Não é fácil identificar, à primeira vista, uma vítima de somatização.

O transtorno, embora se apresente sob a forma de queixas clínicas variadas, raramente é identificado por sua natureza vinculada às emoções, portanto com forte componente psiquiátrico.

Não foi diferente com a paciente atendida por um dos profissionais ouvidos nesta reportagem, cujo caso é contado a seguir. Vera, 55 anos, viúva, dois filhos, comerciante, apresenta asma brônquica de difícil controle há 15 anos.

O problema começou dois dias após a morte do marido. Ela tem crises de palpitação, se queixa de dores pelo corpo (coluna, pernas, joelhos) que teriam começado há nove anos e também sofre de fraqueza nas pernas.

Conforme o relato clínico de Vera, ela é ansiosa desde jovem, com episódios de dor no peito, queimação nos braços e pescoço.

Tem medos (de sair de casa, de tomar metrô). Queixa-se de insônia, mas diz ter "pesadelos horríveis".

Sofre com dores de cabeça recorrentes há anos. Antes da asma teria desenvolvido rinite de fundo alérgico.

Esse é o fichário clínico de Vera, com o relato dos males físicos. Agora, entra o âmbito das emoções e seu impacto sobre a vida cotidiana. Ela conta que, na infância, assistia o pai espancar a sua mãe.

Quando ela tinha seis anos de idade, o irmão, então com 21 anos, tentou suicidar-se, ato seguido de várias internações psiquiátricas. Ela por vezes sentia-se "nervosa" e então quebrava objetos e se mordia. Tinha receio de aglomerações

Depois de casada, fez um aborto aos 25 anos e outro aos 27 anos. Um ano depois soube que o marido "tinha um caso com uma vizinha".

As relações sexuais passaram a ser desagradáveis, sem o menor indício de prazer. Ficou viúva aos 39 anos e avalia que seus sintomas pioraram desde então. Recebeu os diagnósticos de transtorno somatoforme e transtorno de ansiedade.

Participa do grupo de psicoterapia há dois anos e atualmente é medicada com um antidepressivo e um ansiolítico. Apresenta melhora dos sintomas somáticos, permitindo a gradual diminuição da medicação

O que é somatizar?

O conceito foi proposto inicialmente pelo médico austríaco Wilhelm Steckel em 1921, vinculado às teorias psicodinâmicas.

Somatização, atualmente, tem diversas conotações, dependendo em que contexto é usado, como explica José Atilio Bombana, psiquiatra, psicanalistaprofessor do curso de Psicossomática no Instituto Sedes Sapientiae.

"O ser humano é psicossomático por constituição, ou seja, há uma interação profunda entre fatores orgânicos e psíquicos e, portanto, em tese pode-se considerar toda doença psicossomática."

Porém o uso corrente na literatura médica defi- ne somatização como a tendência para vivenciar distúrbios e sintomas que não encontram explicação patológica em exames clínicos e laboratoriais.

Esses sintomas são atribuídos a doenças físicas e o somatizador, vamos chamá-lo assim, procura ajuda médica para tratá-las.

É o que Steckel batizou de "fala dos órgãos", sinais físicos com forte componente psíquico.

Na versão para o inglês, o termo alemão foi traduzido como somatization, palavra criada a partir do radical grego soma, corpo.

Somatização, segundo a psicóloga Marilda Novaes Lipp, uma das maiores autoridades brasileiras no assunto e diretora do Centro Psicológico de Controle do Stress, em São Paulo, é um termo genérico que significa a representação física de uma dor emocional.

Essa dor pode ser gerada por conflito, medo, dúvida, ciúmes, inveja, luto ou até mágoa, mas sempre com repercussões no corpo.

E transtorno somatoforme é o seu equivalente no Código Internacional de Doenças (CID 10).

Principais reclamações

Os dez problemas físicos mais relatados pelos somatizadores são: dor no peito, fadiga, tontura, dor de cabeça, inchaço, dor nas costas, falta de ar, insônia, dor abdominal e torpor.

Marilda explica que esse processo se inicia quando negamos à mente o direito de sentir e se expressar.

É quando a angústia "quebra" a resistência corpórea e aparece no órgão alvo. Órgão alvo ou órgão de choque, ela esclarece, é aquela parte de cada um que apresenta alguma vulnerabilidade, genética ou adquirida.

Assim, pessoas de famílias com histórico de hipertensão, quando estão passando por um conflito prolongado, um estresse intenso, podem vir a desenvolver problemas na área cardiovascular, enquanto indivíduos com passado familiar de câncer tendem a desenvolver um tumor sob forte pressão reprimida.

"Às vezes a vulnerabilidade não é hereditária, mas foi adquirida devido a um acidente, como no caso de uma pessoa que, anos após ter sofrido uma fratura, desenvolve dores no local quando está em situações de forte estresse", diz Marilda, que também é professora titular da PUC-Campinas.