O reforço do policiamento nas estradas e fronteiras, por onde costumam entrar armas para o crime organizado, têm levado quadrilhas do Rio de Janeiro a reforçarem seus arsenais roubando órgãos públicos de outros Estados, como quartéis e centros de treinamento. A suspeita é investigada por diferentes delegacias de polícia, conforme revelaram policiais à reportagem do R7.
A polícia mineira apreendeu na última quinta-feira (19) sete fuzis e nove pistolas parcialmente montados numa oficina clandestina de armas na cidade de Itajubá, no sul do Estado. De acordo com a polícia, as armas foram desviadas da Imbel (Indústria Brasileira de Material Bélico), vinculada ao Ministério da Defesa, e estavam em poder de um funcionário da empresa, que levou parte delas para a oficina e outra para casa.
O delegado Alexandre Valentim, responsável pela investigação, suspeita que as armas seriam vendidas a criminosos do Rio. Isso porque o funcionário da Imbel é nascido na Baixada Fluminense. Outro suspeito, preso junto com ele, admitiu viajar com freqüência ao Rio, o que reforçaria a tese. Ambos negam.
A Imbel informou, por meio de nota, ter aberto investigação para apurar o desvio. O prazo para a conclusão do inquérito é de 40 dias.
A essa investigação se somam outras que levantam a mesma suspeita, de que facções criminosas estão procurando armamento público. Na semana passada, a polícia paulista confirmou que dois fuzis roubados há oito meses de um centro de treinamento tático de policiais, em Ribeirão Pires, na Grande São Paulo, acabaram nas mãos de bandidos cariocas. Na ocasião, foram levados 22 fuzis e 89 pistolas.
O chefe da Divisão de Repressão ao Tráfico Ilícito de Armas da Polícia Federal, Marcus Vinicius Dantas, confirmou a tendência. Ele disse que investiga a participação de criminosos do Rio no roubo de 58 armas, entre fuzis, pistolas e submetralhadoras, de um quartel da Polícia Militar, em Salgueiro (PE), em 14 de outubro passado.
Dantas afirmou que a suspeita foi reforçada após depoimentos de testemunhas terem revelado que alguns dos suspeitos do roubo tinham o sotaque dos moradores do Rio. Nenhuma das armas foi recuperada até agora.
Tendência
O delegado afirmou que, tanto os grupos criminosos do Rio, como os de São Paulo, estão invadindo quartéis policiais ou das Forças Armadas em busca de armamentos. Segundo ele, está mais difícil trazer armas para o Brasil por causa da maior repressão nas estradas e de acordos de cooperação com países vizinhos, como a Bolívia e Paraguai.
- Já vimos casos de traficantes que vão para a região fronteiriça com US$ 100 mil. Passam seis meses por lá e não conseguem armamentos. Isso explica tantas invasões este ano, como a do quartel do Exército em Caçapava (SP), a de um centro de tiros em Ribeirão Pires (SP), de dois fóruns da Justiça e de sedes de empresas de segurança.
Marcus Vinicius Dantas avalia que as facções do Rio querem as armas para se proteger contra ataques rivais, e as de São Paulo, para grandes assaltos. O delegado federal admitiu ainda a possibilidade de os criminosos brasileiros participarem de desvios de armas de quartéis das Forças Armadas de países vizinhos, pois muitas armas apreendidas no país pertenciam a esses órgãos.
Churrasco e armas
Policiais civis do Rio também confirmam que tendência de grupos criminosos realizarem grandes roubos de armas. Há duas semanas, policiais da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas estouraram um esconderijo de traficantes da favela Vila Cruzeiro (zona norte carioca) em Muriqui, no litoral sul fluminense.
Os bandidos, fortemente armados, faziam um churrasco. O objetivo da festa, segundo investigações, seria planejar um grande roubo de armas.