Poucos cariocas sabem, mas uma ex-socialite intelectual, filha do historiador Capistrano de Abreu e amiga do poeta Manuel Bandeira, ‘aguarda’ decisão do Vaticano para ser consagrada a primeira santa católica nascida na cidade do Rio. A canonização depende da confirmação de milagres atribuídos a Honorina de Abreu, a Madre Maria José de Jesus, jovem que trocou uma vida de luxo, festas e badalações para se dedicar à pobreza, à clausura e à oração. O DIA entra na campanha para descobrir graças concedidas pela Irmã Maria José e conta com a ajuda dos leitores para o Rio conseguir essa graça — e para o Brasil louvar seu segundo santo nato, além de Frei Galvão.
A via-crúcis da carmelita é grande. Os postuladores trabalham para comprovar milagres. O mais provável é o de Carolina Colasanti, que, em 1992, aos 11 anos, foi sugada pela bomba de filtragem da piscina de um clube na Zona Sul. Ela ficou quase 10 minutos submersa e passou quatro dias
Relatos que integram as 14 mil páginas do processo no Vaticano atestam que, por prece da avó da menina, Maria Cristina Pontual, hoje com 96 anos, Carolina acordou sem sequelas no dia do aniversário de morte da possível futura santa. “Minha sogra tem certeza de que entregou a neta para Madre Maria José e foi atendida”, conta Henrique Colasanti, pai de Carolina.
Honorina nasceu em 1882 na Glória. Foi numa festa da alta sociedade de Petrópolis, em 1902, que ela do nada resolveu servir a Deus. Agnóstico, Capistrano de Abreu ficou contrariado, já que fazia planos de mandar a primogênita estudar em Londres. “Procurar uma filha e encontrar uma freira é decepção que não me animo a afrontar”, escreveu o historiador para a amiga Cecília Assis Brasil. Madre Maria José, que perdeu a mãe aos 9 anos, não se abalou com a resistência. Enquanto se preparava para entrar no convento, cuidava de religiosas e prostitutas doentes
Sob o silêncio da clausura, as madres do Convento de Santa Teresa guardam com cuidado objetos que foram da Irmã Maria José. Fiéis podem ver, numa cela, o hábito, as sandálias e o Caderno de Consciência, seu ‘diário’. Os restos mortais da madre, que faleceu em 1959, também estão guardados no convento, que realiza missa aberta aos domingos, às 8h.
Além do caso da menina Carolina, Dante Gallian recebeu carta de um jovem de Minas Gerais relatando ser soropositivo. Após pedir a intervenção da Irmã Maria José de Jesus, o rapaz se disse livre do vírus da Aids. O documento foi entregue ao Carmelo de Santa Teresa, para onde mais de quatro mil cartas foram enviadas em agradecimento a graças da freira. Segundo a irmã Verônica do Coração de Maria, entre essas cartas está a de uma judia praticante, moradora de Tel Aviv, que afirma ter sido atendida por Madre Maria José.