Raízes da África

Mais elogios são sempre muito bem vindos. Críticas, também.

Da série :'Elogios são sempre bem vindos. Críticas também" socializamos o e-mail enviado pelo Silvano Marcos, de Matriz de Camaragibe/Alagoas.

 

Boa Tarde!

Parabenizo o evento Ìgbà- III Seminário Afro-Alagoano, em especial a professora Arísia ,pois foi de grande valia e aprendizagem, conforme a temática proposta, pelas palestrantes,slides,discussões e perguntas dialógicas ,etc...
Avanços, conquistas e barreiras a serem ultrapassadas, e mais ainda, nem mesmo os problemas técnicos conseguiram aplacar o brilho do evento.
Após o evento, no meu campo de trabalho venho disseminando as propostas discutidas no III ÌGBÀ e espero que o Grupo Raízes se fortaleça cada dia mais e faça valer esse valioso trabalho.
O povo negro além de lutas vem de uma historicidade de descriminação, preconceitos e descaso, apesar de tudo isso nunca perderemos a esperança de conquistar espaços sociais, como ser humano,profissionais, como um povo de valores e culturas.
Obrigado, atenciosamente
Silvano Marcos da Silva Santos
Professor e técnico de programas e projetos educacionais
Matriz de Camaragibe-AL
 

Elogios são sempre muito bem vindos. Críticas, também.


Recebi da Laura Jéssica, aluna da professora doutora Nanci Helena Rebouças Franco, professora adjunta da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), onde atua especificamente na área de Relações Raciais na Educação e Pesquisa Educacional, tanto na graduação, quanto no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE). Coordena o Projeto de Extensão Educação para as Relações Étnico-Raciais , numa parceria com o Ministério de Educação e Cultura /SECAD, UFAL, SEEE-AL.
Minha cara Laura,   é muitíssimo bom saber que as ações do Projeto Raízes de Áfricas têm consolidado essa relação de parceria para a circulação do conhecimento.
 E não posso esquecer a parceria da professora Nanci que tão bem percebe a importância da academia para a qualificação do debate.
Obrigada!

 

Arísia,

Espero que estejas bem.
Tenho ótimos comentários, elogios e coisas assim do tipo se não eu não vou terminar o email...
A cada dia que passa, eu tenho ido aos eventos que são promovidos sob sua coordenação e por toda a Equipe Raízes de África , como o Ìgbà- III Seminário Afro-Alagoano: As Mulheres da ONU e a Equidade de Gênero”, ocorrido no último dia 25 de maio- Dia Internacional de Libertação da África’, e cada vez mais saio de lá renovada,sabe?
 Sinto algo que não consigo explicar, me orgulho sempre mais por ser negra, afrodescendente, e acima de tudo mulher.
 Tenho muita coisa pra te agradecer, por tudo isso que tens proporcionado acredito que não só a mim, mas agradeço também por todos aqueles que têm sempre prestigiado todas essas discussões e também se sentem assim, sem palavras, mas com edificações concretas...
Enfim, admiro muito você por ser assim do jeito que és!!!!

 

A paz do rosto do companheiro Abdias Nascimento, refletia a certeza que em nossa terra estava plantada a raiva santa.

Um texto para ler e se emocionar. Um  tributo  a Abdias Nascimento.


O Radical Carinhoso e sua Raiva Santa.

