Fernando Collor de Mello não é mais o mesmo. Pelo menos no discurso. Se há duas décadas patrocinou um radical enxugamento da máquina de governo e realizou as primeiras privatizações do país; hoje rasga elogios ao governo Lula e seu projeto de ampliar os tentáculos do Estado sobre a economia. O novo Collor, senador do PTB eleito por Alagoas, defende até a reestatização da Vale do Rio Doce.
Do alto de seu gabinete, no 13º andar do Senado, fixa o olhar no horizonte para rememorar o passado. Em tom monocórdico, entremeado de expressões estrangeiras, confidencia que, em 1989, quando alertou o eleitor sobre a possibilidade de Lula confiscar o dinheiro da poupança, já cogitava esta medida. Hoje, Collor se diz arrependido do bloqueio. Mas lembra que já pediu perdão em público:
- Se não quiserem aceitar, não aceitem. Eu não vou perder a minha noite de sono porque eles não aceitam meu pedido de desculpas.
Com certa modéstia, volta a ser o Collor de antigamente para contar que, nas ruas, ninguém mais o critica. Ao contrário: segundo ele, ex-cara-pintadas o param para pedir desculpas.
" Dentre todos os governos, desde que a República foi instituída, o governo Lula é sem dúvida o que pode apresentar o maior cartel de acertos "
O GLOBO - Na sua opinião, quais medidas adotadas no seu governo refletem-se hoje em melhorias para o Brasil?
Collor - Esta agenda, "Brasil: um projeto de reconstrução nacional", datada de 1989, (seu programa de governo) continua vigendo até os dias de hoje. Todos os presidentes da República, independente de suas tendências ideológicas, abraçaram e seguiram rigorosamente esta agenda pelo meu governo inaugurada, em 1990. O maior legado que o meu governo pode ter deixado foi uma agenda contemporânea para o Brasil. Tanto que lá se vão 20 anos e essa agenda continua hígida e os pressupostos básicos dela estão aí. Na cultura, a Lei Rouanet está aí, a mudança no desporto com a Lei Zico, a lei do meio ambiente, a educação básica, os direitos humanos, o fortalecimento da democracia, o fortalecimento da livre iniciativa, a recuperação da credibilidade do Brasil junto aos agentes financeiros internacionais e governos de outros países, a recuperação das nossas reservas, o combate à inflação. Pegamos uma inflação perto dos 90% e a deixamos com 20%. Se não fossem essas medidas, nenhum plano daria certo.
Seu governo contribuiu para o sucesso do Plano Real?
Collor- A imagem que eu uso é de um campo, que estava inteiramente tomado pelo mato, por ervas daninhas, por insetos das mais diversas origens. Esse campo foi totalmente capinado, limpo e arado. Com a interrupção do meu mandato pelo impeachment, esse campo recebeu uma boa semente, que foi a semente do Plano Real. (o campo) permitiu que o plano de estabilização prosperasse e vingasse.
Os tucanos acusam o governo Lula de se apropriar de muitas conquistas do governo de Fernando Henrique. O senhor se sente injustiçado pelos tucanos, quando não reconhecem avanços do seu governo, como a abertura da economia?
Collor- A questão dos tucanos é que o líder maior deles é o que a gente chama em francês de "en plus de sois même". Ele se julga pela sua própria graça que nos dá por continuar vivo entre nós, tal é a sua luz, tal é a sua capacidade e onisciência de fazer e acontecer. Não é isso. O sucesso de um governo naturalmente advém da observação dos acertos e dos erros de seus antecessores. E na avaliação de erros e acertos, fazer com que os acertos se ampliem e os equívocos diminuam de intensidade. Cada um de nós, presidentes, nos aproveitamos dos erros para aprender com eles e incentivamos os acertos.
Qual sua opinião sobre Fernando Henrique?
