A relação entre as artes plásticas e o adorno não se esgota na escolha do melhor lugar para se pendurar um quadro ou para se posicionar uma escultura. Pelo menos na visão do artista carioca Orlando Mollica, que criou 70 trabalhos tendo como base as páginas de revistas de decoração. Desses, 42 vão integrar a exposição Revista, revista, que inaugura na próxima quinta-feira, no MAM. Com as novas obras, Mollica inicia uma nova fase de sua carreira, e sai das telas monocromáticas de paisagens cariocas – nos últimos tempos cada vez mais abstratas – para adentrar numa paleta de cores mais rica e multiestilística nos espaços fechados do “design de interiores”.

– Comecei a fazer as intervenções sobre as páginas dessas revistas porque minha mulher é arquiteta – explica Mollica. – Ela tinha várias publicações cuja linha editorial mostrava como o decorador buscava se equiparar a um artista romântico. Eu achava aquilo muito engraçado.

O pintor, então, tirava uma fotocópia colorida das páginas que queria e pintava por cima, deixando partes dos títulos e das fotos aparecendo. Assim, ele criava novas situações, imagens e sentidos para tudo o que não era ocultado pelas pinceladas.

– Fui fazendo decoração em páginas de revistas de decoração – brinca. – Como o decorador, no texto, mimetizava a fala de um artista, falando de sentimento, de inspiração, de fato deixei a página como se ela fosse pensada por um artista.

Na série, Mollica não se prendeu a um estilo único. Suas influências variavam entre referências que iam do impressionismo ao surrealismo, a partir das frases que ele escolhia para destacar. Autoria? É uma questão que não o preocupa.

– Fui um artista múltiplo nesse trabalho, mas nunca tive essa preocupação com esse lado autoral – confessa. – Com a internet o autor é muito relativo. A autoria é de quem pega e, inclusive, de quem vê a obra.

Com esse pensamento, Mollica sugere que a obra de arte deve ser democratizada. Contrariando a ideia do teórico Walter Benjamin de que a reprodução em série de uma obra tira sua aura, ele afirma que a arte “tem que estar na mídia”. No caso de Mollica, isso acontece quase de forma literal. O resultado de todo esse esforço mental e conceitual são obras ora poéticas, ora irônicas.

As frases dos títulos ou dos trechos das matérias harmonizam-se com as pinturas, e cada trabalho parece passar um sentido diferente. Em um deles, a frase “Why do we fall in love with objects if they cannot requite our feelings?” (“Por que nos apaixonamos por objetos se eles não podem retribuir nossos sentimentos?”) paira sobre a imagem da silhueta de um homem segurando um buquê de flores, solitário, envolto por tons de verde e branco. A imagem corrobora e exalta o que está escrito – e esse, para Mollica, é o objetivo fundamental da arte: “exaltar a vida”. A ironia de algumas frases é, em outros trabalhos, facilmente percebida. “Point. Click. Enjoy the view” (“Mire. Clique. Aproveite a vista”), sentencia uma das revistas e, abaixo, uma menina sentada observa uma paisagem impressionista com clara referência a Monet.

– Essa menina estava observando, originalmente, uma persiana – conta Mollica. – Tirei o sentido artístico que a frase procurava transmitir e o apliquei de fato à obra.

Por já ter trabalhado como cartunista e ilustrador em jornais, Mollica está acostumado ao apreço pela arte figurativa, considerada por ele mais “necessária” ultimamente graças à sua facilidade de comunicação direta com o público. Isso não significa, entretanto, que ele renegue a importância do abstracionismo.

– A arte abstrata teve o seu momento, mas hoje em dia não podemos excluir a produção de subjetividade causada pelos meios de comunicação – argumenta.

Posicionado conceitualmente dessa forma, o próximo trabalho de Mollica – ao qual ele já se dedica – é sobre revistas de gastronomia.

– A produção fotográfica é muito bonita e sedutora. Consigo ver uma pintura de Goya saindo de uma comida – teoriza o pintor, demonstrando que vai seguir subvertendo as publicações.