Raízes da África

Eu que já não tinha nada- diz uma senhora em lágrimas - perdi tudo.

O município de Viçosa fica localizado a 86 quilômetros da capital do estado de Alagoas, Maceió, as margens do Rio Paraíba e faz parte da região serrana dos quilombos, na zona da mata alagoana. Em Viçosa Zumbi morreu.
Viçosa, atualmente possui duas comunidades de remanescentes de quilombo. São elas Sabalangá e Gurgumba que foram auto-identificadas em 17 de novembro de 2009, pela Fundação Cultural Palmares/Ministério da Cultura.
Ser remanescente é ser bem mais do que um lugar. É a soma das possibilidades étnico-sociais que agregam pessoas em torno do pertencimento histórico, reproduzindo a continuidade da história atemporal. É um lugar de transição das correntes fustigando pés para a liberdade explodindo no tracejar dos passos.
A auto-identificação de Sabalangá e Gurgumba demarcou, simbolicamente, os terrenos existenciais para os quilombolas viçosenses, é o registro é a “prova” da existência, da quebra de isolamento histórico.
Nos últimos dias as águas caídas, na terra das lagoas, que deveriam molhar de esperança a secura do solo/seca nordestina afogaram com voracidade os espaços de vivência de milhares de pessoas, isolando-as de seus territórios de construção emocional/material.
Eu que já não tinha nada- diz uma senhora em lágrimas - perdi tudo. Numa controvérsia de sentimentos.
As pontes que dão acesso as Comunidades de Sabalangá e Gurgumba caíram. Os quilombos estão isolados. O prefeito de Viçosa, Flaubert Filho, diz: “Sozinho eu não tenho como recuperar a cidade. Preciso de ajuda do governo Estadual e Federal. A burocracia do governo federal impossibilita atender a demanda de desabrigados. Acumulei desabrigados do ano passado, que continuam no Estádio Teotônio Vilela. Entreguei 63 casas ano passado, mas foram construídas com recursos próprios. Em um ano e meio de gestão eu já presenciei duas enchentes em meio a uma crise financeira. Não é fácil”, afirmou.
A prefeita da cidade de Branquinha chora ao falar da cidade que-um dia estava lá e hoje, simplesmente desapareceu. Branquinha acabou!
Localizada na microrregião da Mata Alagoana, a 55 km da capital alagoana, Branquinha tem um histórico de enchentes e reconstrução. A cidade já foi destruída e reconstruída algumas vezes. A primeira grande enchente aconteceu em 1949 quando o rio Mundaú inundou parcialmente a prefeitura e inúmeros documentos e informações sobre a história da cidade foram destruídos.
Milhares de pessoas das cidades como Branquinha, Quebrangulo,Atalaia, Santana do Mundaú, Joaquim Gomes, São José da Laje, União dos Palmares, São Luiz do Quitunde, Matriz do Camaragibe, Jundiá, Jacuípe, Paulo Jacinto, Capela, Cajueiro, Viçosa, Rio Largo e Murici estão agasalhadas sobre o guarda-chuva da ajuda comunitária.
É hora sim, para sermos solidário-solidárias. Creio que cada um/cada uma de nós pode contribuir, com alimentos não perecíveis, água potável, roupas, medicamentos, cobertores, material de higiene pessoal, doações de caráter emergencial, para mitigar o sofrimento de milhares de pessoas.
Se 50% dos 192.304.735 habitantes do Brasil depositar um real R$ 1,00, nas contas da Caixa Econômica Federal: Agência: 2735 /Operação: 006/ nº da conta : 955-6/Nome: Corpo de Bombeiros Militar; Banco do Brasil: Banco do Brasil - C/C 5241-8 / Agência 3557-2 , já teremos uma ajuda considerável.
A vida nas cidades alagoanas segue em estado de emergência e pede socorro.
Socorra!

 

SOS-Alagoas-Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente,

 

Prezados (a)


Devido a calamidade que se encontra em nosso Estado por consequencia das fortes chuvas e do grade numero de desabrigados, o Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, a Sociedade Alagoana de Pediatria, o Forum dos Conselhos Tutelares, a Pastoral da Criança, o Pacto do Semiárido e demais parceiros convidam a todos para unirmos forças em prol das vitimas desta tragédia.

Confira os endereços dos locais para onde devem ser encaminhadas as doações:

 

- 1º Grupamento de Bombeiros Militar (1º GBM) – Rodovia 316, Km 14, Tabuleiro dos Martins, próximo a PRF, 3315-2900 / 3315-2905.

