A brasileira Paula de Oliveira, 27, que disse ter sido vítima de um ataque neonazista na Suíça em fevereiro deste ano e foi desmentida pela polícia, foi condenada nesta quarta-feira em um tribunal de Zurique. Os documentos de Paula, que estavam retidos desde o início das investigações pela Promotoria, foram devolvidos. Com isso, ela poderá retornar ao Brasil.

A brasileira foi condenada a pagar duas multas por "falsa denúncia": uma de 10.800 francos suíços (mais de R$ 18 mil) e outra de 2.500 francos suíços (mais de R$ 4.000). Ela ainda terá que arcar com as despesas judiciais. Para o pagamento das multas, no entanto, ela recebeu um prazo de dois anos.

A brasileira afirmara ter sido agredida por três skinheads quando voltava do trabalho na noite de 9 de fevereiro, na periferia de Zurique. Na ocasião, ela disse ter perdido os gêmeos que esperava após ser espancada e retalhada com uma faca. No dia 19 do mesmo mês, o Ministério Público informou que a brasileira mentiu. Em comunicado, a Promotoria afirmou que Paula admitiu que fez os ferimentos em si mesma.

Nesta quarta, a juíza Nora Lichti-Aschwanden, do tribunal de distrito de Zurique, considerou Paula responsável por seus atos e por falsas declarações. O advogado Roger Müller havia pedido a absolvição de Paula, sob alegação que ela sofre transtornos neuropsicológicos provocados por uma doença --o lúpus sistêmico-- e, por isso, não poderia responder por seus atos. "A doença exige muitas visitas médicas, muitos medicamentos e muitas terapias, que podem provocar delírios", disse.

Para a juíza, a acusada "sabia que estava prestando queixa por um fato que nunca existiu" e "a capacidade de compreensão dela estava intacta".

Entretanto, Lichti-Aschwanden admitiu uma "culpabilidade reduzida" da brasileira, aceitando a perícia psiquiátrica que reduziu para nível "médio" a responsabilidade da ré. As constatações levaram a juíza a pronunciar uma pena relativamente branda, que deverá "servir de lição" à brasileira, afirmou.

Caso

Paula Oliveira, que mora na Suíça, afirmou ter sido espancada por supostos skinheads em uma estação de trem nos arredores de Zurique, no dia 9 de fevereiro, e teve parte do corpo retalhado por estilete. Ela disse ainda que estava no terceiro mês de gestação de gêmeos e que havia sofrido aborto após a agressão.

Em seu corpo, havia marcas da sigla SVP (Partido do Povo Suíço) --também conhecido como UDC (União Democrática do Centro)-- que defende políticas anti-imigrantes consideradas racistas pela oposição.

A brasileira tirou várias fotos dos locais do corpo que teriam sido alvo dos criminosos. No dia 13 de fevereiro, a polícia de Zurique disse que ela não estava grávida no momento dos ferimentos. Na ocasião, as autoridades afirmaram que Paula poderia ter causado os ferimentos em si mesma.

Dias depois, reportagem do jornal suíço "Tages Anzeiger" afirmou que a brasileira inventou a gravidez para forçar o noivo a casar com ela e assim conseguir o visto de permanência na Suíça. De acordo com a reportagem, o visto de permanência de Paula, que permite a ela trabalhar no escritório em Zurique da multinacional dinamarquesa Maersk, acaba no final deste ano. Sem o visto, ela precisaria deixar o país.

Suspeita

A brasileira deixou no dia 17 de fevereiro o Hospital Universitário de Zurique, onde estava internada após a suposta agressão. No dia seguinte, ela passou oficialmente de vítima a suspeita no caso.

No dia 19 de fevereiro, o Ministério Público confirmou que a brasileira mentiu sobre as agressões que afirmou ter sofrido e também sobre a gravidez. O depoimento foi colhido no dia 13. De acordo com o comunicado feito pela Promotoria, Paula admitiu que fez os ferimentos em si mesma.