Raízes da África

É preciso valer a Lei nº 10.639/03!

Eram meninas e meninos. Pequenos. Revolucionários. Negros. Pacifistas. Meninos e meninas africanas influenciadas por Steve Biko, um dos grandes ativistas sul-africanos e fundador do movimento Consciência Negra.
Meninos e meninas que lutavam contra a imposição de uma língua “Afrikaans’ “Por que falar a língua de um povo que nos aprisionou?, e do apartheid no currículo escolar das escolas africanas.
Afinal, é o currículo escolar que traspõe para a cartografia da escola a didática do conhecimento como visão de mundo. Histórias e memórias. Memórias de gentes, participações, autonomia intelectual, limites e possibilidades...
Eram meninos e meninas como Martin Luther King Júnior e Nelson Mandela.
0s 20 mil pequenos intelectuais pacifistas de Soweto acreditavam nas possibilidades...
Meninos pacíficos ensaiando os passos da liberdade, redefinindo histórias mal alinhavadas de negros e África. Meninas determinadas na quebra do espelho secular do racismo na educação de Soweto. Precisavam de uma escola nova sem as manipulações e os esquematismos do poder.
Meninos que jogaram ao mundo suas cinzas secretas d!alma e a pintaram de liberdade. Eram meninos e meninas- estudantes de Soweto, com a consciência coletiva do eterno ciclo de dominação colonial. Saberes repassados de geração a geração.
Eram 20 mil entre tantos, pequenos meninos e meninas ativistas no massacre em 16 de junho de 1976 e dali nascia um herói Hector Pieterson de 12 anos. Morto em combate.
E Nelson Mandela, que viveu 20 anos aprisionado, criou na mesma data o Dia da Juventude Sul – Africana.
Mesmo após 34 anos, a imagem de Hector Pieterson, o pequeno ativista morto, ainda alimenta em todo povo de Soweto/África do sul o poder da liberdade como fronteira.
Outros meninos e meninas de outras histórias e outros tempos, diferentes, mas iguais a esses e a tantos e tantas na crença da liberdade, um dia foram expatriados do continente, fatiados em sua auto-estima, subjugados em sua ânsia de liberdade, submetidos ao massacre da escravidão nas terras de Cabral.
Nas terras colonizadas amargaram a quebra dos vínculos com a família e o continente. Sofreram à revelia estupros, abandono de incapaz, escravidão, infanticídio, abandono intelectual,etc,etc,etc. Mas um dia, o sentimento de resistência,foi sendo plantado nas almas grávidas de vida, reorganizaram o fim da “coisificação”, apreenderam novamente os passos do poder de ser pessoa.
A história da memória social da abolição foi construída pelas elites políticas e ressalta a extinção da servidão negra, pela princesa européia. Isabel assinou a lei, entretanto esqueceu de assinar a carteira de trabalho dos ex-escravizados. Mobilidade Ascendente. Cidadania. Direitos. Educação.
A história do escravismo brasileiro é um monólogo histórico recheado de supressão e hiatos sociais.
É preciso valer a Lei nº10.639/03, para que assim como em Soweto as novas gerações das escolas alagoanas tenham o direito de ao se apossarem, subsidiadas pelo poder estrutural do governo,da magnífica história de luta e resistência do povo do continente africano, e descendentes aquilombados em terras de Palmares.
Como o apartheid a omissão em relação à Lei Federal nº 10.639/03 é crime constitucional, portanto contra a humanidade.
É preciso valer a Lei nº 10.639/03!
O nosso sol da liberdade ainda está em construção. É hora de acordar Zumbi!
 

Como candidata negra Marina Silva deverá percorrer itinerários históricos...