 

- Grupamento de Socorros de Emergência (GSE) – Conjunto Senador Rui Palmeira, S/N, 3315-2400.

 

- Subgrupamento Independente Ambiental (SGIA) – Av. Dr. Antônio Gouveia, S/A, Pajuçara, próximo ao Iate Clube Pajuçara, 3315-9852.

 

- Quartel do Comando Geral (QCG) – Av. Siqueira Campos, S/N, Trapiche da Barra, 3315-2830.

 

- Defesa Civil Estadual (CEDEC) - Rua Lanevere Machado n.º 80, Trapiche da Barra, 3315-2822.

 

- Grupamento de Salvamento Aquático (GSA) – Av. Assis Chateaubriand, S/N, Pontal, próximo a Braskem, 3315-2845.

 

Interior:

- 2º Grupamento de Bombeiros Militar – Maragogi, (82) 3296-2026 begin_of_the_skype_highlighting (82) 3296-2026 end_of_the_skype_highlighting / 3296-2270.

- 6º Grupamento de Bombeiros Militar – Penedo, (82) 3551-7622 begin_of_the_skype_highlighting (82) 3551-7622 end_of_the_skype_highlighting / (82) 3551-5358 begin_of_the_skype_highlighting (82) 3551-5358 end_of_the_skype_highlighting.

- 7º Grupamento de Bombeiros Militar – Arapiraca e Palmeira dos Índios, (82) 3522-2377 begin_of_the_skype_highlighting (82) 3522-2377 end_of_the_skype_highlighting, (82) 34212695 begin_of_the_skype_highlighting (82) 34212695 end_of_the_skype_highlighting.

- 9° Grupamento de Bombeiros Militar – Santana do Ipanema e Delmiro Gouveia, (82) 3621-1491 begin_of_the_skype_highlighting (82) 3621-1491 end_of_the_skype_highlighting / (82) 3621-1223 begin_of_the_skype_highlighting (82) 3621-1223 end_of_the_skype_highlighting

 

Assessoria de comunicação de Rio Largo:

Trav. Antonio Maciel de Oliveira, n°122, apt. 503,

Ponta Verde, Ed. Pharaons

Naira – 91062713-9141-2181 – Rodrigo 9321-2726 – 9999-7171


Igreja de São Gonçalo, localizada no Mirante São Gonçalo, no bairro do Farol, mas que todas as paróquias estão de portas abertas para receber doações, os materiais arrecadados serão distribuídos para as vitimas das cidades atingidas

 

 

FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO ESTADO DE ALAGOAS
Rua Barão de Maceió, 212, Centro, Maceió/AL - Cep: 57020-360
Portal: www.feeal.org.br - Fone/Fax: 82 3223-8699

 

 

Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente - CEDCA

Rua Ladislau Neto, 367, Centro 57.020-010

Maceió-AL Fone/Fax: (82) 3315. 1739/1792 Cel. (82) 8883.7564

cedca_alagoas@hotmail.com www.conselhodacrianca.al.gov.br

20º aniversário do Estatuto da Criança e do Adolescente

 

 

 




A implementação da Lei Federal nº 10.639/03, em Alagoas deve ser política de estado.Pede continuidade...

Em  28 de setembro de 2007 , a professora da Universidade do Rio de Janeiro, "Stela Guedes Caputo, nos deu o seguinte depoimento:


