Num estilo leve e elegante, mesclado de surpreendentes informações sobre como alguns políticos nordestinos engajaram-se no maior movimento democrático pós 1964 para encerrar o ciclo de presidentes militares, o jornalista Angelo Castelo Branco proporciona uma revisita imperdível em seu sugestivo “Provocações da Memória”, Editora Bagaço. O livro será lançado no próximo sábado às 16h no estande da Editora Bagaço durante a Bienal do Livro de Maceió.

O trabalho traz pelo menos dois méritos irretocáveis: trata-se de uma obra totalmente desengajada de paixões ideológicas onde os personagens – vivos e mortos – são abordados única e exclusivamente pelos papéis desempenhados num dos momentos mais difíceis do cenário histórico e institucional do Brasil.

Sem impor juízos de valor aos leitores e considerando, episodicamente, traços pessoais dos que, de certa forma, moveram a crônica política do final dos anos 60 até meados dos anos 80, Angelo Castelo Branco logra atingir o objetivo que temia não conseguir: o seu livro é de fato uma bela contribuição para se entender porque Pernambuco continua sendo um dos estados que mais influências exercem nas grandes mudanças da História política brasileira.

O outro mérito é a perceptível tendência ao perfeccionismo que busca sempre contextualizar os personagens para oferecer aos leitores uma visão politicamente holística dos que de fato deixaram suas pegadas no cimento da história mais recente de Pernambuco e do país. É o caso, entre outros, do ex-deputado constitucionalista e ex-magistrado Egídio Ferreira Lima, cujo perfil de conciliador chegou aos ouvidos de um certo torneiro mecânico. De barba mal aparada e com um filho nos braços ele chegou à Avenida Rosa e Silva, ao apartamento de Egídio, se apresentar como simpatizante dos movimentos de oposição inteligente ao regime autoritário. O espaço familiar de Ferreira Lima transformar-se-ia num oráculo diante do qual se buscavam o bom senso e a solidez de convicções para se combater a prepotência institucional que afastava o país da social democracia.

Aliás, espaços biográficos, como o que é dedicado ao pernambucano Egídio Ferreira Lima, valorizam sobremodo a obra que está sendo editada pela Bagaço e deve se transformar em leitura obrigatória ou clássica para o aprofundamento das reflexões sobre os homens e as mulheres envolvidos no eixo rotativo da história.

Sem ser um livro de História, o trabalho de Angelo Castelo Branco é, no entanto, uma sucessão de boas histórias onde o autor resgata fatos e gestos que formaram o grande mosaico ou alicerce pernambucano e nacional sobre o qual os políticos travaram suas batalhas enquanto o regime militar se exauria e agonizava. O livro “Provocações da Memória” junta algumas peças que remetem ao entendimento da solução brasileira, sem esquecer o tom pessoal ou humano – trágico ou engraçado – de pernambucanos ilustres que passaram pelo poder ou ainda insistem em suas lutas, nem sempre exitosas, pelos ideais que os estimulam.

Se a intenção do autor estava restrita apenas ao submerso de suas experiências pessoais como repórter dos jornais, rádios e TVs por onde passou, ele pode ter a certeza que foi mais longe. Os fatos narrados, as riquezas de certos detalhes, uma fina ironia aqui e acolá, as tragédias reservadas pelos destinos de alguns, constroem cada página como se fosse roteiro de uma bela produção romanceada.

Conspiradores e conciliadores, idealistas e padrinhos de grandes causas desfilam nas páginas do livro que aponta personagens de real importância na vida pública do Estado e a forma ou estilo com que eles marcaram suas atuações no curso dos fatos originários da Nova República. A macro-visão do autor sugere inclusive algumas alterações de conceitos. Em dado momento da sua exposição Castelo observa que Tancredo Neves foi o primeiro líder político a promover uma ampla coligação de forças em Pernambuco, antecipando um movimento que daria origem à união eleitoral PMDB com o PFL. Conflitos inevitáveis, latentes entre o mito Miguel Arraes e a geração da resistência dos anos 70, são abordados de forma inédita revelando as situações delicadas e difíceis entre divergências e homenagens ao grande líder.

Trata-se, de fato, de uma leitura imperdível que nos leva a reafirmar ou até a reconsiderar as críticas construídas durante os dias de incerteza que atravessamos e que se estendem, sob novos enfoques políticos, ao início desse novo milênio.