"Coco Antes de Chanel", que chega aos cinemas brasileiros na próxima sexta (30) (seis meses depois de estrear na França), é um recorte da vida da mais célebre estilista do século 20, cujo nome se tornou sinônimo de elegância e sofisticação. Desde o dia em que é deixada junto com a irmã em um orfanato, sua juventude difícil como cantora de taberna, seu acesso à alta roda parisiense e a abertura de seu ateliê de costura. Parece atropelado? E é mesmo. Mas esse não é o maior problema do filme.

Segundo a diretora Anne Fontaine, "Coco Antes de Chanel" pretende mostrar os anos de "preparação" de futura estilista. E é daí que vem seu ponto mais fraco, pois a Chanel encarnada por Audrey Tautou é desprovida de interioridade. Não há qualquer indício dos pensamentos e sentimentos íntimos da personagem. Sua vida é vista a partir dos homens com que se envolve, das vantagens que obtém por meio de um ou outro conhecido, e "explicada" por uma sociologia um tanto rasa.

No filme, é antes uma impossibilidade de Chanel de compreender o universo da ornamentação das roupas que a leva a refutá-los; se as modelagens que cria são austeras, é porque são inspiradas em uniformes de orfanato, e se tem um gosto pelo preto, é por causa de um luto irremediável. Tautou consegue até criar uma personagem simpática, mas da qual não se pode inferir o sofisticado visionarismo que daria anos mais tarde em ícones da moda como o famoso vestidinho preto, o tailleur de tweed debruado, a bolsa de matelassê com alça de corrente e toda a "panóplia" de Chanel.

Chanel entendeu como poucos a importância dos códigos da moda. Numa época em que as cores, os materiais e os adereços das roupas cumpriam a função de marcar o status de quem as usava, ela utilizou esses códigos para se impor numa sociedade com pouca permeabilidade e em que as mulheres eram vistas como bibelôs. No filme, essa dimensão é achatada - suas transgressões estão mais para caprichos, e fundar seu ateliê de moda é uma maneira para escapar de um dilema romântico e se tornar "independente". Não há paixão pelo que faz.

Pelo recorte temporal --evidenciado pelo título--, o filme não tem os episódios polêmicos da vida da estilista, como seu suposto envolvimento com o governo nazista, durante a Segunda Guerra. Ficou de fora também o processo de construção da marca e da maison Chanel. Assim, desprovido do atrativo fácil do escândalo e do difícil do documental, "Coco Antes de Chanel" acaba por ser um filme anódino, sem interioridade, por ficcional que fosse.