"A importância dos encontros afro-alagoanos para a educação de uma maneira ampla é a primeira coisa a ser ressaltada. É difícil ver políticas públicas concretas para a formação continuada de professores e professoras. O empenho que a Secretaria de Estado da Educação e do Esporte, e, mais especificamente, da Gerência de Educação Étnico-Racial fazem deve receber especial destaque. O esforço é legítimo e produz resultados imensos. Pude ver e viver essa bela experiência no Encontro realizado no dia 28 de setembro de 2007. Neste dia, partilhei com cerca de 200 professores e professoras, a palestra "O sagrado no Cotidiano da População Afro-Descendente e a Lei 6.814/07", o dia foi rico e belo. Ver professores e professoras tão dedicados e tão empenhados em superar dificuldades e buscar coletivamente a discussão a respeito da diversidade foi algo realmente bom. O melhor: havia alunos e alunas nesse processo.
A diversidade está na escola e nos desafia todos os dias. Os alunos e alunas são muitos e são diversos. São de classes diferentes, de culturas diferentes, de religiões diferentes, de aparência diversa. Lidar com isso no cotidiano da sala de aula não é mesmo fácil e deve ser encarado como um desafio onde todos e todas podemos aprender sempre. Jogar a diversidade pra "debaixo do tapete", escondê-la a fim de mostrar uma harmonia e consenso dentro da escola não é, para mim, a melhor maneira de viver a escola.
Falei, no encontro, sobre crianças que praticam candomblé e de como estas são discriminadas na escola. Essa é a minha pesquisa há muitos anos. Tenho visto com muita angústia que a escola tenta de tudo para superar suas imensas dificuldades. Buscar a "salvação na religião" pode ser um caminho para muitos, mas um caminho a ser buscado nos templos, terreiros, casas, sinagogas de cada um, de cada família. O privado não é o público. Essa não é a saída para a escola, a escola de um Estado que se propõe laico, que se afirma laico. Por isso, na minha fala durante o encontro, afirmei e reafirmo que a Educação Religiosa nas escolas públicas reforça a discriminação que já havia, há muito dentro da própria escola. É o que penso e o que digo.
Acho que os encontros de Alagoas sim, com certeza, ajudam a pensar coletivamente inúmeras questões que atravessam a escola. A estadualização da Lei sobre a Ensino da História da África, ou seja, a implementação da Lei 6.814/07 é um exemplo que precisa ser seguido por todos os estados brasileiros. Não será, por certo, a solução para o fim da discriminação. Há muito a ser feito e coletivamente. A escola nunca pode nada sozinha. Mas, definitivamente, é um passo fundamental nessa caminhada por um País realmente sem discriminação racial.
Foi um prazer e uma honra estar em Alagoas no dia 28 de setembro de 2007.
 

É preciso valer a Lei nº 10.639/03!

Eram meninas e meninos. Pequenos. Revolucionários. Negros. Pacifistas. Meninos e meninas africanas influenciadas por Steve Biko, um dos grandes ativistas sul-africanos e fundador do movimento Consciência Negra.
Meninos e meninas que lutavam contra a imposição de uma língua “Afrikaans’ “Por que falar a língua de um povo que nos aprisionou?, e do apartheid no currículo escolar das escolas africanas.
Afinal, é o currículo escolar que traspõe para a cartografia da escola a didática do conhecimento como visão de mundo. Histórias e memórias. Memórias de gentes, participações, autonomia intelectual, limites e possibilidades...
Eram meninos e meninas como Martin Luther King Júnior e Nelson Mandela.
0s 20 mil pequenos intelectuais pacifistas de Soweto acreditavam nas possibilidades...
Meninos pacíficos ensaiando os passos da liberdade, redefinindo histórias mal alinhavadas de negros e África. Meninas determinadas na quebra do espelho secular do racismo na educação de Soweto. Precisavam de uma escola nova sem as manipulações e os esquematismos do poder.
Meninos que jogaram ao mundo suas cinzas secretas d!alma e a pintaram de liberdade. Eram meninos e meninas- estudantes de Soweto, com a consciência coletiva do eterno ciclo de dominação colonial. Saberes repassados de geração a geração.
Eram 20 mil entre tantos, pequenos meninos e meninas ativistas no massacre em 16 de junho de 1976 e dali nascia um herói Hector Pieterson de 12 anos. Morto em combate.
E Nelson Mandela, que viveu 20 anos aprisionado, criou na mesma data o Dia da Juventude Sul – Africana.
Mesmo após 34 anos, a imagem de Hector Pieterson, o pequeno ativista morto, ainda alimenta em todo povo de Soweto/África do sul o poder da liberdade como fronteira.
Outros meninos e meninas de outras histórias e outros tempos, diferentes, mas iguais a esses e a tantos e tantas na crença da liberdade, um dia foram expatriados do continente, fatiados em sua auto-estima, subjugados em sua ânsia de liberdade, submetidos ao massacre da escravidão nas terras de Cabral.
Nas terras colonizadas amargaram a quebra dos vínculos com a família e o continente. Sofreram à revelia estupros, abandono de incapaz, escravidão, infanticídio, abandono intelectual,etc,etc,etc. Mas um dia, o sentimento de resistência,foi sendo plantado nas almas grávidas de vida, reorganizaram o fim da “coisificação”, apreenderam novamente os passos do poder de ser pessoa.
A história da memória social da abolição foi construída pelas elites políticas e ressalta a extinção da servidão negra, pela princesa européia. Isabel assinou a lei, entretanto esqueceu de assinar a carteira de trabalho dos ex-escravizados. Mobilidade Ascendente. Cidadania. Direitos. Educação.
A história do escravismo brasileiro é um monólogo histórico recheado de supressão e hiatos sociais.
É preciso valer a Lei nº10.639/03, para que assim como em Soweto as novas gerações das escolas alagoanas tenham o direito de ao se apossarem, subsidiadas pelo poder estrutural do governo,da magnífica história de luta e resistência do povo do continente africano, e descendentes aquilombados em terras de Palmares.
Como o apartheid a omissão em relação à Lei Federal nº 10.639/03 é crime constitucional, portanto contra a humanidade.
É preciso valer a Lei nº 10.639/03!
O nosso sol da liberdade ainda está em construção. É hora de acordar Zumbi!
 

