Se, para os homens, a escolha de parceiras mais jovens é vista por muitos como um sinônimo de virilidade, as mulheres que hoje seguem pelo mesmo caminho ainda carregam uma bagagem extra: o preconceito.
Famosas como Madonna, Susana Vieira, Elza Soares e Demi Moore - que namoram e se casam com homens até 40 anos mais novos – são, em geral, as primeiras a dizer que paixão não tem idade. Fora das páginas de revistas e sites de fofoca, no entanto, especialistas contam que muitas ainda hesitam em assumir esse tipo de relacionamento.
“Já atendi mulheres que ficaram com medo de assumir o relacionamento. Uma mulher de 40 anos com um homem de 30 tinha vergonha de contar para os filhos. Os artistas são os primeiros, eles vão na frente. É importante que eles tenham coragem de fazer isso porque abre caminho para muita gente”, explica a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, que tem uma teoria para o fato de a sociedade a torcer o nariz quando a juventude masculina e a maturidade feminina se unem.
“Há milênios, o homem tinha que se casar com mulheres muito mais novas porque queria ter muitos filhos para mão de obra. Há uma mentalidade patriarcal, que está entre a gente há cinco mil anos. O mundo mudou, mas o problema é que as pessoas ainda repetem essa mentalidade”.
Para a antropóloga Mirian Goldemberg, autora de “Coroas - Corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade” (Editora Record), muitas não assumem o relacionamento com homens mais jovens por insegurança e medo de se sentirem rejeitadas.
“É uma fase em que as mulheres têm uma crise, em função da decadência do corpo, da dificuldade de encontrar um parceiro, não se permitem olhar para alguém mais novo ou inferior. Elas não conseguem enfrentar os próprios preconceitos”, conta.
Prova disso foi uma enquete feita pelo G1 nas ruas do Centro do Rio: as mulheres foram as que mais reprovaram o relacionamento das mais velhas com homens mais jovens (veja no vídeo acima), citando desde o medo de ser traída à dificuldade de o namoro dar certo, com o passar do tempo.
Hebe já deu declaração polêmica
Em 2007, a apresentadora Hebe Camargo causou polêmica ao dizer em seu programa, às vésperas do casamento de Ana Maria Braga com Marcelo Frisoni, 21 anos mais novo, que “menininho que namora velhinha está interessado no dinheirinho da velhinha”. Hebe depois se desculpou, afirmou que o comentário nada tinha a ver com o relacionamento da amiga, mas a frase acabou traduzindo o pensamento daqueles que, mesmo que veladamente, não apostam suas fichas nesse tipo de relacionamento.
Foto: Montagem com fotos de Nelson Almeida/G1 e Divulgação 40 Graus Models Madonna e Jesus Luz: diferença de 30 anos (Foto: Montagem com fotos de Nelson Almeida/G1 e Divulgação 40 Graus Models)“O que surpreende as pessoas é o fato de o homem que poderia escolher entre qualquer mulher fazer sua escolha por uma mulher mais velha. Surpreende porque foge dos padrões”, explica o psicanalista Alberto Goldin, que não acredita na possibilidade dessas uniões darem certo com o passar dos anos. “Acho que não. Tende a ficar mais difícil com o passar do tempo”.
Goldin, no entanto, refuta a tese de muitos de que, nesses casos, há mais interesse do que amor. Ele cita o modelo Jesus Luz, de 20 anos, que ganhou fama após se tornar o affair da popstar Madonna, 50 anos, em sua passagem pelo Rio.
“Esse camarada que ficou com a Madonna até amava ela. São mulheres poderosas e isso é um fator essencial. Ama a riqueza, ama a fama”, diz o psicanalista.
Para a escritora Martha Medeiros - autora entre outros títulos de “Divã”, sobre uma mulher com mais de 40 anos, casada, com filhos, que resolve fazer análise - todas as relações envolvem um certo interesse.
“Um casal que tenha a mesma idade tem ‘interesse’ em ter filhos, por exemplo. O que deve ser levado em conta nem é tanto a diferença de idade, e sim a diferença de necessidade: se um cara está se relacionando com uma mulher 20 ou 30 anos mais velha, não pode querer que ela lhe dê filhos, por exemplo. E essa mulher não pode querer que ele seja muito experiente ou lhe proporcione um alto padrão de vida. Podem se amar muito, mas não há mais espaço para ilusões”, explica Martha.
“Esses parceiros que são bem mais jovens recebem em troca experiência, vivência, conhecimento, e se acaso receberem junto um padrão de vida mais elevado, tudo bem. Volto a dizer: não acredito que uma mulher de 60 com um garoto de 30 anos possa acusá-lo: ‘Ele se aproveitou de mim’. Que inocência é essa? Todo mundo aproveita a situação a seu modo, e isso não precisa ser lavrado em cartório, é um pacto silencioso”.
“Dizem por aí que este é o verdadeiro segredo para se manter jovem”, diz a descrição da comunidade.
Seja para se sentir mais jovem ou não, cada vez mais mulheres vêm tentando descobrir esse segredo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, de 1996 a 2006, as uniões de mulheres mais velhas com homens mais novos passaram de 5,6 milhões para 7,6 milhões, o que representa um crescimento de 36%.
No entanto, essa diferença de idade é, na sua maioria, inferior a cinco anos (64,7%). Já o percentual de famílias em que a mulher tem dez anos ou mais que os homens passou de 10,4% para 12,1% entre 1996 e 2006.
No mesmo período, curiosamente, cresceram menos (25,3%) as uniões de homens mais velhos que as mulheres.