O medo da violência tem feito os alagoanos de classe média, principalmente os que moram na capital, começarem a se trancar em suas próprias casas, utilizando grades, cadeados e cercas elétricas para se proteger de assaltos e até mesmo sequestros, aumentando o faturamento no mercado de segurança privada. Boa parte da população passou a limitar horários, áreas e atividades, algo que tem altos custos econômicos e sociais.
Deixar de visitar amigos e parentes ou utilizar caixas eletrônicos em determinados horários, alugar filmes por medo de ir ao cinema, avançar o sinal vermelho de madrugada, optar por carros blindados e pela realização de pagamentos pela internet são atitudes comuns a vítimas da violência urbana, em um fenômeno chamado por especialistas de efeito casulo.
Uma pesquisa do Ibope, realizada em 2007 com 1.400 pessoas acima de 16 anos, em todo o país revelou que os brasileiros têm mudado seus hábitos e passaram a andar de carro com os vidros fechados, que é parte da rotina de 61% da população. Já 58% dos entrevistados não deixam os filhos saírem sozinhos à noite e 53% evitam caminhar nas ruas do próprio bairro depois que escurece. Outros 18% admitem encomendar comida por telefone para evitar o risco de sair de casa.
Os jovens também já se mostram preocupados com a violência e ao invés de bares, onde ficam mais expostos, preferem freqüentar shoppings e outros locais mais movimentados e supostamente seguros. Eles têm deixado de sair sozinhos, pois até andar de ônibus se tornou perigoso. Os pais passaram a buscar os filhos na escola e as famílias se fecham em condomínios e cogitam a mudança de cidade para se afastar do caos das capitais brasileiras.
O estudante de direito Carlos Humberto Cavalcanti, 30, lamentou ter sofrido um sequestro relâmpago, em 2008, ficando 4h em poder dos assaltantes. Após o episódio, ele decidiu colocar uma película antiviolência no carro, que deixa os vidros mais escuros e duas vezes mais resistentes à quebra do que os convencionais.
“Eu tinha ido levar minha ex-namorada em casa e quando desci fui abordado por dois homens armados, no Conjunto Cleto Marques Luz. Ela conseguiu correr e eu passei para o banco de trás do carro. Um dos bandidos estava muito nervoso, colocou a perna nas minhas costas para me manter abaixado. Chegamos a passar por uma blitz e eles me deixaram em um canavial no município de Satuba. Disseram que por eu ter cooperado iam me deixar vivo”, relatou o estudante.
Cavalcanti ressaltou que durante a ação sofreu muita pressão psicológica, emboa tenha ficado calmo, motivo pelo qual acredita ter saído ileso. “Só pensava na minha família e quando consegui sair do canavial fui para a pista e vi uma viatura da polícia. Fiz o Boletim de Ocorrência, mas só acharam o carro duas semanas depois. Agora, fico com os vidros fechados e antes de chegar em casa dou uma volta no quarteirão, para observar a movimentação. Tive que procurar um psicólogo e me sinto mais seguro por saber que tenho a película nos vidros do carro”, disse.
Já a Relações Públicas Emanuelly Ferreira relatou que após ter sido assaltada mudou sua rotina e ainda, que tem medo de ser vítima da violência perto da própria casa, no Conjunto Benedito Bentes. “Eu saia do trabalho ás 17 horas e atendia o celular normalmente na rua, até que um dia um homem me abordou como se me conhecesse e colocou uma arma na minha cintura. Comprei outro celular, mas agora só deixo no silencioso. Em casa contratamos uma empresa de segurança privada, meu pai vai me buscar e tenho evitado certos lugares”.
Ela acredita que as pessoas que moram na parte nobre da cidade estão mais sujeitas a assaltos e sequestros. “Esses lugares são visados pelos assaltantes, que acreditam que lá terão o que roubar. Mas, em termos de violência física os bairros da periferia são tão perigosos quanto os das áreas consideradas nobres. A segurança no nosso Estado está cada vez mais falha, assim como o sistema de recuperação dos reeducandos”, afirmou Emanuelly.
Para ela, alguns meios de comunicação, ao exibirem certas imagens, também causam um pânico que não existe, fazendo com que todas as pessoas, ricas ou pobres, tenham medo de ser sequestradas ou assaltadas ao saírem de suas casas.
Já Andreza Mendonça, 21, que é estudante de psicologia relatou que por ter sido assaltada duas vezes em um ponto de ônibus não frequenta mais o local em determinados horários. A avó, com quem ela mora agora exige que a estudante volte para casa antes das 21h. “Não fico no ponto da antiga rodoviária, pego ônibus próximo ao Sesc Poço, e tenho que \'arrudiar\' tudo. Perco bastante tempo,mas é mais seguro. Antes eu fazia pequenos percursos a pé, mas agora tenho que andar de táxi”.
Andreza revelou que sente um certo pânico, que se assusta com tudo, fica desconfiada e olha para os lados ao sair de casa, para se sentir segura. “Ás vezes chega a ser constrangedor. Um dia vinham umas pessoas em minha direção. Fiquei assustada e segurei firme a bolsa. Elas passaram e de repente, um gritou que não era ladrão. A violência está em todos os lugares, conheço amigos que foram assaltados diversas vezes na Ponta Verde e com certeza existem pessoas de classe média assaltando por ai”, destacou