Como candidata negra Marina Silva deverá percorrer itinerários históricos...

Marina Silva se propõe a mexer com os pilares da hegemonia racial do segundo país mais negro do planeta, ao declarar-se a candidata negra a presidência da República Federativa do Brasil?
Talvez Marina Silva esteja neste palco étnico-político para dividir os silêncios construídos, dos quase 50% da população brasileira como uma espécie de tapume do apartheid: negro pode até “ assistir” a história como elemento coadjuvante ,mas, não participar dela. Recuperar hiatos entre cantos e becos da história para quem sabe gerar um diálogo frutífero de futuro?
Quando Marina Silva diz que quer ser eleita a primeira presidenta negra da República Federativa do Brasil deve ter conhecimento das interpretações interiorizadas que circundam o povo negro neste país.
Marina Silva sabe que a nossa propalada miscigenação étnica esconde a complexidade da sutileza do racismo, e, é um ponto de partida para criar diálogos longos e políticos com a matriz da sociedade que “ainda não é respeitada: os ditos diferentes.
Sabe também que o racismo tem a idade do tempo da razão humana, preconceitos que atravancam caminhos e dão lastro a intolerância.
Talvez Marina Silva esteja na cena política para reivindicar o repertório autoral do povo negro: Protagonismo!
Talvez Marina Silva proponha caminhos para discussões francas, abertas, despidas de estereótipos pessoais e partidários na elaboração de conteúdos que tragam de maneira coletiva vozes de quilombolas, religiosos afro, cotistas negros, sindicalistas negros, intelectuais, LGBT, e militantes do movimento negro em geral.
Quando Marina Silva se propõe ser eleita a primeira presidente negra do Brasil sua plataforma política pode tomar dois caminhos possíveis: ou ficar na superfície do discurso ou esquadrinhar e pôr na tela o rosto de muitos e muitas brasileiras negras que têm a legitima competência de romper com ostracismo sócio-étnico. Mobilidade e sustentabilidade além do discurso...
Quando Marina Silva se propõe a ser a legitima representante do povo negro na República do Brasil traz na fala a coragem de insubordinação étnica. Entretanto é preciso que essa “revolução” abarque e subsidie experiências referenciais de homens e mulheres. A Bahia é expert em traduzir legitimas candidaturas...
Mesmo tendo a negritude como condição étnica , Marina Silva terá, caso queira, tempo de alimentar a identidade de política negra ao longo da campanha, embrenhando-se na geografia do racismo que acomoda pessoas em espaços asfixiantes e limitados.
Como candidata negra Marina Silva deverá percorrer itinerários históricos que agregam valor a árida cartografia do povo negro e criar amplitude de sua atual plataforma de governo que se resume em “Lutar contra todas as formas de discriminação: étnica, racial, religiosa, homofobia, sexual e outras”. É preciso conjugar a experimentação com o  aprendizado das identidades historicamente subjugadas.
A convite do vereador Sílvio Camelo fizemos parte da mesa de solenidade,representando o Projeto Raízes de Áfricas, quando nesta sexta-feira (11), no auditório da Associação Comercial, no bairro de Jaraguá, a senadora e candidata à presidência da República pelo PV, Marina Silva recebeu o título de cidadã honorária de Maceió/AL, fruto de requerimento – aprovado por unanimidade em sessão plenária – do vereador Silvio Camelo (PV).
A mesa foi presidida pelo presidente do Legislativo Municipal, vereador Eduardo Holanda (PMN) e contou com a presença das vereadoras Heloísa Helena (Psol), Fátima Santiago (PV), Rosinha da Associação de Deficientes Físicos de Alagoas-Adefal (PTdoB) e da Superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis -IBAMA em Alagoas.
Durante nossa fala como representante do movimento social negro, sem filiação partidária, solicitamos a marcação de uma agenda nacional para os 26  Fóruns Estaduais Permanentes de Educação e Diversidade Étnico-Racial, tendo como objetivo discutir politicamente a continuidade do programa de implementação da Lei nº 10.639/03 e a sustentabilidade da Secretaria de Educação Continuada Alfabetização e Diversidade/SECAD/MEC, caso seja eleita a primeira presidenta negra do Brasil.
A proposição de agenda para discutir a Lei Federal nº 10.639/03( fruto da militância do movimento negro e da visão política do atual governo) à candidata do PV será democraticamente socializada junto à candidata do PT e o candidato do PSDB ( caso exista canais para fazê-lo).
Confirmar essa agenda nacional com os 26 Fóruns Estaduais Permanentes de Educação e Diversidade Étnico-Racial demonstrará a sensibilidade política de estabelecer o diálogo estrutural da candidata negra com as proposições nacionais da escola ant-racista que os fóruns defendem.
E será um passo significativo para que o candidato/candidata a chefa ou chefe da nação esmiúce a intimidade da biografia que o racismo traçou nas escolas brasileiras e a partir do conhecimento da Lei Federal nº 10.639/03 agregue valor discursivo com as novas referências étnicas que dialogam com a produção das contemporâneas escolas deste país chamado Brasil.