Collor - Ao longo de 40 anos de vida acadêmica, ele sempre procurou ensinar e passar, por intermédio de seus livros, uma visão de desenvolvimento do mundo sob a ótica marxista-leninista. Tentou como senador desconstruir o projeto de reconstrução nacional. Eu querendo reconstruir, e ele querendo desconstruir. E arrebentou com o plano (Collor), disse que era absurdo e tal. Mas ele não sabia, porque não tem bola de cristal, nem uma premonição muito aguçada, que viria a ser presidente da República. Como presidente, se abraçou com a tese liberal de uma forma sôfrega, de uma forma quase que de adoração. O mundo passa e quem com ele não passa fica. Ele não quis ficar quando pediu para que esquecêssemos tudo o que escreveu e lançou a boa semente do Plano Real, com pessoas que trabalharam na elaboração do plano do nosso governo.
O que mudou, ao longo desses 20 anos, para o senhor se tornar um aliado importante do governo Lula no Congresso? Foi uma necessidade política ou suas convicções mudaram?
Collor - Eu posso ser contra isso aqui? Isso aqui é o que ele está fazendo (aponta para o seu programa de governo).
Então o presidente Lula respeita sua cartilha?
Collor - Não é a minha cartilha. É um governo que vem fazendo rigorosamente o que está aqui previsto. Eu posso ficar contra isso?
Como o senhor avalia o governo Lula?
Collor- Dentre todos os governos, desde que a República foi instituída até os dias de hoje, o governo do presidente Lula é sem dúvida o que pode apresentar o maior cartel de acertos, sem tirar o mérito que cada um dos governos teve na construção deste Brasil. Desde que a República foi proclamada. Desde nosso saudoso marechal Deodoro da Fonseca, filho de dona Amélia da Fonseca. Coube ao presidente Lula coroar todo esse trabalho em favor do país. Os números estão aí e não me deixam mentir. Reservas robustas, balança comercial com superávit, inflação controlada, não devemos mais nada ao FMI - ao contrário, como ele brinca, agora somos nós que vamos emprestar para o fundo -, em dívida externa ninguém mais fala. O processo de privatização, quando iniciou, era um crime de lesa pátria; hoje as pessoas falam em privatização como falam em tomar um copo d\'água. O salário mínimo nunca esteve com o poder de compra que hoje tem. Além de seu valor nominal equivaler a quase 300 dólares, a inflação está controlada e os preços dos alimentos estão controlados. No campo de investimentos, um programa como o do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), extremamente concertado com as diversas ações nos diversos ministérios, vem dando resultado. Não adianta dizer que está atrasado, isso é uma bobagem. O importante é a iniciativa tomada pelo governo Lula em dizer : "Vamos partir, vamos em frente, o governo vai investir". Isso aí é algo tão fácil de se ver. O próprio Lula diz: "O presidente que vier depois de mim vai ter que fazer mais do que eu".
O senhor concorda?
Collor - Realmente, vai ter que fazer mais do que ele, porque a ele coube, num trabalho de muita competência, consolidar todos os acertos dos governos anteriores e diminuir a incidência de erros no exercício do governo. Quando eu digo que o programa de governo meu continua aí em vigor, é porque isso é rigorosamente verdadeiro. Nós tivemos a lucidez de perscrutar o Brasil nos anos seguintes e diagnosticar os problemas que o Brasil estava vivendo, que eram problemas extremamente sérios.
No entanto, há antagonismos entre o seu governo e o governo Lula. Por exemplo, o senhor enxugou a máquina administrativa e incentivou as privatizações; no segundo mandato de Lula vemos uma tendência à estatização e o crescimento da máquina. Como o senhor vê essas diferenças?
Collor - Estamos vivendo um outro momento, completamente diferente de 20 anos atrás. Se não fosse a presença do estado brasileiro, não teríamos nos recuperado com tanta rapidez e eficácia dessa crise do "mortgage" dos Estados Unidos. Essa crise ainda hoje faz estragos por aí e não estamos mais nisso. Ela serviu para dizer a todos nós, a mim sobretudo, que o Estado foi fundamental para que isso acontecesse. E dizer a mim também que não podemos deixar as forças do mercado livres inteiramente para fazerem ao seu bel prazer, dentro de uma legislação frouxa, o que acharem conveniente. Nessa hora, entra o Estado.
Agora é o momento de ampliar os poderes do Estado?
