Há três semanas, a captura do foragido Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman, foi um duro golpe contra o crime organizado. Ex-policial militar, Batman é um dos chefes dos grupos de criminosos que atuam na zona oeste do Rio de Janeiro e havia fugido da penitenciária Bangu 8 – supostamente de segurança máxima – em outubro de 2008.

Saiu caminhando pela porta da frente. Ele chegou a gravar e veicular pela internet, no site Youtube, uma série de entrevistas onde jurava inocência. Hoje, está na Penitenciária Federal de Campo Grande, onde são mantidas outras lideranças do crime organizado.

Apontado pela polícia como inimigo número um – o Disque-Denúncia oferecia R$ 100 mil por informações que levassem à sua prisão –, Batman é um ícone da atual ameaça à segurança no Rio de Janeiro: as milícias, organizações formadas primordialmente por policiais e bombeiros militares, além de guardas penitenciários – ativos ou aposentados –, que prometem, em troca de uma taxa mensal, a segurança que as forças públicas não oferecem, e que dominam as comunidades e constroem verdadeiros impérios econômicos.

Em dezembro de 2008, o relatório de uma comissão parlamentar de inquérito da assembleia legislativa fluminense verificou a ação das milícias em mais de 170 bairros e favelas (veja mapa nesta página), pediu o indiciamento de mais de 200 pessoas e constatou forte infiltração dos grupos na política, com a eleição de deputados e vereadores assegurada nos "currais eleitorais". Mais ainda, comprovou o impressionante patrimônio amealhado por seus líderes.

– Os milicianos, além de imporem o seu serviço aos moradores amedrontados, acrescentam exigências, como a compra de mercadorias mais caras, de sinal ilegal de TV a cabo, o pagamento de taxas por cooperativas de transporte alternativo que circulam em seu território, de altos percentuais para a compra, venda e aluguel de imóveis – conta Alba Zaluar, professora de Antropologia da Uerj, coordenadora do Núcleo de Pesquisa das Violências do Instituto de Medicina Social.

Fenômeno surgido nos anos 70, foi tema de matéria do New York Times

Na semana passada, a Comissão de Direitos Humanos do Senado buscou soluções para combater as milícias. Além de uma ação mais enérgica do Estado nas comunidades pobres, ficou claro que os partidos políticos devem negar legendas aos representantes desses criminosos. Já o Congresso pode elaborar leis que reprimam essas organizações.

Grupos de extermínio que ofereciam proteção já existiam desde os anos 1970 na zona oeste do Rio. Em Rio das Pedras, migrantes nordestinos que financiaram grupos de proteção para evitar a entrada dos traficantes acabaram reféns dos que ofereceram segurança privada. Em duas décadas, a expansão foi exponencial.

Em junho de 2008, o tema chegou às páginas do The New York Times. A reportagem "Milícias substituem gangues como reis do crime no Rio" narrou o episódio em que uma equipe do jornal O Dia foi sequestrada e torturada na favela do Batan, em Realengo, quando apurava a ação desses grupos nas favelas.

"As milícias preencheram um vácuo de autoridade prometendo aos moradores segurança em troca de pagamentos", diagnosticou o jornal norte-americano, que registrou ainda que muitas milícias ganharam a simpatia da comunidade por expulsarem os traficantes.

Para o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que presidiu a CPI das Milícias, a prisão de Batman foi importante, mas não basta. Para ele, é essencial cortar as fontes de lucro das milícias e que o estado garanta transporte e serviços de qualidade, como a venda de gás.

– O rendimento desses milicianos é incompatível com os seus bens e seria fácil pegá-los dessa forma – afirmou Freixo.