A rigidez da legislação francesa sobre acidentes aéreos tem impedido a divulgação de dados sobre o que ocorreu com o voo 447 da Air France,
que desapareceu no Atlântico quando voava do Rio de Janeiro a Paris na
segunda-feira (1º). No entanto, informações da Air France e do BEA, o
órgão francês responsável pela investigação, dão alguns indícios do que
pode ter acontecido com a aeronave, e alguns detalhes são muito
semelhantes aos de dois incidentes ocorridos em 2008 com voos da
Qantas, uma companhia aérea da Austrália.
No
incidente de 7 de outubro, o avião, um Airbus 330 – semelhante ao da
Air France – voava de Cingapura para Perth, na Austrália. Quando estava
no meio do caminho, a aeronave sofreu, à revelia do piloto, duas quedas
bruscas – pequenas, mas violentas o suficiente para ferir 103 das 303
pessoas que estavam no voo, 12 delas gravemente. O piloto, que voava de
dia e com tempo bom, conseguiu, nas duas oportunidades, reverter as
quedas, e acabou pousando na base aérea de Learmonth por temer novos
problemas.
Por enquanto, poucos dados sobre a
sequência de fatos que ocorreu com o avião da Air France foram
divulgados. Ainda assim, quando essas informações são comparadas com o
histórico do voo da Qantas, as semelhanças chamam a atenção.
Nos dois voos, os problemas começam com o desligamento do piloto
automático, que no caso da Qantas ocorreu comprovadamente de forma
involuntária. Na quarta-feira (3), em reportagem publicada por ÉPOCA
online, o diretor-técnico do Sindicato Nacional das Empresas
Aeroviárias (Snea), Ronaldo Jenkins, afirmou que o desligamento pode ser “feito pelo comandante; por algum problema no sistema, ou por uma falha no sistema elétrico”.
O que se seguiu ao desligamento do piloto automático no caso do avião
da Air France foram dois minutos (entre 2h11 e 2h13 pelo horário de
Greenwich) de falhas e mensagens de erro contínuas provenientes das
ADIRUs, as centrais inerciais que reúnem uma série de informações
coletadas pelos sensores do avião, como pressão, velocidade e
temperatura. De acordo com o relatório preliminar do Australian
Transport Safety Bureau (ATSB), o órgão de investigação de acidentes
aéreos da Austrália, a mesma coisa ocorreu com o Airbus da Qantas.
Apenas dois minutos depois da primeira mensagem de falha, o avião
registrou uma série de avisos de erros, o desligamento do segundo
piloto automático (que havia sido ligado pelo piloto), e a primeira das
quedas. Nesse meio tempo, houve inclusive uma mensagem de “overspeed”,
que significa que a aeronave estava acima da velocidade adequada. Nesta
quinta-feira (4), o jornal francês Le Monde publicou uma
informação passada por uma fonte do Bureau Enquêtes-Accidents (BEA), o
órgão francês que investiga o acidente, de que o Airbus da Air France
voava em uma velocidade errada. Não se sabe, no entanto, se a
velocidade estava acima ou abaixo da recomendada.
O tipo de informação incorreta mais relevante, no entanto, é sobre o
ângulo de ataque – o ângulo da asa em relação ao ar que se aproxima. O
relatório da ATSB é claro ao afirmar que existe uma situação muito
específica na qual informações erradas sobre o ângulo de ataque podem
“gerar um indesejável comando” para que o nariz do Airbus aponte para
baixo e inicie uma queda, sem que o piloto a controle. Segundo o
relatório, a própria Airbus identificou essa situação, mas não
conseguiu confirmar se foi o que realmente ocorreu no voo da Qantas.
Para que essa situação ocorra, é preciso que os erros tenham amplitudes
grandes e durações pequenas, que o primeiro tenha menos de um segundo e
que o segundo ocorra 1.2 segundo após a detecção do primeiro erro.
Hans Weber, chefe da consultoria em aviação Tecop, sediada em San
Diego, nos Estados Unidos, foi o primeiro a notar, em entrevista ao
jornal The New York Times, a possível semelhança entre o incidente com a Qantas e o desaparecimento do voo da Air France.
“O avião enfrentou turbulência, mas é improvável que apenas esse fator
tenha causado a queda”, disse Weber a ÉPOCA. “Assim, lembrei do
ocorrido na Austrália. Lá, com tempo bom, os pilotos retomaram o
controle das aeronaves, mas será que teriam conseguido isso enfrentando
uma turbulência severa?”, diz.
Weber explica que,
quando erros como esses do ângulo de ataque surgem, o computador
primário de controle de voo (PRIM 1) isola o ADIRU com defeito e passa
a levar em consideração as informações das outras duas centrais
inerciais, que executam as mesmas tarefas da primeira e podem
substituí-la. No Airbus da Qantas, segundo o relatório da agência
australiana que investiga o incidente, apenas uma das centrais teve
defeito. No caso da Air France, como revelado nesta quinta-feira (4)
por uma emissora de televisão da França, dois ADIRUs pararam de funcionar.
Nos dois casos, o computador principal (PRIM 1) da aeronave falhou após
as mensagens com erros. No caso do Qantas, ele foi substituído
automaticamente pelo segundo computador principal (PRIM 2). No voo da
Air France, após a sequência de mensagens erradas, o computador
primário principal (PRIM 1) e o computador secundário principal (SEC 1)
falharam, como mostrou a mesma reportagem da televisão francesa. “O que
preocupa não é a falha dos ADIRUs, mas sim a incapacidade do computador
de controle de voo de reagir de forma apropriada a isso”, diz Weber.
Weber lembra que os aviões da Airbus funcionam com um sistema de
“envelope de segurança”, que evita movimentos excessivos que possam
prejudicar o avião ou colocá-lo em risco. Há um software de controle de
voo que impede o avião de aceitar comandos fora desse “envelope”. “O
software não executa completamente certos comandos do piloto se eles
forem colocar o avião fora do envelope”, diz Weber.
Procurada pela reportagem, a Airbus preferiu não comentar o
assunto. A empresa informou que só vai se pronunciar quando houver
informações mais precisas sobre o que ocorreu com o Airbus.
Ainda que as semelhanças entre os dois episódios existam, sem a
caixa-preta do Airbus da Air France não é possível confirmar que se
tratam de casos iguais. “Só o registro do voo vai confirmar a ordem
dessas mensagens, já que as falhas podem estar apenas retratando os
sintomas da queda, e não suas causas”, diz Weber.
Pane de Airbus na Austrália foi parecida
06/06/2009, 05:24 - Brasil/Mundo
Por master
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