A cúpula da União das Nações Sul-americanas (Unasul) que acontece nesta sexta-feira (28), em Bariloche (Argentina), pretende tanto dar fim ao conflito que surgiu entre Colômbia e Venezuela a propósito da decisão de Bogotá de permitir o acesso de tropas norte-americanas a sete bases militares em seu território, quanto proteger a existência da própria Unasul, comprometida como foro em que os 12 países da América do Sul podem dirimir suas diferenças políticas e de segurança, sem presença estrangeira.

A cúpula, que vai durar só um dia, foi precedida de um intenso trabalho diplomático para tentar impedir que acabe com a evidente demonstração de que as relações sul-americanas atravessam um mau momento.

O Brasil, promotor da Unasul, tenta fazer com que a reunião termine com um desacordo não traumático, mas o presidente venezuelano, Hugo Chávez, deixou entrever que a reconciliação é impossível e que não descarta anunciar, ainda em Bariloche, a ruptura de relações com a Colômbia. Um fracasso estrondoso da cúpula também implicaria um fracasso do Brasil e prejudicaria suas tentativas de consolidar sua liderança no continente, exatamente através de organismos como a Unasul, que nasceu há apenas quatro anos com a vontade de propiciar processos de integração e diálogo exclusivamente sul-americanos.

O Brasil não está contente com a decisão colombiana de autorizar o uso de suas bases, mas aceita que é um fato e se conforma que a Colômbia dê garantias de que só poderão ser usadas pelos EUA para conflitos dentro do próprio território colombiano. O problema não é tanto de segurança como político, porque o acordo entre Bogotá e Washington implica um quadro muito diferente do que propunha a Unasul, interessada em evitar alianças extrarregionais. Inclusive, deixa quase sem conteúdo o Conselho Sul-americano de Defesa (CSD), um dos primeiros sucessos da Unasul, no qual teoricamente se pretende dar respostas conjuntas para os desafios de segurança na região.

O presidente Lula manobrou em todas as direções para impedir que a iniciativa colombiana, e a irritada resposta de Caracas, acabem com o CSD (que nunca despertou a menor simpatia entre os militares americanos). Em uma conversa direta com o presidente dos EUA, Barack Obama, Lula pediu garantias "juridicamente válidas" de que as bases não serão usadas para outra coisa além do combate ao terrorismo e ao narcotráfico dentro do território colombiano, mas ele deixou nas mãos da Colômbia qualquer tipo de explicação.

A pressão brasileira, apoiada por Argentina e Equador, que ocupa atualmente a presidência de turno da Unasul, levou o presidente colombiano, Álvaro Uribe, a anunciar sua presença em Bariloche (não participou de uma reunião anterior em Quito) e a realizar um rápido giro prévio por vários países vizinhos. Uribe propõe que a cúpula analise os gastos militares da Venezuela e de outros países latino-americanos que estão comprando armamentos da China e da Rússia, mas está consciente de que a reunião foi convocada para desativar na medida do possível o conflito das bases e se comprometeu a fazer esforços para tranquilizar os ânimos. Bogotá conta com o apoio do Peru, cujo presidente, Alan García, que não costuma participar desse tipo de reunião, confirmou sua presença em Bariloche.

García apoia a iniciativa de ampliar a agenda e ameaça exigir do Chile e da Bolívia que informem sobre possíveis acordos em relação à histórica reivindicação de La Paz de ter uma saída para o mar (que perdeu no século 19). A presidente chilena, Michelle Bachelet, já deixou claro seu mal-estar e sua negativa a dar explicações em Bariloche.

A Argentina, anfitriã desse encontro extraordinário, também manifestou seu incômodo com o tema das bases colombianas. A ministra da Defesa, Nilda Garré, que acompanhará a presidente Cristina Fernández de Kirchner, afirma que os países da região têm o direito de saber em que consiste a cooperação bilateral militar entre Colômbia e EUA e de estar seguros de que não haverá intromissão em seus territórios. Em todo caso, Fernández não se alinhará com Chávez, mas buscará, como o Brasil, uma declaração final conjunta. A bola está no telhado de Hugo Chávez, que, por enquanto, se limita a aguçar a tensão, ameaçando revelar documentos norte-americanos sobre seus interesses militares na América Latina e na África.