SÃO PAULO - O presidente de deposto de Honduras, cruzou a pé nesta sexta-feira, 24, a fronteira de seu país com a Nicarágua. A travessia se deu no posto de Las Manos. Uma multidão de seguidores - entre familiares e aliados políticos - acompanhou o líder destituído. Do outro lado, estavam soldados e um chefe militar do governo de Roberto Micheletti, com quem ele conversou bastante antes de atravessar.
"Não tenho medo quando trabalho por uma causa justa", afirmou Zelaya logo após pisar em solo hondurenho, destacando que "não aceita imposições". "Disseram-me que não poderia passar pela fronteira, mas disse que ia passar". Ao chegar, o presidente deposto agradeceu também o apoio da comunidade internacional. "Estou tentando estabelecer diálogo com os militares e com a polícia (...) quero falar com o Estado-Maior", acrescentou.
"Queremos dar um exemplo de paz", continuou Zelaya, enquanto muitos hondurenhos festejavam sua chegada a El Paraíso. Segundo a canal estatal venezuelano Telesur, que acompanhou a caravana, ao chegar à região o líder deposto teria pedido aos militares hondurenhos que "não usem de violência."
Zelaya deixou, na última quinta-feira, a capital da Nicarágua, Manágua, em direção à fronteira com Honduras. Ele seguiu para a região de carro acompanhado por um comboio de partidários e jornalistas. Entre as autoridades que acompanham Zelaya na comitiva está o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolás Maduro, sua esposa e filhos.
"Para os povos pobres, a democracia é um instrumento para lutar por suas conquistas. Não tirem a democracia com a força das armas", enfatizou Zelaya em solo hondurenho, dizendo que o governo de facto não poderia governar com ele destituído. Com a anúncio de mais uma tentativa de retorno do líder deposto - a primeira aconteceu no dia último dia 5 -, o governo interino de Honduras ampliou o toque de recolher e a presença de policiais e soldados do Exército na fronteira.
Partidários do presidente deposto se reuniram do lado hondurenho. A polícia teria usado bombas de gás lacrimogêneo contra eles. Em um comunicado divulgado nesta sexta-feira, a Secretaria de Defesa de Honduras afirmou que as Forças Armadas "não podem se responsabilizar pela segurança de pessoas que, por fomentarem a violência generalizada no país, estão sujeitas a serem atacadas, inclusive por seus partidários, com o propósito exclusivo de se tornarem mártires", em uma clara referência a Zelaya.
O governo interino afirmava que o líder deposto seria detido quando retornasse ao país, em cumprimento a uma ordem da Suprema Corte, que já havia ordenado a prisão de Zelaya antes de sua deposição, em 28 de junho, acusando o então mandatário no cargo de querer aprovar um referendo que, se vitorioso, permitiria a reeleição de políticos aos cargos públicos.
Segundo os magistrados, a consulta popular violaria a Constituição do país. Se detido, Zelaya enfrentará quatro acusações: violação a ordens do governo, traição, abuso e usurpação do poder. Os processos podem lhe render 43 anos de cadeia.