Fugir pela porta da frente, por túnel ou serrando as grades. Seja qual for o método utilizado, as fugas se tornaram rotina na delegacia da cidade histórica de Penedo, no extremo Sul de Alagoas.
Não bastasse o número excessivo de fugas, a Justiça interditou a delegacia em dezembro de 2007. A decisão atendeu a um pedido do Ministério Público Estadual, que alegou falta de estrutura do prédio. Apesar dessa interdição, a delegacia continuou a manter a custódia de presos.
Desde a interdição, 101 presos conseguiram escapar em pelo menos nove fugas registradas. A última delas aconteceu na última terça-feira (5), quando três detentos serraram as grades e escaparam pelo pátio do prédio.
Em alguns casos, as fugas chamam a atenção. Em fevereiro de 2008, por exemplo, seis presos escaparam pela porta frente e ainda tentaram fazer uma ligação direta na viatura policial estacionada na porta do prédio, mas não conseguiram e acabaram fugindo a pé, sem que nenhum policial conseguisse perceber.
Em abril, logo após a maior fuga, de 30 presos, o então delegado regional de Penedo, Jorge Barboza, denunciou ao UOL Notícias que o prédio não tinha estrutura mínima para receber presos e que novas fugas poderiam acontecer.
"Eu já havia mandado ofícios para a diretoria da polícia civil, pedindo que a interdição fosse cumprida, que os presos fossem transferidos, mas nunca fui atendido. A verdade é que estamos administrando um caos. Isso já é de conhecimento do Estado, da Justiça e do Ministério Público", afirmou o delegado.
A previsão acabou se tornando realidade e mais seis fugas foram registradas até o final de 2008. Somente depois dos constantes episódios, o governo do Estado anunciou, na última quinta-feira (7), que vai reforma do prédio. Não há prazo para conclusão das obras.
Segundo a Polícia Civil, o material necessário para a reforma já foi comprado, e os trabalhos de análise do que será necessário para melhorar a estrutura do prédio terão início logo.
"Vamos dar início a uma avaliação para sabermos o que será necessário, pois é um prédio velho. Não temos prazo, mas vamos melhorar a estrutura para assim tentar evitar as fugas", afirmou o diretor-geral adjunto da Polícia Civil, José Edson.
O delegado reconhece que o prédio possui problemas graves e não possui a estrutura ideal para abrigar detentos. "Essa delegacia é um problema antigo. A maioria das fugas acontece porque realmente a estrutura é precária. Além disso, há uma escassez de policiais; não só lá, mas em todo o Estado", admitiu.
Questionado por que o Estado não cumpriu a determinação de interditar a delegacia, Edson afirmou que foi a mesma Justiça que determinou a manutenção dos presos no local.
"Não tínhamos para onde mandar os presos, e a Justiça mandou que nós custodiássemos os presos ainda no prédio", explicou, acrescentando que todas as fugas são alvo de sindicância na Polícia Civil, mas não soube informar se algum policial havia sido punido.
O UOL Notícias tentou contato com o promotor de Justiça da área criminal do município, Sitael Jones Lemos, mas o celular dele estava desligado.
Policiais criticam condições
Mesmo com a garantia da reforma feita pelo Estado, o Sindpol (Sindicato dos Policiais Civis de Alagoas) diz que a promessa de melhorar a estrutura é antiga e nunca foi cumprida. "Eles vêm com essa conversa há tempo. Aquela delegacia não tem nenhuma condição de custodiar preso, foi interditada, mas a ordem nunca foi cumprida, mesmo com os alertas feitos. Falta tudo e tem preso demais. Temos dois agentes que ficam de plantão para tomar conta de mais de 30 presos, em um prédio de paredes velhas, celas sem estrutura e chão de terra", assegura o vice-presidente do Sindpol, Josimar Melo.
Segundo o ele, o sindicato vai realizar um ato na próxima semana para cobrar o cumprimento da interdição judicial do prédio. "E o pior é que, a cada fuga, os agentes de plantão, que são vítimas da pouca estrutura e baixo efetivo, responde a processo na corregedoria. Alguns ficam até traumatizados. Não sei como não houve uma tragédia ainda, como um preso em fuga atirar em um policial. Antes que aconteça, vamos cobrar o fechamento do local", explicou.