 

Buala.org - a nova casa da cultura africana contemporânea

Repassando...

Repasso o texto da editora, com uma dica interessante de um site novo, buala.org , com excelentes artigos de intelectuais e artistas africanos, ou pro-africanos. Acaba de ser publicado um artigo meu.
Vocês, com certeza, irão curtir muitos dos textos aí publicados.
Abraços para todos. Joel Zito Araújo,
Diretor - Casa de Criação Cinema -Rio de Janeiro, RJ
Brasil

 

Apresentamos o BUALA, o primeiro portal interdisciplinar de reflexão, crítica e documentação das culturas africanas contemporâneas em língua portuguesa, com produção de textos e traduções em francês e inglês. A língua portuguesa, aqui celebrada na diversidade de Portugal, Brasil e África, dialoga com o mundo, para nos conhecermos melhor nas singularidades de todos e nas pontes possíveis.

Em duas semanas de actividade os comentários muito positivos e a adesão dos leitores e colaboradores, de todos os países de língua portuguesa e de muitos outros lugares do mundo, tem sido um sinal de que esta é uma plataforma muito necessária, pondo lado a lado africanos e estudiosos de África, autores conhecidos com novas vozes e as áreas de actuação contaminando-se umas às outras.

Buala.org pretende inscrever a complexidade do vasto campo cultural africano e diásporta negra em acelerada mutação económica, política, social e cultural. Entendemos a cultura enquanto sistemas, comunidades, acontecimento, sensibilidades e fricções. Políticas e práticas culturais, e o que fica entre ambas. Problematizar questões ideológicas e históricas, entrelaçando tempos e legados. Saber quais são os grandes desafios do continente e os protagonistas da cultura africana, como podemos pensar paradigmas novos nas relações de força? No fundo, desejamos criar novos olhares, despretensiosos e descolonizados, a partir de vários pontos de enunciação da África contemporânea.

O seu funcionamento vai depender da adesão das pessoas. A nossa equipa é muito reduzida e precisamos sempre de colaboradores e leitores. Gostaríamos muito que o BUALA crescesse com a participação de todos para criar uma rede de trabalho consistente entre profissionais da cultura e do pensamento, artistas, agentes culturais, investigadores, jornalistas, escritores, curiosos, viajantes, todos estão convidados.
Vimos por isso pedir para divulgarem e unir esforços para o continuarmos juntos, apelando à vossas colaboração: esperamos artigos (publicados ou inéditos), imagens, sugestões para podermos todos os dias oferecer novidades de conteúdos.

pela equipa do BUALA

Marta Lança
buala@buala.org

Eram meninos e dificilmente se tornariam homens.