Collor - Vejo o presidente Lula dizer que vai criar uma nova estatal, uma nova Telebras para a questão da banda larga, que é absolutamente indispensável associada à questão do ensino. Estamos tão atrasados nessa questão educacional que temos que queimar etapas. O empresário busca, sem nenhuma crítica, o lucro. Para colocar uma torre de celular no semi-árido nordestino ou no meio da floresta, o empresário vai gastar tanto para meia dúzia de pessoas? É aí que entra o Estado.
O senhor acha que houve exagero nas privatizações?
Collor - Na minha cabeça nunca havia passado desestatizar duas empresas em absoluto: a Petrobras e a Vale do Rio Doce. Quando vi a Vale sendo privatizada de uma forma tão rasteira, tão tosca como foi, como se vende abacaxi numa feira, eu fiquei impressionado. Ainda não falei com o presidente Lula sobre isso, mas acho que, neste momento, dar uma pancada e reestatizar a Vale do Rio Doce seria uma grande medida do governo dele. Foi uma companhia que nesse processo que passamos de extrema dificuldade não teve nenhuma sensibilidade com o restante do Brasil, demitiu mais de cinco mil funcionários, fez o diabo. A Vale foi vendida na bacia das almas. Foi uma privatização feita de forma equivocada, inclusive com muitas dúvidas quanto ao processo de alienação dos seus ativos, das suas concessões de subsolo. Acho que o presidente Lula está certo: este é o momento de o Estado ter uma participação maior na economia.
O senhor continua considerando corretas as privatizações feitas no seu governo?
Collor -Sem dúvida nenhuma. Eu continuo professando a fé liberal. Sou um liberal a favor do livre mercado, da consolidação democrática. O meu olhar continua sendo o mesmo, só que adaptado à nova realidade. Qual é a empresa privada que está aí no mercado, com ações na Bolsa, tendo que apresentar resultados positivos, que vai dizer: "Eu vou ter esse compromisso social de levar o acesso ao celular a todos os recantos desse país". Ninguém. Isso é um papel que cabe ao Estado.
Mas a Vale era tida, na época da privatização, como uma empresa ineficiente....
Collor -Nunca, nunca, nunca! Eu não acho. É uma beocidade de quem usou esse argumento. Isso nunca existiu. A Vale alcançou o seu apogeu nas mãos do Estado.
O senhor diria que a privatização da Vale do Rio Doce foi o maior erro do governo Fernando Henrique?
Collor - Multiplique essa palavra por dez e é exatamente isso.
E o inchaço da máquina no atual governo?
Collor - Essa questão da contratação, que chamam de inchaço da máquina, a questão do custeio. Disseram que estão contratando pessoas, que a renúncia fiscal da geladeira, do fogão vai ser um problema, vai causar uma queda na arrecadação. Que (o governo) está gastando muito dinheiro com pessoal. Ouvir economista é muito bom para gastar tempo. Na televisão, é uma beleza. Eles vão lá e soltam aquelas baboseiras todas. Nunca vi nenhum deles acertar nada nas análises que fizeram dos principais eventos econômicos que vivenciamos no último século. Os economistas que aí estão têm que calar a boca e abrir a boca para dizer apenas o seguinte: nós temos hoje um presidente que é um operário, que tem segundo grau incompleto, e que está dando aula a todos nós de como conduzir a economia de forma correta. É isso o que eles têm de fazer.
Mas o senhor enxugou a máquina no seu governo...
Collor - A minha época era outra. Querem reduzir o governo Lula à contratação de mais mil ou dois mil funcionários. Na minha época, eu tinha que reduzir o tamanho da máquina. Não que eu quisesse ver gente desempregada na rua. Não. Eu precisava fazer esse trabalho, sobretudo nas estatais, para preparar as estatais para o processo de privatização e, com isso, adquirir melhores condições na venda daquele patrimônio. Isso é a mesma coisa que as pessoas fazem quando vão vender uma casa, um apartamento ou um carro. A pessoa troca o pneu, manda dar um polimento para ver se consegue um melhor preço. Mal comparando, é a mesma questão na estatal. As estatais, na época, se tornaram cabides de emprego. Eu tinha de fazer um enxugamento. E foi feito. Naquele momento, precisava disso.
Hoje esse quadro é outro?
