O uso de vestimentas de proteção individual como aventais e jalecos pelos profissionais da área de saúde fora do ambiente de trabalho ainda é comum nas imediações dos principais hospitais de Maceió, como o Hospital Geral do Estado (HGE). Mas, a prática pode contribuir para a transmissão de bactérias e vírus, que podem se alojar por até dois meses nos tecidos e resultar em infecções hospitalares.
Em lanchonetes, restaurantes e até ônibus não é difícil ver estudantes e até profissionais vestidos em seus jalecos brancos. Não há uma lei estadual ou municipal específica para regulamentar a utilização da vestimenta, mas em Recife o projeto de lei nº 124/2009, que restringe o uso de equipamentos de proteção individual já foi aprovado por unanimidade pela Câmara de vereadores e sancionado pelo governo municipal.
O projeto é de autoria da vereadora Aline Mariano (PSDB) e foi criado para evitar o aumento de contaminação em hospitais, clínicas e laboratórios. Aproximadamente 90% das bactérias resistem durante 12 horas e os tecidos de aventais e jalecos podem carregar a Ancinetobacter, que é um microorganismo que pode levar à infecção generalizada.
Já no Mato Grosso do Sul é uma lei estadual que proíbe o uso da vestimenta fora do ambiente de trabalho. A medida também foi tomada para reduzir o risco de infecções hospitalares. O uso de jalecos e aventais fora do ambiente hospitalar já é proibido no Brasil por meio de uma portaria do Ministério do Trabalho e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária atesta que a falta de restrições pode ser perigosa.
Mas, apesar da proibição, a lei não atribui a nenhum órgão a responsabilidade pela fiscalização nem estipula multas para aqueles que descumprirem as regras. O autor do projeto no Mato Grosso do Sul, deputado Márcio Fernandes entende que essa é uma atribuição do governo.
O presidente do Sindicatos dos médicos de Alagoas, Wellington Galvão explicou que devido a denúncias a norma também foi recomendada pelo Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul, principalmente em relação aos estudantes, que costumam sair dos hospitais vestindo jalecos.
“Em Maceió não temos notícias de denúncias desse tipo. O jaleco deve ser usada apenas no ambiente de trabalho e isso é lógico. Acredito que essa lei vai se estender para o Estado e isso será bem recebido pela categoria, pois é mais difícil ver profissionais usando a vestimenta fora das unidades hospitalares”, afirmou Galvão.
Já Filipe Luis, estudante do 6° período de medicina na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) confirmou que a prática é comum entre a maioria dos profissionais da área da saúde, como enfermeiros, médicos e fisioterapeutas, em hospitais da capital. Ele contou que aprendeu, desde o início do curso, que o jaleco não deveria ser utilizado fora de ambientes hospitalares.
“Esse uso inadequado é prejudicial porque os microorganismos dos espaços onde estão os pacientes doentes são diferentes dos que existem em outros locais. Há médicos que entram em contato com esses doentes e saem para lanchar vestidos no jaleco. Eles levam as bactérias do hospital para a rua e trazem outras desses lugares”, ressaltou Filipe.
O estudante destacou ainda, que muitos estudantes, por veem os profissionais saírem com a vestimenta, acabam fazendo a mesma coisa. Ele lembrou que práticas simples, como lavar as mãos entre o atendimento de um paciente e outro, também não são seguidas à risca, principalmente em hospitais públicos, o que é agravado pela falta de estrutura.
“Essas pessoas não têm cuidado com a própria saúde. Se o jaleco está sujo qualquer um pode inalar as bactérias. Há um controle de infecção hospitalar, que inclui a lavagem das mãos e foi com isso que o Estado conseguiu reduzir os índices de mortalidade infantil. Os profissionais da área de saúde ainda deixam a desejar em relação a esses cuidados”, afirmou Filipe.
Os jalecos dos médicos britânicos tiveram as mangas encurtadas, em uma tentativa do governo de conter os casos de infecção hospitalar. Entre as medidas anunciadas pelo Ministério da Saúde está ainda, a proibição do uso de blusas de manga comprida, bijuterias ou relógios, pois os punhos das roupas ficariam muito contaminados pelas chamadas superbactérias -resistentes a antibióticos - como a Clostridium difficile, que causa diarréia e inflamação do cólon, e a Staphylococcus aureus, causadora de pneumonia.