Eram todos pretos. A miséria que os rodeava tinha cor indefinida. Ou miséria tem cor? Eram todos pretos e estavam estranhamente rígidos feito transeuntes de efêmera passagem pela vida.
A morte os fazia mais pretos e de tão pretos, indigentes invisíveis. A invisibilidade demarcando espaço com a indiferença alheia. Foram mortos enquanto dormiam.Nenhum de bala perdida. A bala do racismo é certeira.
Eram todos pretos e dormiam no limbo de uma existência sem muita significação. Nem para eles. Nem para os outros. Praticavam pequenos roubos na vizinhança comercial e a noite dormiam em colchão de papelão disputado a tapas. Às vezes encontravam um saco de cimento...
O pequeno ainda usava uma chupeta pendurada no pescoço e a alma recheada do oco da cola de sapateiro.
Quantos anos? Talvez cinco. Mirrado. Sete? Quem sabe? Alguém quer saber?
A piedade cristã embrulha os corpos com jornais. Notícias fresquinhas de mortes iminentes. Sem mãe. Nem pai. Todos pretos. Todos meninos. Todos solidão. Todos passado.
Eram meninos diferentes de todos os outros que moram em nossas casas. Eram meninos com a selvageria das ruas. Vence quem mais esperto for. Eram meninos que não conheciam as letras, nem com elas formavam sonhos.
Eram meninos com a ferocidade que só o abandono provoca e demora uma vida para reabilitar. Eram meninos e dificilmente se tornariam homens.
Uma vez os vi disputando os restos de sanduíche dos lixos. Sanduíches e restos de papel higiênico.
Quantas vezes tomavam banho? Quem os aconselhava a escovar dentes. E antes de embrulhar-se com o saco de cimento qual oração pronunciavam?
Acreditavam em Deus? Tinham medo de escuro?
Eram todos meninos. Todos pretos. Todos pobres. Meninos pretos que morreram como homens. Assassinados.
 

Erlon Chaves, Veneno ou Mocotó?

Garimpando na internet no Blog Meu Lote www.neilopes.blogger.com.br achei esse texto de Nei Lopes, escrito numa terça-feira em 14 de agosto de 2007. Achei um excelente texto!