Collor - Hoje as estatais estão aí funcionando bem. Aumentou o número de ministérios. Eu nunca vi o Brasil com tantos ministérios. Mas quero saber de resultados. Eu tinha 12 ministros. O que significa o governo Lula com 32 ministros? Querendo ou não, está funcionando. Tudo depende do momento, das circunstâncias. Essa é uma questão menor, porque eles não conseguem ter argumentos e condições teóricas de combater os números que o governo Lula vem apresentando.
O senhor se surpreendeu com a gestão de Lula, de quem era adversário em 1989?
Collor - Me surpreendi. E ele também se surpreendeu. Em algumas entrevistas, ele já disse que, se tivesse sido eleito em 1989, teria feito um governo pífio. Realmente, agora ele percebe que não estava preparado para assumir a Presidência àquela época. Eu hoje faço parte da base de apoio ao governo Lula porque as iniciativas principais do governo dele se coadunam perfeitamente com o que está colocado no projeto de reconstrução nacional do meu governo.
Quando o senhor assumiu o mandato, era muito jovem. O senhor se arrepende de algo? O que faria diferente, se pudesse voltar o tempo?
Collor - Isso, qualquer um de nós. A gente vai evoluindo, vai passando o tempo, e a gente vai aprendendo com os nossos próprios erros. É difícil pontualmente dizer "errei nisso, errei naquilo".
O senhor já declarou que não faria de novo o bloqueio....
Collor - Não faria de novo o bloqueio dos ativos. Frise-se: foi uma medida tomada não de forma arbitrária, foi uma medida aprovada pelo Congresso Nacional. Economista é muito bom analisando coisas passadas, gosta de ser engenheiro de obras feitas. Como é que se poderia fazer um plano de estabilização econômica em 1989, 1990? O próprio PT, que na época fazia uma oposição muito ruim para o governo e foi um dos contendores na eleição, exaltou esse plano. Não somente ele, como todos os outros. A gente vai do PT ao deputado Delfim Neto, que esteve comigo e disse: "Genial, nem eu com o AI- 5 na mão conseguiria fazer algo parecido".
Naquela época, onde o senhor guardava suas economias pessoais?
Collor - (Ri) Guardava no banco, guardava em ações.
O senhor tinha dinheiro no exterior?
Collor - Não.
O senhor se precaveu de alguma forma contra o Plano Collor?
Collor - Não, eu não faria isso.
E hoje, onde o senhor guarda suas economias?
Collor - (Faz expressão de estranhamento.) Ah, mas esse assunto... É só consultar o meu Imposto de Renda!
Durante a campanha de 1989, o senhor alertou o eleitor sobre a possibilidade de Lula confiscar o dinheiro dos correntistas. Naquela época, o senhor já cogitava fazer isso?
Collor - Nós não descobrimos o ovo de Colombo, né? Estávamos fazendo aquelas equações todas. Como resolver o problema da inflação? E todo mundo fazendo a conta e vendo que, para conter a inflação, tinha que partir para um congelamento de preços. Mas com a excessiva liquidez do mercado, todo mundo com muito dinheiro, troca o carro, troca geladeira, troca fogão, compra não sei mais o quê, com isso aconteceria uma inflação pelo lado da demanda. E essa demanda excessiva, com a falta de capacidade das indústrias brasileiras de repor os estoques a tempo e a hora, faria com que tivéssemos um processo de desabastecimento do país. Ia ser uma crise brutal. Da mesma forma, o PT estava fazendo isso (cálculos). Então, pensei: "Antes que me perguntem, vou afirmar que eles estão preparando isso". Foi apenas uma estratégia da qual me vali para me proteger de uma pergunta desse tipo e, ao mesmo tempo, colocar o contendor numa saia justa. Nisso, não houve nenhuma mentira de minha parte, porque nós sabíamos (das discussões do PT). Essas equipes se conversam, porque um é Unicamp, outro é não sei o quê. Mesmo servindo a candidatos opostos, eles sempre se conversam.
Então, o bloqueio já estava sendo discutido na sua equipe naquele momento?
Collor - Já. Eu pensei: "Antes que esse constrangimento caia sobre mim, eu gero o constrangimento para o outro lado".
