Os três principais partidos nos quais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aposta para vencer as eleições em 2010 vivem um momento conturbado, uma espécie de crise de relacionamento. São alvos de tentativa de desestabilização e de boicote. Fogo amigo, inimigo, não importa. A relação entre PT, PMDB e PSB está à prova constantemente. A toda hora aparece um incêndio entre eles. E, depois, um bombeiro para reafirmar a importância de o trio trabalhar junto a fim de garantir a vitória de um candidato governista no próximo páreo presidencial.

O presidente Lula quer o apoio do PMDB à sua candidata, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT). A fim de formalizar a troca de alianças, já ofereceu à maior sigla do país o direito de indicar o vice na chapa. Para peemedebistas, no entanto, o petista dá declarações e move peças que estremecem o noivado. Por exemplo: o pedido público para que o PMDB apresente uma lista tríplice de pretendentes a vice da “mãe do PAC”. O gesto foi compreendido como um ataque especulativo ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), até então favorito para o papel de coadjuvante.

Lula também conta com o PSB em 2010. Não quer que a legenda lance o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) ao Palácio do Planalto. Se não convencê-la, espera pelo menos que o parlamentar fustigue os calcanhares dos tucanos no primeiro turno e, na segunda rodada, cerre fileiras com Dilma. As conversas estão encaminhadas, mas não sem atritos. Nesta semana, por exemplo, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) pôs lenha na fogueira ao dizer que Ciro “pegou o pau de arara na direção errada”, por ter nascido em São Paulo e se criado politicamente no Ceará.

Mercadante foi tachado de preconceituoso com os nordestinos. De quebra, comprou briga com o presidente do PSB, Eduardo Campos, governador de Pernambuco. Não foi à toa. O senador petista declarou que Campos não terá a ajuda de Lula na campanha à reeleição caso o PSB não desista da candidatura Ciro. O ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, teve de entrar em campo para apaziguar os ânimos do governador e dos socialistas. Presidente do PT, o deputado Ricardo Berzoini (SP) classifica de normais as tensões entre os partidos.

Berzoini lamenta, no entanto, ter de reafirmar, constantemente, a importância das boas relações entre as siglas, sobretudo depois de declarações desastradas de petistas. Sejam públicas ou em conversas de bastidor. “Sempre tem alguém que dá uma declaração em off”, reclamou Berzoini.

Tensão
Vítima das estocadas de Mercadante, o governador Eduardo Campos atua em linha com Lula, mas também tem se queixado das fricções desnecessárias, inclusive as provocadas por colegas de legenda. Por exemplo: quando Ciro atacou a relação entre PT e PMDB e lançou críticas a Temer e aos deputados Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), líder da bancada na Câmara, e Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A alfinetada de Ciro e a resistência de setores do PT em dar a vice a Temer fizeram o presidente da Câmara explicitar sua insatisfação. Temer deixou claro que se sente boicotado pelo partido de Lula.

“Nós temos os votos suficientes para fazer a aliança e ter o vice de Dilma. E o nosso candidato é o presidente Michel Temer”, afirma o deputado Eunício Oliveira (PMDB-CE), ex-ministro das Comunicações na gestão Lula. “Se eles quiserem ganhar a eleição com a gente, o escolhido é o Temer”, acrescenta. A forte defesa de Eunício ocorre depois que Lula disse que o ideal seria o PMDB apresentar uma lista com três nomes para Dilma e o PT escolherem. Os peemedebistas divergiram sobre as intenções de Lula.

Uns falaram que ele explicitou o descontentamento com Temer. Outros, que quis testar se o presidente da Câmara é uma unanimidade no partido. A terceira leitura é que ele deu a senha para petistas trabalharem para tornar Ciro Gomes o vice. “As declarações do Temer o fortalecem como presidente e como candidato. Quem vai decidir o vice é o PMDB, num acordo com o PT e com a Dilma”, diz o líder petista na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP).

"Nós temos os votos suficientes para fazer a aliança e ter o vice de Dilma. E o nosso candidato é o Temer"
Deputado Eunício Oliveira, ex-ministro das Comunicações

"Sempre tem alguém que dá uma declaração em off"
Deputado Ricardo Berzoini, presidente do PT

Harmonia em nome de Dilma

Sob a batuta do presidente Lula, as cúpulas do PT e do PSB terão uma conversa definitiva sobre a estratégia eleitoral em março. Na ocasião, será decidido se o deputado Ciro Gomes concorrerá ao Planalto. Lula não o quer no páreo. Mas aceitará sua participação se o parlamentar estiver bem nas pesquisas ou for fundamental para garantir a realização de um segundo turno entre um governista e o competidor da oposição — provavelmente o governador de São Paulo, José Serra.

Se a decisão for a favor da candidatura de Ciro, o PSB diz ter o compromisso de Lula de colocar alguma legenda da base aliada para apoiá-lo e aumentar seu tempo de televisão. Essa possibilidade será levada em conta desde que resulte em menos votos para Serra, já que o deputado pode abocanhar eleitores com perfil conservador. Para o cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Kramer, a candidatura de Ciro se sustenta justamente por se tornar um contrapeso à força de Serra.

“O Ciro pode ser uma terceira força à medida que traz votos de pessoas de tendência conservadora, que prefeririam o Serra como voto útil só para não eleger a Dilma”, diz Kramer. “Ele está manobrando para ser o fiel da balança.” Os socialistas temem, no entanto, que a queda de Ciro nas pesquisas inviabilize o projeto presidencial da legenda. De uma candidatura que era vista como muito provável há três meses, ela virou uma espécie de azarão. “É grande a possibilidade de ele não sair candidato”, afirma um parlamentar do PSB.

O problema, segundo eles, é o pouco de volume de campanha, sintetizado em falta de palanques competitivos nos estados e tempo escasso de TV. “Não tem esse negócio de candidatura olímpica, e o Ciro não vai entrar nessa”, diz um integrante da cúpula do PSB. Lula está empenhado em formar uma coalizão com PT, PMDB e PSB e espera esclarecer a confusão até abril, quando Dilma Rousseff deixará o governo para mergulhar na campanha. (TP)

Musculatura partidária

Veja o tamanho de cada uma das três siglas

PMDB
Governadores: 9
Prefeitos: 1.203
Senadores: 17
Deputados federais: 88
Filiados: 2.044.629

PT
Governadores: 5
Prefeitos: 557
Senadores: 11
Deputados federais: 77
Filiados: 1.249.211

PSB
Governadores: 3
Prefeitos: 311
Senadores: 2
Deputados federais: 27
Filiados: 437.419