Dia desses, relaxando da labuta, resolvemos no Lote ouvir uns discos desses de requebrar o esqueleto, desses que confirmam que nossos Deuses africanos dançam. E como dançam!
Sacamos então, lá da estante, discos com “muito balanço” e “pouco conteúdo”, incluindo aí muita guaracha, muito són, muito suingue, muito rhythm & blues, muita batucada, e, entre esses, uns disquinhos relançados do polêmico Wilson Simonal, naquela do patropi e da pilantragem. Foi aí que, ouvindo, sacando as idéias, analisando os arranjos, o clima e lembrando das pessoas envolvidas, nos veio à mente a seguinte pergunta:
Quem foi realmente o maestro Erlon Chaves? Por que morreu tão cedo, aos 41 anos, depois de ser consagrado como regente e ótimo arranjador de música popular; presidente do júri internacional V FIC (Festival Internacional da Canção); de “comer mocotó”; de “tirar altas chinfras”, cheio de “balanço e de veneno”; de transmitir aquela imagem bacana e auto-suficiente... e depois ser taxado de “crioulo nojento”, que “só gostava de loura”, que “não se enxergava” e “nem sabia o seu lugar”. E, afinal, de que morreu Erlon Chaves?
Nascido na capital paulista em 1933, Erlon foi – segundo o Cravo Albin – regente, arranjador, pianista, vibrafonista, compositor e cantor. Em 1965, depois de ter composto para a Tv Excelsior uma sinfonia que se tornou tema de abertura da emissora, mudou-se para o Rio, onde foi diretor musical da TV Rio e um dos idealizadores do I Festival Internacional da Canção em 1966. Até que chegou a quinta edição do famoso festival, em plena ditadura de Garrastazu Médici. E aqui passamos a palavra ao amigo Zuza Homem de Mello, através das páginas de seu primoroso livro A Era dos Festivais: uma parábola (Editora 34).
Para a apresentação de “Eu Também Quero Mocotó” , na final de 25 de outubro de 1970, Erlon resolveu incrementar ainda mais o happening, que já ocorrera na apresentação classificatória da música, quando sua Banda Veneno, somando 40 pessoas entre cantores e músicos (eta, banda larga!), fez platéia e jurados dançarem ao som da canção, feita mesmo pra dançar, só à base de riffs dos metais, ritmo de boogaloo (a moda black de então) . E aí anunciou, segundo Zuza: “Agora vamos fazer um numero quente, eu sendo beijado por lindas garotas. É como se eu fosse beijado por todas aqui presentes”.
“Na platéia foi uma vaia só. Nos lares, algumas esposas brancas engoliram em seco, ofendidíssimas, ao lado dos maridos”. E o happening rolou.
Só que, segundo nosso amigo Zuza, “o espetáculo de um negro sendo beijado por loiras no encerramento do V FIC foi demais para os padrões conservadores da época, e Erlon Chaves foi levado, dias depois, para um interrogatório na Censura Federal”, ao qual se seguiu a prisão, segundo consta, pela influência de esposas de alguns generais da Ditadura, ficando o músico, depois de libertado, proibido de exercer suas atividades profissionais em, todo o território nacional por 30 dias.
No caldo grosso do “Mocotó”, Erlon, acuado, limitou-se ao seu trabalho de arranjador – da mesma forma que Toni Tornado, pela BR-3 apresentada no mesmo certame, foi “convidado a sair do país”. E Wilson Simonal, seu parceiro e amigo, acabou acusado de delator em 1972, comendo a partir daí o mocotó que a Ditadura azedou.
Apesar do relativo sucesso dos discos com repertorio internacional da Banda Veneno, lançados de 1972 a 1974, a carreira de Erlon Chaves acabava ali, naquele festival que, segundo o nunca assaz citado Zuza, “deixou um rastro de racismo, uma marca de preconceito contra artistas da raça negra, aquela que contribuiu para a música brasileira, como também para a cubana e a norte-americana, com o elemento mais proeminente de seu caráter, o ritmo”.
Em 14 de novembro de 1974, Erlon Chaves, que transmitia a todos nós com seu talento, charme, sorriso e simpatia aquela autoconfiança que a nós todos ainda nos faltava, enfartou, quando olhava uns discos de jazz numa loja da zona sul, e morreu. No ato.
Será que morreu de seu próprio “veneno”? Este veneno de que nos faz querer também comer o “mocotó” dos espaços de excelência, das instâncias do poder, do conforto material, do acesso ao saber, do êxito, do respeito enfim!? Ou será que morreu porque era um “crioulo metido e pilantra”, que “não sabia seu lugar”, só “gostava de mulher branca” e “carro do ano”; que, de repente, quem sabe, queria até ver seus filhos – absurdo!
 

Os Privilégios em ser Branca

Reproduzo abaixo do blog:  "aqueladeborah.wordpress.com "texto que achei interessante escrito pela Deborah Sá, em abril de 2010. Façam suas interpretações...

