Um livro deve chamar bastante atenção do público e, principalmente, da crítica brasileira nesta reta final do ano e não será surpresa se figurar nas listas de melhores do ano na categoria contos e nas postulações a prêmios em 2010. O crédito recai a Matriuska (Editora Iluminuras, 98 páginas), do cearense pernambucano por opção Sidney Rocha, que já tinha chamado atenção com a edição caprichada de Sofia – Uma ventania para dentro (Ateliê Editorial, 2006). O lançamento acontece nesta segunda-feira (21), na Livraria Cultura do Paço Alfândega, às 19h30.
Seus textos são econômicos, desconcertantes, fragmentados. E bastante crus. O humor negro e a ironia tecem as histórias. Não há adiposidade e o lirismo se dá às avessas. Sidney vai às entranhas da alma feminina de suas personagens, arranhando a dor de estar no mundo de cada uma delas, suas liturgias de viver, o corpo sangrando, explorado por trocados, sem amor ou se vingando na traição, e mesmo assim pedindo dois dias a mais para concluir as coisa a cuidar. Nas matriuskas de Sidney – Lucinha, Guadalupe, Zuzinha, Jane, Zulmira, Cleonice, Ester, Maggie – a vida contém a morte desde nascença, uma morte que às vezes se dá por introspecção.
As histórias de alguma maneira se mesclam, reverberam de uma forma não linear e lógica neste quebra-cabeça de Sidney. Bem a propósito a simbologia da matriuska – bonecas-cebola russas, com suas camadas, de roupa, de pele, de sofrimento.
Matriuska é exercício de estilo narrativo, embora possa incomodar alguns cacoetes na pontuação ou grafia: o uso de minúsculas após o ponto ou nomes próprios em minúsculas.
O livro está abonado por quem entende do riscado: Marcelino Freire assina a apresentação e Mário Hélio o posfácio. Sidney Rocha é escritor bibliófilo. Assim, trata da edição com esmero. O livro tem capa dura revestida de tecido e sobrecapa. Apresenta hardbacks distintos – metade dos mil exemplares são em verde e a outra metade em vinho.