"A má gestão é um acontecimento recorrente no Judiciário, má gestão no
sentido de má aplicação das verbas públicas, de concentração de cargos
de confiança em demasia, principalmente localizados nos tribunais",
declarou ontem o ministro Gilson Dipp, corregedor nacional da Justiça.
Reclamações
chegam diariamente ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), criado pela
emenda 45, de 2004, com atribuição constitucional de fiscalizar os
tribunais de todo o País.
Denúncias resultam em inspeções do
conselho. Segundo Dipp, a investigação tem apontado "ocorrências
graves, condutas irregulares que podem ter um cunho até de desvios de
conduta, como corrupção".
O corregedor afirmou que o CNJ "está passando a Justiça a limpo".
Em
São Paulo, onde participou de evento na sede do Tribunal de Justiça do
Estado, maior corte do País com 360 desembargadores, ele apontou
crescimento de 5.000% do volume de demandas sob responsabilidade do CNJ.
Dipp
falou sobre mazelas do poder ainda no salão do antigo 1º Tribunal do
Júri da capital, hoje reservado para cerimônias da corte paulista.
Citou constatações recentes de irregularidades nos tribunais do
Maranhão e do Piauí.
A seu lado estava o desembargador Nélson
Calandra, presidente da Associação Paulista dos Magistrados. Já se
havia retirado do ambiente Roberto Vallim Bellocchi, presidente do TJ
paulista - alvo de reclamação disciplinar por supostamente se negar a
prestar informações ao CNJ sobre o auxílio-voto, benefício pago a
magistrados paulistas. Bellocchi não falou sobre o caso.
O que são ocorrências graves a que o sr. se refere?
São
processos administrativos disciplinares que dizem respeito a condutas
irregulares que podem ter um cunho até de desvios de conduta, como
corrupção, como nepotismo, o nepotismo cruzado. Pode haver vencimentos
acima do teto, são as mais variadas.
Que reclamações chegam ao CNJ?
Reclamações
de aspectos variados, reclamações disciplinares, de controle
administrativo e outras tantas que não têm nenhuma pertinência. Temos
feito inspeções localizadas, abrimos inúmeras sindicâncias e processos
administrativos disciplinares graves. Não aqui em São Paulo. Enfim,
estamos passando a Justiça a limpo e é isso que o CNJ tem que fazer. É
órgão de estrutura constitucional, tem que cumprir sua missão com
serenidade, eficácia, isenção.
Há resistência dos tribunais?
Precisamos
da colaboração dos tribunais. O CNJ, por si só, não vai resolver
problemas de gestão, problemas administrativos e problemas que dizem
respeito à eficácia e à presteza das decisões judiciais. Isso cabe aos
Tribunais de Justiça, aos Tribunais Regionais Federais, aos tribunais
do trabalho, aos tribunais militares. Que seus presidentes e
corregedores dialoguem.
Há oposição do TJ paulista?
Pelo
comentário de conselheiros desta gestão e de gestões anteriores há uma
certa resistência em relação à atividade administrativa do CNJ.
Parece-me que esse paradigma está sendo quebrado porque agora houve um
início de diálogo entre o tribunal e o conselho. Há males que vêm para
o bem. Um processo de controle administrativo, como o que temos hoje
com relação ao TJ de São Paulo, pode, por vias transversas, reabrir um
diálogo que estava um pouco enfraquecido. O Brasil está reconhecendo a
necessidade de um controle efetivo da magistratura. A demanda do CNJ
cresceu quase 5.000% no último ano. O CNJ não pode valer apenas para o
Nordeste ou para o Norte, tem que valer para todo o Brasil, inclusive
São Paulo.
O que é que mais o preocupa?
A má
gestão é um acontecimento recorrente, má aplicação das verbas públicas,
de concentração de cargos de confiança em demasia, deixando as varas de
primeiro grau, principalmente as do interior, completamente
desaparelhadas, sem funcionários sem informática e dependendo da boa
vontade dos municípios e das prefeituras que cedem espaços físicos e
servidores. Muitas vezes esses juízes que estão dependendo do apoio da
prefeitura têm sob sua responsabilidade ações de improbidade contra o
próprio prefeito.
'Há corrupção na Justiça'
06/06/2009, 15:17 - Brasil/Mundo
Por teresa
Comentários
Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.
Carregando comentários..