O que contribuiu mais para a sua saída traumática do governo: o fracasso do Plano Collor ou a falta de uma base sólida no Congresso?
Collor -Ah, foi tudo, foi tudo junto. No momento em que você contraria os interesses da indústria automobilística, da indústria da informática, da indústria do cimento, da indústria petroquímica, da industria... Sei lá, "name it". Todos estavam contrariados. E eram setores entusiasmados com a minha candidatura. Todos pedindo abertura de mercado e o fim das reservas de mercado no Brasil. Só que estavam no fundo querendo o fim da reserva de mercado do seu vizinho, porque queriam depois abocanhar aquele pedaço. Esse pessoal todo se virou contra. Não podiam fazer nada naquele momento, porque havia uma relação muito direta minha com a população. Tinham receio de se meter a besta comigo naquela ocasião. Mas, no momento em que eles perceberam que a população começou a ficar em dúvida se eram verdadeiras ou não as acusações que o meu irmão fazia, se aproveitaram e vieram com tudo. E aí veio, de um lado, esses contrariados pelo programa econômico. E veio o Congresso, extremamente agastado nas relações comigo, pelo fato de eu não ter dado, o que foi um erro, a atenção devida ao Poder Legislativo. Eles se sentiram muito dissociados, descompromissados em relação ao governo, mesmo os partidos que compunham a nossa base.
O senhor simbolizava as críticas à economia fechada chamando os carros brasileiros de carroça...
Collor- Essa questão das carroças surgiu em Bonn, em viagem feita entre a eleição e a posse. Me reuni com os governos europeus e também com os industriais. Acho que o presidente mundial da Volkswagen, como meu ex-sogro detinha 20% da empresa aqui no Brasil, se sentiu mais ou menos à vontade para fazer certas perguntas que não cabiam, a liturgia não permitia. E esse camarada começou a fazer perguntas muito incisivas e desnecessárias. Até eu falei pra ele: "Não use esse tom de voz, não faça essa sua expressãozinha de escárnio. Eu exijo que o senhor acredite no que o futuro presidente do Brasil está falando, porque eu vou fazer isso. E o senhor, antes de duvidar do meu programa de governo, antes de falar alguma coisa contra o meu país, antes de fazer essas reclamações, o senhor pare de fabricar carroças, que é o que o senhor fabrica lá, e comece a fabricar carros. Quando o senhor começar a fabricar carros, a gente volta a conversar".
Como foi sua relação, a partir daí, com a empresa?
Collor - Em 1992, durante a Eco 92, no Rio, recebi uma delegação da Volkswagen chefiada pelo presidente mundial, já não era aquele, para falar de ecologia. Não era nada disso. Ele chegou, petulantezinho, para me pedir para estabelecer o regime de cotas de importação de veículos. Aí eu disse: "Não, eu não vou fazer isso." Aí ele disse: "Então nós vamos ter de fechar nossas fábricas." E eu disse: "Tudo bem, comece a fechar. Qual é a primeira fábrica que o senhor vai fechar? Ah, Taubaté? Perfeitamente, muito obrigado, até logo." Nos meses seguintes à minha saída do governo, houve convivência entre a maior produção até então alcançada pela indústria nacional de veículos e o maior número de veículos importados na história do país. Isso demonstrou que estava inteiramente equivocada a tese deles de que não haveria mercado que suportasse a produção nacional juntamente com a produção de importados.
O tempo é o senhor da razão, frase sempre citada pelo senhor. O tempo apagou todas as mágoas?
Collor -De minha parte? Todas. Muito menos em homenagem aos meus adversários e muito mais pensando na minha própria saúde, porque quando a gente guarda ressentimento, mágoa, essa coisa toda, a gente fica uma pessoa extremamente desagradável. Até por temperamento, porque eu não costumo digerir muita coisa por muito tempo. Dizem que eu sou temperamental, não é nada disso. Graças a isso o meu coração é bom, a saúde é boa. Eu chego e solto os cachorros em cima. Aquilo me desopila o fígado e é como se não tivesse acontecido.
O senhor teve algum problema de saúde depois de sua saída do governo?