Três baleiros de rua me cercavam curiosos, com seus parcos panos cobrindo suas pele pretas de seus corpos mirrados. Circulavam em meio àquela pequena multidão de mulheres e homens negros na Cinelândia. Os olhos vivos da menina e dos dois meninos não me pediam trocados. Eram apenas olhares de crianças curiosas ao verem ao mesmo tempo, tantas pretas e pretos juntos e com roupas tão bonitas
A Kombi da funerária chegou em frente das escadarias da Câmara de Vereadores do município do Rio de Janeiro. Trazia o corpo matéria de Abdias Nascimento.
Velhos ativistas do movimento negro brasileiro, escolhidos por antiguidade, preparavam-se para levarem o caixão escada acima em revezamento, para ser velado no saguão da casa dos representantes do povo, da cidade que Abdias ainda jovem, escolhera para ser o palco de seu combate contra o racismo no Brasil.
Não haviam multidões de negros como no paço da princesa Isabel nem na república dos donos de escravos. Não estavam presentes nem as fanfarras oficiais nem guardas de segurança, como seria de praxe para um senador da República. Lá estava apenas aquele monte de negros e negros paramentadas e os três Erês curiosos.
É um morto, vão enterrar ali dentro? Me perguntaram. Quem é o morto? Repetiram. Era um homem que defendia os negros, respondi olhando para nossas peles mal cobertas pelos farrapos.
Meu paletó, minha calças, minhas cuecas, minhas meias, camisa e sapatos, não escondiam a minha nudez naquela praça. Éramos todos Pretos Novos, recém-chegados da África, guardando aquele corpo guerreiro, na praça mais famosa de nossa república.
Podemos ficar aqui, podemos ir lá dentro? Me perguntaram. Meu olhar aquiescente não foi necessário, ninguém precisava autorizá-los, eles sabiam que eram convidados de honra do mestre Abdias. Seus olhares tinham aquela certeza de crianças de rua de nosso Brasil, a certeza de que são donos do pouco tempo que tem nesta vida.
Chegaram autoridades, deputados, vereadores, artistas, jornalistas, até o ex-presidente Lula acompanhado pelo governador do estado. Chegaram judeus, muçulmanos e cristãos, todos para reverenciarem aquele homem defensor da religião dos Orişas, que foi o homem de dois séculos para a maioria do povo brasileiro. Maioria que ganhou algumas liberdades, mas não sabem a quem agradecer confundidos pelos reis, rainhas príncipes e princesas de plantão, que lhes distribuem pão-dormido.
Foram momentos contritos naquele saguão solene, a menina e os dois meninos estavam paramentados com as roupas de nossa dignidade e suas caixinhas de drops.
A paz do rosto do companheiro Abdias Nascimento, refletia a certeza que em nossa terra estava plantada a raiva santa. Os Erês o protegiam em sua caminhada para o Orum. Sua voz seguirá em uma criança negra que escape ao silvo da bala de aço do racismo à brasileira.

 

O governo atual não consegue superar a letargia do estado.

Para reflexão...

E-mail anônimo derruba o governo
Golbery Lessa- Historiador


Até ontem, uma única mensagem eletrônica era incapaz de derrubar um governo.
Hoje, já não tenho certeza.
Desde a semana passada, os computadores dos alagoanos contêm um e-mail com um texto de desabafo de um anônimo servidor convocando o povo para derrubar o governo estadual.
Os instrumentos seriam uma manifestação gigantesca em frente ao Palácio República do Palmares, no dia de hoje, 27 de maio de 2011, e a solicitação da abertura de um processo de impeachment.
Beira o realismo fantástico o fato de que as mal traçadas linhas da obscura mensagem tenham despertado uma espécie de “grande medo” nas lideranças sindicais, no chefe do Executivo e em vários setores da população.
Tamanha fragilidade de espírito na sociedade civil e no Estado demonstra que algo de muito grave e profundo está corroendo o tecido social de Alagoas.
O governador parece possuir acentuada sensibilidade em relação à opinião publicada no mundo digital. Até agendou um encontro com os mais conhecidos “blogueiros” locais.
Quem sabe seja por isso que fez publicar ontem nos jornais impressos, um dia antes do fatídico 27 de maio, propugnado como o dia D pelo e-mail anônimo, um manifesto de apoio ao seu governo assinado por cerca de uma centena de entidades, entre as quais podemos encontrar desde clubes de futebol e poderosos grêmios empresarias até associações de bairro.
O que pensar diante de um governo que levanta trincheiras perante um mísero e-mail mal escrito? O que resta da legitimidade de um governo que imagina precisar clamar pelo apoio explícito da parte conservadora da sociedade civil para enfrentar um pasquim eletrônico?
O mesmo se passa entre os sindicalistas.
Confusos e abatidos diante das desastrosas consequências do seu abandono dos trabalhadores do setor privado, constrangidos diante da antipatia que as greves em setores essenciais causam entre a população, seguem realimentando o economicismo e o politicismo que os funcionários públicos desenvolvem quando permanecem isolados dos setores operários.
Os sindicatos já avisaram que não têm nada a ver com o e-mail anônimo e com qualquer manifestação marcada para hoje.
Porém estão com receio de perder a liderança dos protestos contra o governo do estado para forças ocultas que resolvam emergir neste fatídico 27 de maio.
A causa desta presepada, para escrever em bom “alagoanês”, reside no vazio de racionalidade social e política que se criou a partir do fato de que nem a oligarquia canavieira nem a esquerda local demonstram ter um projeto de modernização para Alagoas que seja socialmente inclusivo e economicamente factível.
O governo atual não consegue superar a letargia do estado porque se sustenta essencialmente na oligarquia do açúcar, grupo social que não se interessa, nem pode vir a se interessar, pela diversificação econômica e pelo fim do patrimonialismo. O seu projeto é apenas permanecer no passado, é estacionar num capitalismo eternamente travado por um modelo exportador.
No que se refere ao desenvolvimento de uma formação social, não existe oração sem sujeito.
São as classes ou conjuntos de classes que elaboram os projetos de sociedade de acordo com seus interesses e os impõem aos seus representantes políticos.
A oligarquia alagoana tem o seu projeto, que é o arcaísmo.
Resta, portanto, como saída para o travamento do progresso social, que está levando o estado à beira do caos e do realismo fantástico, a iniciativa das classes trabalhadoras e das classes médias.
Ao contrário da oligarquia, essas classes só têm a ganhar com a diversificação e o avanço inclusivo da economia, bem como com o fim do patrimonialismo e do clientelismo.
Mas é necessário que os formadores da opinião crítica convençam as lideranças desejosas de representar a maioria do povo de que é necessário mudar o rumo político da esquerda e apontar a bússola para um projeto progressista que tenha começo, meio e fim.
Pode ser que até o fim do dia o obscuro e-mail derrube o governo. Contudo, é certo que será preciso mais para construirmos uma Alagoas democrática e generosa.

