Menos de uma semana após assinar um histórico acordo de redução de armas com a Rússia e de anunciar a revisão da política de utilização de seu arsenal atômico, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, recebe nesta segunda-feira (12), em Washington, representantes de 47 nações para discutir medidas para aumentar a segurança nuclear mundial. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, será um dos presentes.
O objetivo da cúpula, segundo a própria Casa Branca, é arrancar de todos os países compromissos concretos para garantir a segurança de todos os materiais nucleares em um prazo de quatro anos, de modo que se evite que caiam em mãos de grupos terroristas ou de regimes hostis.
Oficialmente, a cúpula não deve se concentrar em uma ou outra nação em especial, mas os programas nucleares da Coreia do Norte e do Irã ganharão destaque natural no debate. Nenhum dos dois países foi convidado para reunião em Washington, e Obama aproveitará a cúpula para tentar obter apoio a um conjunto de novas sanções contra o programa nuclear iraniano.
Entre os países que já apoiam os EUA no clamor por novas sanções da ONU ao Irã, estão Reino Unido, França, Alemanha e até a Rússia, historicamente reticente nesse assunto.
Para John Ahearne, ex-presidente da Comissão Regulatória Nuclear dos Estados Unidos, a reunião também servirá para salientar a importância do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP):
- O TNP é a base de procedimentos para os países que usam a energia atômica de forma pacífica. Quanto mais países seguirem o tratado, maior será a segurança mundial.
Ahearne salienta a importância das medidas de segurança mesmo entre os países que usam o material nuclear apenas para a geração de energia:
- A principal preocupação é fazer com que países que produzem urânio altamente energizado mantenham esse material em segurança. É esse tipo de urânio que, nas mãos erradas, pode causar estragos.
Para o ex-presidente da Comissão Nuclear dos EUA, a única forma de assegurar que o programa nuclear do Irã realmente tem propósitos pacíficos, como diz o governo de Mahmoud Ahmadinejad, é permitindo a entrada de inspetores da ONU:
- Uma vez que os inspetores das Nações Unidas possam entrar no Irã, eles poderão definir se o programa realmente é pacífico ou não. Claro que sempre há a possibilidade de o país construir uma usina não declarada, escondida, mas isso é muito difícil de prever.
Brasil será cobrado por segurança de usinas e Irã
Para Eugênio Diniz, professor de Relações Internacionais da PUC-MG e especialista em questões nucleares, o papel do Brasil na reunião tem a ver com a capacidade do país de produzir urânio enriquecido:
- O Brasil, como país produtor de urânio enriquecido para seus reatores nucleares, terá que assumir o compromisso de manter suas usinas seguras.
Diniz afirma, ainda, que o país pode sofrer pressões por sua posição de apoio ao programa nuclear do Irã - o presidente Lula defende o uso pacífico da energia atômica na República Islâmica:
- É plausível que haja algum tipo de pressão ao Brasil em relação ao Irã, ainda mais porque estarão presentes membros do Conselho de Segurança, como França e Reino Unido, e a Alemanha, que têm uma posição crítica sobre o programa nuclear iraniano.
O professor da PUC-MG lembra que a reunião desta segunda-feira em Washington servirá para preparar terreno para a revisão das diretrizes do TNP, que ocorre a cada cinco anos.