Hoje resolvi almoçar fora (99% dos dias almoço marmita), depois de montar meu prato “modesto” com arroz e agrião, feijão, escarola, cenoura, palmito, batata sorriso, fritas, polenta (carboidrato no frio ), sorridente perguntei a uma senhora se eu poderia me sentar ao seu lado (um dos poucos lugares disponíveis). Ela assentiu.
Meu prato era muito maior que o dela, já que mulheres em geral comem pouco se comparadas com homens. Em seu prato havia uma carne rosa (salmão?) e uma marrom, arroz integral e alguns legumes. Quando estava finalizando meu prato soltei um suspiro (daqueles que a comida está muito boa. Não estava “explodindo”, só expressando satisfação). E a mulher fez uma cara estranha pra mim e eu respondi com um sorriso:
- Comer é tão bom né?
- Hum, é mesmo… a melhor coisa da vida.
- Uma das melhores de fato.
- (Silêncio) Olhando pro meu prato com cara de “que ogra”.
- Eu como mesmo
- Tô vendo…
- Tem gente que conta calorias, sou feliz assim, fora que quase não como
gordura saturada e minha saúde está ok. Pra que me privar não é mesmo?
- É, porque aí já vira doença, igual a menina da novela, você acompanha?
- Não, quando eu chego em casa já acabou…
- Ah, aquela mãe tem muita paciência com ela! De onde você é?
- Eu sou do Centro, mas trabalho aqui perto.
- Hum, pensei que você era do Sul (fez gesto de “rosto” na cara).
- Não. Minha mãe é Pernambucana, meu pai é Paulista.
- Bem, tenho que ir. Qual seu nome? Prazer, boa tarde.
Assim que ela saiu duas senhoras conversavam o quanto era difícil ter que pagar tantas contas: O carro, a empregada, o supermercado…
Este tipo de situação me faz sentir desconfortável: Perceber como o mundo me vê.
Será que se eu fosse negra ela conversaria comigo?
A cor da minha pele faz toda essa gente com comportamentos estranhíssimos (falar de empregada na categoria “coisas” e achar que salva o mundo porque paga alguém que limpa a privada da família -volta pra casa de pé no ônibus lotado para limpar outra casa), se identificar comigo.
Minha mãe é Pernambucana, veio pra SP ainda pequena, minha bisavó paterna veio da Itália para trabalhar como mão de obra barata.
Meus pais passaram por muitas dificuldades quando crianças, meu pai não concluiu o ensino fundamental (e é analista de sistemas), minha mãe faz hoje a primeira faculdade: Serviço Social. Trabalhou “em casa de família” onde separavam os talheres dela dos outros.
Mas quem me vê não conhece minha história e a impressão que eles têm é essa: Sou como os filhos deles que usavam uniformes bonitos e comiam Pringles sem nunca lavar um banheiro.
Não quero dizer que sou coitadinha branca (eca! longe disso!), reconheço que mesmo com tanta coisa ruim na minha vida, é fácil imaginar que muitos acontecimentos foram relacionados com a minha cor. Reconhecer privilégios é fundamental.
Quando a classe média se chama de pobre e brancos falam que não tem vantagens sociais “sofrendo de maneira igual” isto NÂO é verdade.
* Fui escolhida para ser Branca de Neve (mesmo gorda) em uma peça da
escola, qual garota negra é escolhida como princesa?
* Nunca xingaram meu cabelo ou queimei a testa pra alisá-lo.
* Nunca se afastaram de mim com medo que eu assaltasse.
* Nunca falaram: “Deborah, essa cor não combina com sua pele”.
* Embora não use maquiagem, são direcionadas a pele branca usualmente.
* Nunca falaram: Este estilo que você ouve é música de branco-com uma careta em seguida -.
É horrível privar/restringir uma menina negra de ser quem ela É.
É óbvio que não percebo outros grandes problemas por não vivenciar a realidade da mulher negra. Um que noto e me magoa é ouvir meninos/garotos/homens negros dizendo que querem namoradas loiras.
Não pretendo liderar a luta da mulher negra, julgo importante que mulheres brancas não se esqueçam que fatos muitas vezes imperceptíveis a nós, fazem a diferença da forma como o mundo nos trata. Mulheres negras são exemplos de superação.

 

Abertas até 15 de junho inscrições para seleção de estagiários na ONU

Repassando nota da Secretaria de Políticas de Promoçaõ da Igualdade Racial-SEPPIR

 


A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial
(SEPPIR) e o Ministério das Relações Exteriores (MRE), abrem de 1º a
15 de junho de 2010, o 2º processo de seleção para 3 estudantes
( negros(as), pretos(as) e pardos(as)) cursando mestrado ou doutorado
na área de Ciências Humanas ou Sociais, interessados em estagiar na
Delegação Permanente do Brasil em Genebra, Suíça e acompanhar as
atividades do Alto Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas
(ONU).

O estágio terá duração de três meses (ano de 2011), não será
remunerado e está inserido no Programa de Formação Complementar e
Pesquisa na Área de Direitos Humanos da Agência Brasileira de
Cooperação, que oferecerá os recursos para passagem, hospedagem,
alimentação e transporte dos candidatos selecionados. A análise dos
currículos será realizada por Comissão Científica composta por
representantes dos Ministérios proponentes e da Sociedade Civil.
Os pré-requisitos para as vagas são:
* Ter idade máxima de 35 anos;
* Ter concluído ou estar em vias de concluir pós-graduação
("stricto sensu") em área conexa aos temas abrangidos pelo programa de
formação complementar e pesquisas humanas e sociais;
* Ter domínio comprovado da língua inglesa;
*Ter disponibilidade de dedicar-se em tempo integral.

Para candidatar-se ao programa, o estudante deverá enviar até
dia 15 de junho o currículo pelo e-mail: seppir.onuestagio@ planalto. gov.br
Comunicação Social/ SEPPIR
MAGALI NAVES
Chefe da Assessoria Internacional-Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República. SEPPIR-PR
Fone:(61)3411-3665-Fax(61)3226-5625
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