 

Eu morro protestando, lutando, exigindo, enfrentando todos os detratores dos negros.

Abdias Nascimento fala:
Nós não viemos aqui para fazer negociatas, temos o direito de exigir o que é nosso com dignidade e com a cabeça erguida, olhando olho no olho do branco usurpador. Nós não temos que ter nenhuma hesitação, nós não temos que ter nenhuma humildade. Prá que ter humildade diante destes seres humanos desumanos, que nos tem aguilhoado, que nos tem aferroado por tantos séculos. Olha meus amigos... nós não temos que ter piedade, porque na parte da piedade nós vivemos escravizados, demos nosso sangue e suor, e hoje estamos com mãos vazias. Nós não temos estação de televisão, não somos donos de um jornal, não somos donos de bancos, não somos donos de imobiliárias, nós não temos nada, quando se tem um barraco, já se tem muita coisa. Isto é o país mais injusto da terra. É o país mais escravizador debaixo do sol.
Eu não posso, quase chegando aos cem anos, eu não posso mentir prá vocês, eu morro protestando, lutando, exigindo, enfrentando todos os inimigos, todos os detratores dos negros. “E é isto a minha alegria em ver este grupo de jovens na universidade, criando a sua organização de combate sobe a bandeira do DENEGRIR.”
link de todo depoimento http://www.youtube.com/romao45#p/search/2/GTOAx_t7byA
 

E a dívida com o povo de Alagoas, presidenta Dilma?


