-violento em relação às demonstrações recentes, pois as marchas geralmente incluem arremessos de pedras e tentativas de danificar a barreira de separação. Tropas já reagiram com granadas de choque, balas de borracha, gás lacrimogêneo e prisões. E os militares declararam que Bilin será uma área fechada toda sexta-feira, durante seis meses, para acabar com as marchas semanais dali.
“Nós respeitamos Salam Fayyad”, disse um oficial do exército, sob a regra militar de anonimato. “Mas não queremos que ele se envolva em incitamentos. Queimar produtos é incitamento. Destruir a cerca é incitamento, não é não-violência. Eles estão caminhando sobre uma linha tênue.”
Um motivo pelo qual um levante violento continua sendo improvável por enquanto, segundo analistas palestinos, é que nos dois anos em que as forças de segurança e ministérios governamentais de Fayyad estiveram em funcionamento, a vida cotidiana dentro da Cisjordânia e cercanias atingiu níveis muito maiores de segurança e normalidade.
A polícia e os tribunais estão funcionando de novo, após a revolta do ano 2000 que causou muitas mortes nos dois lados. Multas de trânsito hoje são rotineiramente aplicadas. Cheques pessoais, afastados há tempos, são cada vez mais usados.
Obviamente, a presença de forças israelenses fora das cidades e em diversos postos de guarda, a existência da barreira e continuadas construções dentro de assentamentos israelenses deixam a maioria dos palestinos em desespero, e os fazem duvidar de que um estado soberano possa ser criado.
Um esforço para aumentar a sensação de esperança é a nova ação para banir produtos feitos nos assentamentos, símbolos da ocupação. Um projeto de US$ 2 milhões chamado de Karama National Empowerment Fund, financiado conjuntamente por empresas palestinas e pelo governo, busca disseminar a mensagem através de propagandas e eventos públicos.
Abu-Libdeh, o ministro da Economia, informou que uma lei provavelmente entraria em vigor em abril, barrando a compra de produtos de colonos, um comércio que vale pelo menos US$ 200 milhões por ano. Esforços para acabar com os empregos a palestinos nos assentamentos não acarretarão penalidades, segundo ele, pois o governo não proporciona seguro-desemprego e não é possível garantir novos empregos aos 30 mil palestinos que atualmente trabalham em assentamentos.
Industrialistas palestinos financiaram a proibição de produtos de colonos em parte por esperarem substituí-los por seus próprios produtos. Eles não isolaram outros bens israelenses, que são protegidos por acordos comerciais entre Israel e os palestinos.
Fayyad, o primeiro-ministro – e um independente político –, disse que sua ideia era criar as fundações de um estado até 2011.
“Trata-se de colocar fator no chão”, explicou ele numa entrevista. “A ocupação não é transitória, então precisamos garantir que nosso povo fique na região. Se criamos serviços, isso dá às pessoas uma sensação de possibilidade. Sinto que estamos num caminho que é muito atraente, de forma tanto doméstica quando internacional. O mundo todo sabe que essa ocupação precisa terminar.”