Os bastidores do Plano Collor, que completa hoje 20 anos, continuam a gerar polêmica. Duas entrevistas publicadas no GLOBO no último domingo provocaram uma troca de acusações entre o senador Fernando Collor (PTB-AL) e o ex-ministro Delfim Netto. Na entrevista de Delfim, ele diz que não foi procurado pela equipe de Collor antes do plano. Na segunda-feira, Collor procurou o jornal para dar sua versão:

- Não sei se ele (Delfim) foi procurado (pela equipe). Mas ele omite que conversei com ele depois que já tinha sido eleito. O convite me chegou pelo (então deputado) Ricardo Fiúza. Ele (Delfim) e o senador Roberto Campos disseram que gostariam de ter uma conversa - diz Collor, acrescentando que o encontro teria ocorrido, provavelmente em janeiro, na casa do deputado Amaral Netto, em Brasília.

E o que eles queriam?

- Queriam mais ouvir. Perguntaram quem seria o presidente do Banco Central. Disse que tinha vários nomes. Quanto citei o Ibrahim Eris, Delfim reagiu entusiasticamente. Roberto Campos protestou: "Esse nome não pode. É um fiscalista".

Na entrevista ao GLOBO publicada no domingo, Collor dizia que, poucos dias após o plano, Delfim teria pedido uma audiência com ele e, em seu gabinete, teria elogiado o bloqueio de dinheiro: "Genial, nem eu com o AI-5 na mão conseguiria fazer algo parecido".

Na segunda-feira, Collor disse como teria continuado essa parte da conversa. Delfim ainda teria dito:

"É genial (a ideia do bloqueio), até porque, é claro, que esse dinheiro não vai ser devolvido".

"Não, eu vou devolver, de acordo com o que está na lei, em 18 parcelas", teria respondido Collor a Delfim.

"Ah, essa eu quero estar vivo para ver", teria rebatido o ex-ministro.

- E viu todos os recursos serem devolvidos. Eu, constrangidamente, tenho que desmentir esse senhor octagenário que, talvez por isso mesmo, tenha esquecido desses detalhes.

Procurado, Delfim Netto rebateu:

- Essa é a versão dele. Fui lá (ao encontro de Collor) para sugerir que devolvesse tudo com papéis de seis, 18, 24, 30 meses. Assim, seria possível pagar impostos e não paralisaria investimentos.

Delfim nega o adjetivo "genial":

- Imagina se eu ia dizer uma bobagem dessas. Ele (Collor) é um megalomaníaco. Uma coisa é certa: nunca tive conhecimento do plano - afirma Delfim, que não se recorda da reunião com Fiúza e Campos na casa de Amaral Netto. - Nem sei onde morava o Amaral... Essas testemunhas foram bem escolhidas - acrescentou ainda, referindo-se a Campos, Fiúza e Amaral Netto, todos já falecidos.