Alagoas, como um dos estados mais pobre entre os pobres, clama por educação, trabalho, saúde, moradia, renda, fatores essenciais para a construção da cidadania, entretanto, precisamos agregar a esse elenco de políticas públicas essenciais e urgentes o aprofundamento da importância do capítulo da história do Brasil, do qual Alagoas faz parte.
O estado brasileiro está em dívida com um dos mais expressivos capítulos da história do Brasil a partir da profunda exclusão e apagamento que vem sendo promovido com nossa pertença étnica.
Quantos de nós conhece ‘in loco” a história que sobe e desce a Serra da Barriga, um dos maiores patrimônios da cultura negra do mundo?
Precisamos de interpretes e articuladores que, independente da condição política ou de grupos, sejam ativistas pela valorização da Serra da Barriga responsável historicamente, pelo processo de celebração da redescoberta de nossa identidade étnica
A Serra da Barriga está sendo desfigurada pela ausência de investimentos empreendedores que a consolide como espaço público da história brasileira. Basta de meia-sola! De conversas mediáticas ou notas alvissareiras e utilitárias!
A Serra da Barriga está sendo escravizada pelo ocaso e além dos interesses partidários, pede bem mais do que idéias e projetos a longo prazo. Exige concretude!
A imponência do monumento histórico mundial é símbolo legitimo da existência identitária e a grande metáfora da palavra liberdade para o povo de pele preta e parda, dessa rica nação do mundo.
É preciso pavimentar a estrada que dá acesso aos espaços onde foi fomentada a primeira sociedade brasileira politicamente constituída , a República dos Palmares.
Na Barriga da Serra está plantado o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, o primeiro complexo arquitetônico de inspiração africana de todas as Américas e o único parque temático cultural afro-brasileiro do continente americano, mas, para chegar até lá tem-se que ser “[email protected]” e enfrentar uma estrada(?) com enormes crateras, e formações de pequenos lagos. As dificuldades em todo o percurso são inenarráveis.
Em dias molhados de chuva tem-se que fazer um desvio de aproximadamente 12 km, para ter acesso a estrada principal.
Ou isso, ou o estabelecimento da condição 'sine qua non" para as ditas autoridades: jatinho fretado.
O povo não anda de jatinho!
O colonialismo da política etnicista e da elite escravocrata utilizam seus poderes singulares para dificultar o acesso ao conhecimento de nossa história.
A construção do acesso a Serra da Barriga é outro capítulo a parte.
A União concedeu recursos, já creditados na conta do estado, desde 2009 para construção do acesso e, segundo normas ditadas pela presidenta do Brasil, caso a primeira parte da obra, não seja iniciada até 30 de junho de 2011, o recurso será devolvido para União. São exatos dois anos que os recursos para construção dos caminhos que nos levam a Serra, estão sem utilização adequada.
Porque a União ao liberar verbas não utiliza o mecanismo da fiscalização sistemática?
Se a Serra é patrimônio mundial, a construção do acesso não deve ser vista como demanda interna do estado de Alagoas, ou jogar a responsabilidade da cobrança nos ombros da fragilizada militância, cabe ao estado brasileiro despertar para suas competências e responsabilidades com o patrimônio material.
O conhecimento de nossa origem é nosso passaporte para o mundo e se não o tivermos ficaremos impedidos de seguir adiante.
É preciso ter a coragem de penetrar nesse labirinto de descaso político, a que secularmente vem sendo exposta a Serra da Barriga e agora o Parque Memorial Quilombo dos Palmares.
O estado brasileiro precisa reconhecer que o povo não é uma sociedade anônima, somos nós que felizmente ou infelizmente, atestamos o voto e apesar do parco e inexpressivo salário pagamos impostos.
Para que mesmo serve o dinheiro dos nossos impostos?
Em 1630, no estado negro que um dia seria chamado de Alagoas, Ganga Zumba, Zumbi, Aqualtune e toda uma saga de homens e mulheres descobriram o valor da liberdade e fundaram o “Quilombo dos Palmares” e séculos após o grande ícone contemporâneo, da redescoberta da negritude nacional, Abdias do Nascimento faz do maior centro da resistência negra, seu lugar de repouso eterno.
Mas, se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta (…)
O Quilombo é maior do que Palmares.
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante (...)
O Quilombo é maior do que o Brasil.
Em teu seio, ó Liberdade, desafia o nosso peito a própria morte!
É um quilombo do mundo todo!
E, esse quilombo de tantas e muitas histórias exige respeito.
 

Nota de pesar do ex-presidente Lula pelo falecimento de Abdias Nascimento

 

   
NOTA DE PESAR PELO FALECIMENTO DE ABDIAS NASCIMENTO
Abdias Nascimento foi um lutador brilhante e incansável contra o racismo e por um Brasil melhor. Militante político, jornalista, professor, intelectual e artista, sua coragem e inteligência na defesa dos direitos e da auto-estima dos afro-brasileiros são um exemplo e motivo de orgulho para todos nós. Nesse momento de dor, me solidarizo com sua esposa, Elisa Larkin Nascimento, com todos os parentes e amigos de Abdias Nascimento.
Luiz Inácio Lula da Silva
 

Abdias não morreu, encantou-se.