Collor - Nunca, nunca, nunca, nunca. Meu Deus do céu!
A eleição para o Senado é um sinal de que o povo de Alagoas o perdoou. O senhor já cogitou..?.
Collor - Não, Presidência da República, não.
Acha que teria o mesmo sucesso nas eleições para um cargo majoritário?
Collor - Ah, não sei. Aí eu tenho que participar de uma eleição para saber.
O senhor pensa nisso?
Collor - (Risos) Não, então a gente vai ficar sem saber.
As pessoas o reconhecem nas ruas?
Collor - Sempre.
E o abordam?
Collor -Abordam.
Fazem mais críticas ou elogios?
Collor - Nenhuma crítica.
Ninguém reclama do confisco?Collor -
Até hoje, muita gente sente que foi roubada...
Collor - Roubado foi o compulsório feito sobre as passagens aéreas, roubado foi o dinheiro tirado de combustíveis. Esses sim foram dinheiros - não concordo, mas para usar um termo seu - roubados da população, no sentido de que nunca foram devolvidos e nem as pessoas têm mais a conta do que teriam a receber se fossem às barras da Justiça reclamar os seus direitos. No caso da poupança, é isso: causou um trama, causou desassossego, lamentavelmente. Se hoje fosse o caso, eu não faria novamente o bloqueio. Teria outros instrumentos, teria outras maneiras de resolver essa questão do excesso de liquidez que não passasse necessariamente pelo bloqueio de ativos.
O benefício, nesse caso, não valeu a pena?
Collor -Não, deu muito trabalho, a economia paralisou.
Nós entrevistamos pessoas que tiveram o dinheiro confiscado na época e elas se dizem magoadas com o senhor até hoje. Não acha que deve um sincero pedido de desculpas a essas pessoas?
Collor - Eu já pedi desculpas, né? E peço novamente, reitero o meu pedido de desculpas. Agora, se eles quiserem aceitar, aceitem, se não quiserem aceitar, não aceitem. Eu não vou agora perder a minha noite de sono porque eles não aceitam meu pedido de desculpas.
O Supremo absolveu o senhor de todas as acusações que motivaram a sua renúncia. O senhor acha que o STF de hoje, que manteve o governador Arruda preso e abriu ação penal para investigar o mensalão do PT, agiria da mesma forma?
Collor - Eu não posso ver o Supremo a não ser como uma instituição, a mais alta instância do Poder Judiciário do país. E a campanha que foi feita contra mim pela mídia, de uma forma brutal, é uma campanha que quase exigia o que lá atrás o Hitler fez, que os juízes tinham que ouvir a voz das ruas. Com isso, ele patrocinou o Holocausto. Foi isso o que eles queriam fazer aqui no Brasil. Não conseguiram porque tinhamos juízes.
Como o senhor se sente 20 anos depois de sua posse?
Collor -É, sobretudo, um momento de reflexão. O tempo é o senhor da razão. Nada como o tempo para permitir às pessoas fazerem o correto juízo de tudo aquilo que aconteceu. Nas ruas, sou abordado por ex-cara-pintadas, que já são adultos, e dizem: "Eu fui realmente mobilizado, não sabia nem o que era, agora que eu estou entendendo o que significou essa abertura". Eu digo: "E você aí, graças ao meu governo, você está com o seu celular, com o seu laptop, no seu Orkut, no seu Facebook".
A abertura da economia é, na sua visão, o principal legado do seu governo?
Collor -Sem dúvida. Na história da vida brasileira, coube a mim administrar um país que estava acanhado, que estava ensimesmado, receoso do que estava aí por ser descortinado. Era como um barco que tivesse atracado num porto, com medo de içar velas e deixar que as velas fossem içadas pelo vento e se lançasse ao mar, em busca de novos horizontes, de novos mercados, que se mostrasse de forma corajosa, como um bom parceiro. E esse barco estava atracado, não saía daquele porto de jeito nenhum. O que nos coube fazer, basicamente, de forma figurativa, foi cortar essas amarras e dizer: "Icem as velas".
O senhor resumiria seu governo, então, com a palavra coragem?
Collor - Sem dúvida. Mas muita coragem. Muita.
