O laço verde limão enfeitando os cabelos levemente desalinhados reforçam a lição que a agricultora e professora aposentada Creuza Gomes da Silva, 65, ensina ao Grupo Setorial de Costura da Associação de Moradores do Pau Fero dos Laranjeiras.
“ Aqui a gente não perde nada, nem uma linha, nem um fiapo”, ela garante enquanto trabalha na produção de mais uma das peças da coleção Bem Querer, a grife de cama, mesa e banho que se lança no mercado brasileiro como mais uma ação de comércio justo.
O cenário desenhado por peças de tecido em algodão, linhas, tesouras e muitas agulhas dá um colorido especial à zona rural de Arapiraca e à vida das 26 camponesas que se revezam no trabalho diário.
A oficina quente se refresca com a alegria e entusiamo de um time que aposta no trabalho coletivo como forma de independência financeira e solidariedade. “ Tenho certeza de que isso aqui vai ser uma explosão de vendas”, arremata dona Creuza.
Um sonho que elas perseguem há quase dois anos, após a tentativa da presidente da Associação de Moradores, Josefa Teixeira, 50, de montar na comunidade uma feira livre no bairro. A proposta inicial virou um diagnóstico feito pela Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços da Prefeitura Municipal demonstrando o potencial local para o ramo da costura.
De lá para cá o caminho trilhado pelas agricultoras , acostumadas a enfrentar o plantio de fumo, é de muitos metros de tecido em aprendizado técnico.
Novas parcerias foram acrescidas, a exemplo dos cursos de capacitação e profissionalização ministrados pelo SESI e SENAI. Ano passado foi a vez do SEBRAE reforçar a costura com a aprovação do projeto através da Unidade de Acesso a Mercados, que tem como foco a cadeia têxtil, garantindo apoio a micro e pequenas empresas que atuam através do Comércio Justo e Solidário.
Com a proposta aceita dentre 23 projetos enviados e apenas quatro aprovados pelo SEBRAE Nacional- as costureiras ganharam fôlego e recursos para investir no negócio.
O dinheiro tem caminho certo e começou com o o “ bê-a-bá” de quem começa no mercado formal. Em caixa, elas dispõem de R$ 200 mil reais, a serem gastos em 18 meses na tentativa de consolidar o grupo no cada vez mais competitivo e acirrado mercado. “ Nesse período a expectativa é de crescimento na renda e aumento da oferta de empregos”, avaliou a Gestora do Projeto junto ao SEBRAE, Áurea Valéria.
“Estamos no processo de melhoria técnica, trabalhando a formação de preços, produção de etiquetas de composição, embalagens. A partir daí, a busca será por novos mercados.
“ Pois, a proposta é atender em atacado ”, avaliou o Coordenador do Projeto MotivAção da Prefeitura, consultor e fiel escudeiro das mulheres do Pau Ferro. “ Elas ainda estão se preparando, mas o resultado já é muito bom”, garantiu.
É preciso BEM QUERER.
Enquanto aguardam a constatação de que está valendo a pena acreditar no sonho, elas costuram a produção mensal da Bem Querer , que ainda é pequena e vendida no varejo. Fazem isso cotidianamente, sem descanso, sem desânimo.
“Todo o faturamento está sendo reinvestido na produção de novas peças. Temos certeza de que todas vão ganhar dinheiro”, aposta Janeíne Maria, 24, casada, um filho, espécie de “contabilista” do Grupo.
Financeiramente elas sonhavam uma renda inicial de um salário mínimo para cada integrante. Pessoalmente elas buscam muito mais. “ Tudo vai melhorar. Quando começarmos a levar mais uma renda para casa, a vida vai melhorar em tudo”, garante Suely Maria, 43 , divorciada, 3 filhos, costureira e Agente Comunitária de Saúde.
Ela fala enquanto alinhava mais um edredon feito de algodão multicolorido. Fala pela experiência quinze anos cuidando da saúde da comunidade, que possui aproximadamente 1200 habitantes e que tem uma história de solidariedade e união.
“ Trabalho de noite, de madrugada, finais de semana. Mas o importante é fazer o sonho acontecer. Porque quando nós mulheres melhorarmos a renda da nossa família a saúde melhora também”, garantiu.