Não conheci Abdias Nascimento pessoalmente, mas sempre me encantou a capacidade do homem de mover-se por entre as possibilidades.
Conheci Abdias Nascimento, através das muitas vozes uníssonas em falar da importância do maestro que movia e provocava palavras e ações afirmativas.
Abdias Nascimento redesenhou a nossa biografia étnica, explicando, aprofundando, desatando os nós da história que se faziam estrategicamente silenciosos.
É o encantado militante negro que ensinou a uma ampla maioria minorizada a necessária legitimação pública dos direitos civis, como reconhecimento da nossa rica e substantiva pluralidade: população negra brasileira.
Não só o povo de pele preta experimenta uma orfandade abrupta, mas toda arquitetura da história global construída pelo professor, político, artista, articulador,visionário, e, acima de tudo, militante negro peleja com a metáfora da morte.
Abdias Nascimento nos ensinou a ser intérpretes dos caminhos das expectativas, probabilidades e possibilidades.
Aventurou-nos na rota da independência com autonomia.
Sim, nós podemos!
Abdias Nascimento desnaturalizou publica e didaticamente os séculos de escravatura que aprisionou- a nós, o povo de pele preta e a nossa consciência, à perversidade do racismo e do apartheid social e econômico.
Abdias Nascimento é o consolidador de identidades e vocações políticas do povo de pele preta e de muitas outras cores, na nação brasileira.
Homens como Abdias Nascimento não morrem, encantam-se em cantos infinitos das histórias e memórias vizinhas da equidade humana e justiça social.
Morreu? Não. Encantou-se!
O mestre Abdias Nascimento é o espelho da encantada e imorredoura história de um grande herói brasileiro.
Que a espiritualidade maior o acolha!
Asé!
 

ONU Mulheres seleciona jornalista para ministrar curso.

ONU Mulheres seleciona jornalista para ministrar curso de gênero, raça e etnia para a imprensa
Iniciativa é uma das ações previstas no marco da cooperação entre a ONU Mulheres e a FENAJ - Federação Nacional dos Jornalistas. Curso está previsto para acontecer em oito cidades: Maceió (AL), Manaus (AM), Fortaleza (CE), Belém (PA), Recife (PE), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Porto Alegre (RS).

Brasília, 23 de maio de 2011 – A ONU Mulheres – Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres seleciona, até o dia 30 de maio de 2011, profissional com graduação em Jornalismo para ministrar o Curso de Gênero, Raça e Etnia para Jornalistas e administrar blog e redes sociais relacionados ao curso. Faça aqui o download do termo de referência com informações sobre a vaga e do formulário Personal History Form para candidatura.
A iniciativa está programada para acontecer em oito cidades: Maceió (AL), Manaus (AM), Fortaleza (CE), Belém (PA), Recife (PE), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Porto Alegre (RS). Cada curso deverá ser realizado pelo período de dois dias, com uma carga horária total de oito horas. Podem participar da seleção jornalistas diplomados/as com conhecimento avançado das temáticas gênero, raça e etnia, por meio da comprovação de experiência profissional ou acadêmica na área, produção de publicações ou reportagens sobre o tema, ou pela participação em eventos com foco em gênero, raça e etnia; experiência comprovada em redação (veículos de comunicação); e disponibilidade para viagens.
O curso será ministrado baseado em plano pedagógico fornecido pela ONU Mulheres, por meio do Programa Interagencial para a Promoção da Igualdade de Gênero, Raça e Etnia e do Programa Regional de Gênero, Raça, Etnia e Pobreza, e pela FENAJ – Federação Nacional dos Jornalistas, assim como outros materiais pedagógicos tais como matérias ilustrativas e vídeos.

Cooperação – ONU Mulheres e FENAJ
O Curso de Gênero, Raça e Etnia para Jornalistas é uma das ações previstas no Memorando de Entendimento firmado entre a ONU Mulheres e a FENAJ no 34º Congresso Nacional dos Jornalistas.
São os termos da esfera de cooperação: apoio da ONU Mulheres à realização de ações da FENAJ para o enfrentamento do racismo, sexismo e etnocentrismo; especialização de jornalistas nas temáticas de gênero, raça e etnia; incentivo à criação de instâncias organizativas de gênero e raça nos sindicatos de jornalistas com a finalidade de implementar políticas de combate ao racismo, ao sexismo e ao etnocentrismo e promoção da igualdade; realização do censo do jornalismo brasileiro; adoção da autodeclaração étnicorracial nas fichas sindicais; apoio às políticas focalistas para empresas jornalísticas; produção de indicadores referentes à cobertura dos temas gênero, raça e etnia na imprensa; produção de conhecimento e de materiais para subsidiar o debate sobre jornalismo e relações étnicorraciais e de gênero, entre outras iniciativas que versem pelo pleno cumprimento dos princípios dos direitos humanos e marcos internacionais referentes a gênero, raça e etnia no Brasil e no mundo estabelecidos por organismos nacionais e internacionais à luz da liberdade de imprensa.

Candidatura:
Termo de Referência
Personal History Form

 

Grafite foi chamado de “negro de merda” e “macaco”.

Sobre o racismo no Brasil e o faz-de-contas dos tribunais...

