Todos os dias, Maria do Carmo Reis, 45 anos, caminha por cerca de um quilômetro em meio a esgoto, entulhos, buracos e lixo para sair de sua casa, na Rua do Retorno, no loteamento Vila Mar, na Estrada Velha do Aeroporto (EVA), até a rua principal. Ela não reclamaria se no trajeto não encontrasse tantos percalços. “Está horrível. Tem dias, quando chove, que a gente fica isolado”, desabafa a dona-de-casa.
A rua em que dona Maria e outras dezenas de famílias moram está incluída no cronograma de obras do programa Morar Melhor, do governo federal, que visa ampliar a cobertura de serviços de saneamento básico e ambiental em localidades como essa.
Em junho de 2004, a Prefeitura de Salvador iniciou as obras em algumas áreas do loteamento, com recursos estimados em cerca de R$ 3,6 milhões, obtidos por meio do Ministério das Cidades e Caixa Econômica Federal. Em 2006, as obras foram suspensas, tendo executado apenas 53,74% delas. Desde então, o local permanece na situação apresentada por Maria.
CAIXA – De acordo com a Caixa Econômica, até 2006, foi repassado cerca de R$ 1,836 milhão para a prefeitura. As obras tinham duração inicial prevista para 210 dias.
Para a liberação do restante da verba, a Caixa exige que a gestão municipal encaminhe documentos pendentes constando a conclusão da alteração das metas, medição que comprove a execução dos serviços, projetos dos equipamentos de lazer e da documentação do terreno correspondente ao parque infantil.
Procurado por A TARDE, o diretor de obras da Superintendência de Conservação e Obras Públicas (Sucop), Ricardo Gidi, informou que os documentos solicitados pela Caixa já foram encaminhados, mas não soube precisar quando e disse que estava impossibilitado de fornecer mais detalhes devido à greve dos servidores municipais.
CAOS - “Não entendi nada dessas obras que eles começaram. Colocaram um passeio aqui e ali, tudo malfeito. Não fizeram na rua toda. Quebraram tudo, prejudicaram os moradores e, depois, deixaram desse jeito aí”, conta o segurança Leandro Aguiar, 25, apontando para as crateras, entulhos e esgoto a céu aberto na Rua do Retorno, onde mora, que mal permitem a passagem de veículos pelo local. “Tem dias que o caminhão do lixo fica sem passar aqui porque não tem condições. Se uma pessoa passa mal, a ambulância não tem como entrar [na rua]”, diz.
O caos que Leandro descreve é, segundo ele, consequência da desorganização e paralisação das obras. Os poucos passeios que começaram a ser feitos não permitem que os transeuntes caminhem sem precisar fazer uma maratona com obstáculos para sair de casa.
Assim como Aguiar, a sua vizinha, a dona-de-casa Maria do Carmo Reis, 45, uma das mais antigas do bairro, concorda que as intervenções, até agora, só trouxeram prejuízo à população. Ela explica que a rede de esgoto, instalada por conta dos próprios moradores, ficou completamente destruída, deixando o esgoto escorrendo pela rua. “Ficou pior do que já estava”, avalia.
Além das dificuldades de locomoção causadas pelos percalços, Maria cita ainda outros problemas: “Não dá para imaginar a quantidade de muriçocas, ratos e baratas que há por aqui por causa disso. Tivemos até surto de escorpião e precisamos chamar o Centro de Zoonoses”, diz.
IPTU – Mesmo quase sem infraestrutura pública e com saneamento básico precário, os moradores pagam valor que eles consideram bastante salgado de IPTU. Há dois anos, o valor do imposto cobrado à comerciante Maria José Santos, moradora da Rua Paulo Sérgio – no mesmo loteamento e que também está na lista das áreas beneficiadas pelo programa de obras –, aumentou em quase 150%. “Antigamente, eu pagava pouco mais de R$ 100. De dois anos para cá, o carnê veio cobrando quase R$ 500. Não é justo pagar um valor desse morando numa rua nesse estado”, reclama Maria José.
Mas não é só do asfalto e do saneamento básico que os moradores sentem falta no loteamento. “Aqui não tem nada. Não tem nenhuma escola, o único posto policial que tinha aqui, tiraram, não tem área de esporte e nem posto médico. Se uma pessoa passa mal, tem de ir lá para um hospital”, relata o comerciante José Esmeraldo Neto, 33, que reclama de morar há 20 no Vila Mar sem nunca ter presenciado a ação efetiva de um prefeito que pudesse atender aos anseios da comunidade.
Obras suspensas do programa Morar Melhor causam transtornos à população
28/06/2009, 04:04 - Brasil/Mundo
Por eduardocardeal
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