A festa de formatura de um dos maiores colégios de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, teve bebidas alcoólicas à vontade, mas só para quem comprovava ser maior de idade, de acordo com uma aluna do último ano do ensino médio, de 17 anos:

- Quem mostrava o RG recebia uma pulseira. Só com ela era possível ir ao balcão e comprar cerveja ou outro tipo de bebida.

A celebração, que ocorreu há cerca de um mês, marcou o fim do ensino médio para centenas de jovens do colégio particular. Muitos deles beberam champanhe e cerveja mesmo sendo menores de idade – o que é proibido –, com a ajuda de outros colegas que tinham a pulseira de identificação.

Também no interior de São Paulo, na cidade de Jacareí, outra formanda do ensino médio, de 17 anos, conta que todos seus amigos beberam algo, mas sem exageros:

- Tomei champanhe para brindar e comemorar. Não foi nada de mais.

Preocupação

A atitude, no entanto, vem preocupando especialistas. Uma pesquisa recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sobre saúde nas escolas mostra que 71,4% dos estudantes brasileiros, a maioria entre 13 e 15 anos, já consumiu bebidas alcoólicas.

Outro estudo, feito pelo Portal Educacional, revela que 42% dos 11.846 jovens ouvidos começaram a beber em casa, com a permissão dos pais. Andréa Maia de Santana, gerente de conteúdo, diz que isso pode até ser positivo, porque pode haver um consumo mais controlado perto dos pais. Mas, mesmo assim, os jovens têm bebido cada vez mais cedo e alguns grupos abusam.

A professora do departamento de psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Ilana Pinsky Streinger, afirma que atualmente existe a idéia geral de que o álcool deve estar em toda confraternização:

- A sociedade é muito tolerante. Há casos de abuso de álcool até em festas de 15 anos, com a concordância dos pais. Parece que se uma confraternização não tiver álcool, não é festa. Os pais costumam ser mais permissivos com o álcool do que com outras drogas.

No entanto, Ilana percebe algumas mudanças nas atitudes dos pais, mas ainda são tímidas. Ela explica que em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, existem regras, legislação e fiscalização que coíbem ou pelo menos atenuam esses fatores.

A professora alerta que danos físicos relacionados ao consumo excessivo de álcool ocorrem cada vez mais cedo. Problemas de fígado, como a cirrose, que antes apareciam aos 40, 50, hoje aparecem aos 30, ou até menos. Outro problema grave são os casos de violência, que aumentam com a bebida.

Controle

Victor Cajano, de 17 anos, é aluno do colégio Sidarta, em São Paulo. Sua turma comemorou a formatura no terceiro ano do ensino médio na casa noturna Via Funchal, que também organizou a festa. Não fornecer bebida alcoólica aos alunos faz parte dos princípios do colégio. Segundo a diretora Claudia Siqueira, a organização foi feita sob uma única condição: não seria permitido o consumo de bebida alcoólica. Mas, para Cajano, isso não é problema:
- É interessante ver que os caras tão preocupados. Eu acho que, por mais que reclamem, é uma postura consciente. Bem ou mal é proibido bebida para menores de 18. A gente pode não achar legal agora, mas acho que daqui a uns anos, a gente pode olhar pra trás e achar que foi melhor assim.

Claudia diz que a proibição não atrapalhou a festa:

- Foi um open bar de guaraná, suco de laranja e água. Mesmo assim, a turma do terceiro ano foi em peso. Eles dançaram e conversaram a noite toda.

Willian de Arruda, de 17 anos, era membro da comissão de formatura da EE João Rodrigues Bueno, em Sorocaba (SP). Ele fez questão de fazer um acordo entre pais, estudantes e empresa para só vender bebida para maiores de idade:

- Foi melhor assim, para evitarmos problemas. Eu não vi nenhum adolescente bebendo e correu tudo bem.