Racismo nos tribunais
O número de casos de discriminação julgados no Brasil vem crescendo e a quantidade de acusados considerados inocentes também - quase 70% deles saem livres do banco dos réus
Solange Azevedo
INJÚRIA
Vera diz ter sido chamada de “macaca”  e “negra imunda” recentemente
Quando criança, a cabeleireira Vera Maria da Silva ouviu baterem palmas no portão e foi atender. “Podemos falar com a dona da casa?”, perguntaram dois vendedores de livros. Momentos depois, na presença deles, a mãe de Vera quis saber se a filha havia gostado dos livros. Os rapazes estranharam o questionamento da “dona da casa”, uma mulher branca, e um deles se voltou contra Vera: “Olha, negrinha, você não tem de dar opinião. Quem decide é a sua patroa.” Aquela foi a primeira vez que a cabeleireira lembra ter sido discriminada. Não foi a única. No mês passado, aos 59 anos, Vera diz ter sido xingada de “macaca” e “negra imunda” pelo comerciante Cláudio Kubo, de Sorocaba, no interior paulista, onde mora. Kubo sugeriu, ainda, que ela montasse “num urubu” e voltasse para a África. “Cresci ouvindo essas coisas e nunca tinha tido oportunidade de tomar providências”, conta Vera. “Duas testemunhas do crime prestaram depoimento”, afirma o delegado Fábio Cafisso. Autuado por injúria racial, Kubo foi preso em flagrante. Passou 24 horas na cadeia. Ele alega inocência.
Racismo – assim como injúria racial – é crime no Brasil desde a Constituição de 1988. Injúria é xingamento. Já o racismo fica caracterizado quando a vítima, por exemplo, é impedida de entrar em algum lugar ou preterida numa vaga de trabalho. Embora esse tenha sido um importante avanço na legislação, punir os agressores tem se mostrado complicado. Uma pesquisa do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, revela que os julgamentos de racismo e injúria racial vêm crescendo, mas o número de acusados considerados inocentes também. Depois de passar um pente-fino nos portais dos tribunais de segunda instância de todo o País, o Laeser localizou 84 ações julgadas entre 2005 e 2006. Nos dois anos seguintes, foram 148. Enquanto no primeiro biênio os réus venceram 52,4% dos processos, em 2007 e 2008 eles levaram a melhor em 66,9%.

Em 2005, o argentino Desábato foi preso depois de ofender Grafite, ex-jogador do São Paulo

“Juízes conservadores têm dificuldade de lidar com esses delitos e, às vezes, desqualificam a fala das vítimas”, diz Marcelo Paixão, coordenador do Laeser. “O mito da democracia racial, de que não existiria racismo no Brasil, também pode influenciar os magistrados.” Cleber Julião Costa, pesquisador do Laeser e professor de Direito da Universidade Estadual da Bahia, afirma que muitos processos são mal fundamentados porque os profissionais da área não são bem preparados para trabalhar com a temática. Por isso, na segunda instância, onde as questões técnicas têm mais peso, os réus acabam beneficiados. “Em muitos casos, o juiz muda o tipo penal de racismo para injúria qualificada. Só que o prazo para a suposta vítima propor uma ação por injúria é de 6 meses e, como o tempo de tramitação dos processos é maior do que isso, ela acaba perdendo esse direito”, relata Costa. “Mas, apesar disso, essas ações são importantes porque têm um caráter pedagógico para os réus e para a sociedade.”
Levar esses processos adiante, no entanto, pode ser penoso para as vítimas. Em 2005, durante um jogo, o ex-atacante são-paulino Grafite foi chamado de “negro de merda” e “macaco” pelo zagueiro argentino Leandro Desábato. Depois da partida, disputada no Morumbi e televisionada para vários países, Desábato foi preso em flagrante. Passou dois dias na cadeia. O episódio repercutiu mundialmente e motivou debates sobre o racismo no futebol. Menos de seis meses depois, Grafite desistiu de propor uma ação penal. “Logo depois do jogo, tinha muita gente ao meu lado”, relata Grafite à ISTOÉ. “Mas o tempo foi passando e eu fui ficando sozinho, sem apoio. Minha filha tinha 7 anos e não queria ir à escola porque ficavam perguntando o que eu ia fazer. Fiquei com raiva de ser discriminado naquele dia, mas era muito pior quando eu não era famoso. Eu vendia sacos de lixo e muita gente olhava esquisito quando via um negro batendo no portão.”
 

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