Seduzidos pela promessa de incentivos por parte do governo do Estado, municípios gaúchos baixam a guarda e abrem as portas para a instalação de novos presídios em seus territórios. De olho nas compensações oferecidas, que vão do aumento do contingente policial à construção de quadras poliesportivas, alguns prefeitos chegaram a se reunir com assessores nos últimos dias para elaborar listas de reivindicações.

Com a promessa de recompensa, a governadora Yeda Crusius parece ter sensibilizado prefeituras para a importância de suprir o déficit de vagas de presos no Rio Grande do Sul. Pelo menos dois prefeitos já avisaram que vão correr atrás das vantagens – Ary Vanazzi, de São Leopoldo, e Henrique Tavares, de Guaíba. Outros já ofereciam seu território antes mesmo da proposta de benefícios do governo Estado.

O prefeito Vanazzi aposta na recomposição do efetivo policial:

– Somos conscientes da necessidade de um novo presídio no Vale do Sinos e por isso sempre fomos a favor da construção de uma prisão aqui. Se o Estado está oferecendo vantagens extras, porq ue não aproveitarmos?

O discurso de Vanazzi é semelhante ao do prefeito de Guaíba, cotado para receber duas prisões. Surpreendido pela notícia antecipada por Zero Hora na quinta-feira, Tavares espera que o incentivo oferecido pelo Executivo possa ser convertido em quadras de esportes para a população.

O balcão de negócios aberto pelo governo seduziu autoridades de cidades que até então não estavam cotadas para receber prisões. Entre elas, o prefeito Venâncio Aires, Airton Artus, um dos primeiros a se mostrarem favoráveis à iniciativa do Estado.

– Como o município já abriga o Instituto Penal de Mariante, acredito que nossa comunidade esteja mais madura para o debate – avalia Artus, que propõe a construção de uma penitenciária estadual onde hoje funciona a colônia agrícola.

Em Camaquã, município de 60 mil habitantes, a luta para erguer mais uma cadeia já havia começado mesmo antes do anúncio do governo. Em novembro passado, uma comitiva liderada por membros do Judiciário e do Ministério Público procurou o prefeito da cidade, Ernesto Molon, em busca de apoio para a causa.

– Havia uma preocupação muito grande em relação às condições precárias do nosso presídio, que tem mais de 50 anos, é pequeno e não suporta a demanda. Chegamos à conclusão de que a única saída seria construir mais uma prisão – relembra o prefeito.

Presidente da Famurs diz que novas cidades irão se oferecer

Molon participou de uma reunião na Secretaria da Segurança Pública (SSP), no último dia 27. A visita teve a intenção de reforçar o posicionamento da prefeitura, interessada em receber as verbas para o setor. O prefeito se comprometeu em conseguir um terreno. Desde o início, porém, disse ter pedido o reforço do policiamento como contrapartida.

Até o prefeito de Alvorada, João Carlos Brum, admitiu a possibilidade de negociar com o governo em troca de benefícios ao município. No início da semana, ao saber da intenção do secretário da Segurança Pública, Edson Goularte, de instalar uma cadeia na cidade, ele se mostrou contrário à ideia e prometeu uma guerra de licenças e ações judiciais para barrar a tentativa.

– Nossa área territorial é muito pequena e continuamos dando prioridade a indústrias, mas, dependendo do caso, se for algo realmente positivo para o município, não se descarta negociar – pondera Brum.

Para o presidente da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), Elir Girardi, basta que a promessa vire um programa oficial de incentivos para que outros municípios se ofereçam.