O diretor do Escritório de Investigações e Análises para a Segurança da Aviação Civil (BEA, na sigla em francês), Paul-Louis Arslanian, disse nesta quarta-feira no aeroporto de Bourget, na periferia de Paris, que cogita a hipótese de nunca encontrar uma conclusão suficiente para elucidar o acidente com o Airbus A330-220 da Air France, que fazia o vôo Rio de Janeiro-Paris e sumiu no oceano Atlântico na madrugada da última segunda-feira.

"Não posso excluir a hipótese de, ao final, chegarmos a conclusões pouco suficientes", disse o diretor, ressaltando que o instituto não vai desistir enquanto não houver ao menos 80% de certezas sobre as causas da tragédia, mesmo que as investigações sejam mais longas do que o esperado. O BEA, sediado na capital francesa, é o órgão oficialmente responsável pelas investigações do acidente, uma vez que a aeronave era francesa.

"Este acidente, o pior que o nosso país já conheceu, ocorreu em uma zona extremamente difícil, no que podemos comparar a uma região montanhosa sob as águas. É preciso nos prepararmos para a hipótese de nunca encontrarmos a caixas-pretas e termos de chegar às respostas que queremos sem o auxílio delas", afirmou Arslanian.

Contudo, Arslanian afirmou o caso também pode ser esclarecido sem as caixas-pretas. ¿Já tivemos muitos casos, na história da aviação, de acidentes em que as caixas-pretas não foram encontradas e é perfeitamente possível de trabalharmos sem elas. Muitas vezes, o estado em que elas se encontram nem permite de fornecer informações, ou então as informações contidas não são relevantes", explicou.

"Nada leva a crer que o aparelho tinha algum problema ao decolar", sustentou. Sobre a possibilidade de e aeronave não ter passado da altura dos 35 mil pés aos 37 mil pés na altura do ponto de Intol, como supostamente deveria ter feito e de acordo com especulações publicadas na imprensa brasileira, o especialista apenas disse que "estamos verificando todas as alternativas". No entanto, logo em seguida o diretor afirmou que "o essencial de tudo o que se tem dito é provavelmente verdadeiro", ao mesmo tempo em que reiterou que as investigações apenas começaram e que é muito cedo para se apresentar quaisquer conclusões.

"Peço que parem a dar ouvidos a especuladores de todo o tipo. Deixem os verdadeiros experts trabalharem a partir de agora e aguardem as conclusões", solicitou Arslanian.

O chefe das investigações, Alain Bouillard - o mesmo que coordenou os trabalhos de elucidação do acidente com um avião Concorde da Air France, ocorrido em Paris, em 2000 - estava presente na entrevista, mas se conteve a explicar como os trabalhos serão desenvolvidos. A equipe se dividiu em quatro grupos: pesquisas no mar, estudos sobre o histórico do avião, investigações sobre a exploração da aeronave e análise dos sistemas e equipamentos. Dois especialistas da BEA já estão no Brasil para colher informações. No total, serão 20 integrantes do BEA envolvidos, e mais cerca de 30 pessoas da Air France e da Airbus, a construtora do aparelho.

O acidente
O Airbus A330 saiu do Rio de Janeiro no domingo (31), às 19h (horário de Brasília), e deveria chegar ao aeroporto Roissy - Charles de Gaulle de Paris no dia 1º às 11h10 locais (6h10 de Brasília).

De acordo com nota divulgada pela FAB, às 22h33 (horário de Brasília) o vôo fez o último contato via rádio com o Centro de Controle de Área Atlântico (Cindacta III). O comandante informou que, às 23h20, ingressaria no espaço aéreo de Dakar, no Senegal.

Às 22h48 (horário de Brasília) a aeronave saiu da cobertura radar do Cindacta, segundo a FAB. Antes disso, no entanto, a aeronave voava normalmente a 35 mil pés (11 km) de altitude.

A Air France informou que o Airbus entrou em uma zona de tempestade às 2h GMT (23h de Brasília) e enviou uma mensagem automática de falha no circuito elétrico às 2h14 GMT (23h14 de Brasília). A equipe de resgate da FAB foi acionada às 2h30 (horário de Brasília).