As suspeitas de que parlamentares usavam indevidamente a cota de passagens aéreas da Câmara e do Senado decolaram de vez em abril, com a abertura da caixa-preta sobre o benefício. Estava no ar a primeira grande crise do Parlamento em 2009. Naquele mês, o Congresso em Foco começou a mostrar ao país que deputados e senadores de todos os partidos, líderes de bancada, ministros, ex-parlamentares, integrantes da Mesa Diretora, todos usavam como queriam passagens aéreas pagas com dinheiro público. As revelações prosseguiriam pelos dois meses seguintes.

Até artistas de TV e cantores gospel foram transportados com a cota parlamentar. Pelo menos 261 congressistas viajaram para o exterior. As revelações continuaram. Um único parlamentar usou 40 bilhetes para viagens internacionais, todas para fins particulares. A descoberta de que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, viajara com passagens custeadas pela Câmara abriu uma nova frente de apuração jornalística.

Gilmar apresentou extratos de cartão de crédito e comprovou ter pago os bilhetes. A revelação obrigou a Câmara a investigar o mercado paralelo de venda de créditos aéreos, com a participação de funcionários do Congresso, de agências de viagem e, segundo os indícios,parlamentares.

Forçada pelas revelações, a Mesa Diretora da Câmara tomou medidas para disciplinar o uso das passagens para o futuro. Alguns deputados devolveram o dinheiro gasto em viagens fora do exercício do mandato. Ao mesmo tempo, a cúpula do Congresso trabalhou para perdoar as irregularidades do passado. As viagens internacionais ficaram restritas na Câmara e proibidas no Senado. Proibidos também os voos a passeio e cujos passageiros são parentes dos
parlamentares.

Em virtude da quantidade de bilhetes emitidos para fins que não fossem o trabalho parlamentar, as duas Casas determinaram a redução da cota de passagens aéreas. Os deputados tiveram corte de 20% no valor mensal para a emissão de bilhetes, enquanto a redução na cota dos senadores chegou a 25%. A estimativa é de que as mudanças gerem uma economia de R$ 25 milhões aos cofres públicos por ano.

As revelações renderam ao Congresso em Foco, no final do ano, dois dos principais prêmios de jornalismo do país: o Embratel, na categoria de jornalismo investigativo, e o Esso, na categoria de melhor contribuição à imprensa.