Marina Silva se propõe a mexer com os pilares da hegemonia racial do segundo país mais negro do planeta, ao declarar-se a candidata negra a presidência da República Federativa do Brasil?
Talvez Marina Silva esteja neste palco étnico-político para dividir os silêncios construídos, dos quase 50% da população brasileira como uma espécie de tapume do apartheid: negro pode até “ assistir” a história como elemento coadjuvante ,mas, não participar dela. Recuperar hiatos entre cantos e becos da história para quem sabe gerar um diálogo frutífero de futuro?
Quando Marina Silva diz que quer ser eleita a primeira presidenta negra da República Federativa do Brasil deve ter conhecimento das interpretações interiorizadas que circundam o povo negro neste país.
Marina Silva sabe que a nossa propalada miscigenação étnica esconde a complexidade da sutileza do racismo, e, é um ponto de partida para criar diálogos longos e políticos com a matriz da sociedade que “ainda não é respeitada: os ditos diferentes.
Sabe também que o racismo tem a idade do tempo da razão humana, preconceitos que atravancam caminhos e dão lastro a intolerância.
Talvez Marina Silva esteja na cena política para reivindicar o repertório autoral do povo negro: Protagonismo!
Talvez Marina Silva proponha caminhos para discussões francas, abertas, despidas de estereótipos pessoais e partidários na elaboração de conteúdos que tragam de maneira coletiva vozes de quilombolas, religiosos afro, cotistas negros, sindicalistas negros, intelectuais, LGBT, e militantes do movimento negro em geral.
Quando Marina Silva se propõe ser eleita a primeira presidente negra do Brasil sua plataforma política pode tomar dois caminhos possíveis: ou ficar na superfície do discurso ou esquadrinhar e pôr na tela o rosto de muitos e muitas brasileiras negras que têm a legitima competência de romper com ostracismo sócio-étnico. Mobilidade e sustentabilidade além do discurso...
Quando Marina Silva se propõe a ser a legitima representante do povo negro na República do Brasil traz na fala a coragem de insubordinação étnica. Entretanto é preciso que essa “revolução” abarque e subsidie experiências referenciais de homens e mulheres. A Bahia é expert em traduzir legitimas candidaturas...
Mesmo tendo a negritude como condição étnica , Marina Silva terá, caso queira, tempo de alimentar a identidade de política negra ao longo da campanha, embrenhando-se na geografia do racismo que acomoda pessoas em espaços asfixiantes e limitados.
Como candidata negra Marina Silva deverá percorrer itinerários históricos que agregam valor a árida cartografia do povo negro e criar amplitude de sua atual plataforma de governo que se resume em “Lutar contra todas as formas de discriminação: étnica, racial, religiosa, homofobia, sexual e outras”. É preciso conjugar a experimentação com o  aprendizado das identidades historicamente subjugadas.
A convite do vereador Sílvio Camelo fizemos parte da mesa de solenidade,representando o Projeto Raízes de Áfricas, quando nesta sexta-feira (11), no auditório da Associação Comercial, no bairro de Jaraguá, a senadora e candidata à presidência da República pelo PV, Marina Silva recebeu o título de cidadã honorária de Maceió/AL, fruto de requerimento – aprovado por unanimidade em sessão plenária – do vereador Silvio Camelo (PV).
A mesa foi presidida pelo presidente do Legislativo Municipal, vereador Eduardo Holanda (PMN) e contou com a presença das vereadoras Heloísa Helena (Psol), Fátima Santiago (PV), Rosinha da Associação de Deficientes Físicos de Alagoas-Adefal (PTdoB) e da Superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis -IBAMA em Alagoas.
Durante nossa fala como representante do movimento social negro, sem filiação partidária, solicitamos a marcação de uma agenda nacional para os 26  Fóruns Estaduais Permanentes de Educação e Diversidade Étnico-Racial, tendo como objetivo discutir politicamente a continuidade do programa de implementação da Lei nº 10.639/03 e a sustentabilidade da Secretaria de Educação Continuada Alfabetização e Diversidade/SECAD/MEC, caso seja eleita a primeira presidenta negra do Brasil.
A proposição de agenda para discutir a Lei Federal nº 10.639/03( fruto da militância do movimento negro e da visão política do atual governo) à candidata do PV será democraticamente socializada junto à candidata do PT e o candidato do PSDB ( caso exista canais para fazê-lo).
Confirmar essa agenda nacional com os 26 Fóruns Estaduais Permanentes de Educação e Diversidade Étnico-Racial demonstrará a sensibilidade política de estabelecer o diálogo estrutural da candidata negra com as proposições nacionais da escola ant-racista que os fóruns defendem.
E será um passo significativo para que o candidato/candidata a chefa ou chefe da nação esmiúce a intimidade da biografia que o racismo traçou nas escolas brasileiras e a partir do conhecimento da Lei Federal nº 10.639/03 agregue valor discursivo com as novas referências étnicas que dialogam com a produção das contemporâneas escolas deste país chamado Brasil.

 

Buala.org - a nova casa da cultura africana contemporânea

Repassando...

Repasso o texto da editora, com uma dica interessante de um site novo, buala.org , com excelentes artigos de intelectuais e artistas africanos, ou pro-africanos. Acaba de ser publicado um artigo meu.
Vocês, com certeza, irão curtir muitos dos textos aí publicados.
Abraços para todos. Joel Zito Araújo,
Diretor - Casa de Criação Cinema -Rio de Janeiro, RJ
Brasil

 

Apresentamos o BUALA, o primeiro portal interdisciplinar de reflexão, crítica e documentação das culturas africanas contemporâneas em língua portuguesa, com produção de textos e traduções em francês e inglês. A língua portuguesa, aqui celebrada na diversidade de Portugal, Brasil e África, dialoga com o mundo, para nos conhecermos melhor nas singularidades de todos e nas pontes possíveis.

Em duas semanas de actividade os comentários muito positivos e a adesão dos leitores e colaboradores, de todos os países de língua portuguesa e de muitos outros lugares do mundo, tem sido um sinal de que esta é uma plataforma muito necessária, pondo lado a lado africanos e estudiosos de África, autores conhecidos com novas vozes e as áreas de actuação contaminando-se umas às outras.

Buala.org pretende inscrever a complexidade do vasto campo cultural africano e diásporta negra em acelerada mutação económica, política, social e cultural. Entendemos a cultura enquanto sistemas, comunidades, acontecimento, sensibilidades e fricções. Políticas e práticas culturais, e o que fica entre ambas. Problematizar questões ideológicas e históricas, entrelaçando tempos e legados. Saber quais são os grandes desafios do continente e os protagonistas da cultura africana, como podemos pensar paradigmas novos nas relações de força? No fundo, desejamos criar novos olhares, despretensiosos e descolonizados, a partir de vários pontos de enunciação da África contemporânea.

O seu funcionamento vai depender da adesão das pessoas. A nossa equipa é muito reduzida e precisamos sempre de colaboradores e leitores. Gostaríamos muito que o BUALA crescesse com a participação de todos para criar uma rede de trabalho consistente entre profissionais da cultura e do pensamento, artistas, agentes culturais, investigadores, jornalistas, escritores, curiosos, viajantes, todos estão convidados.
Vimos por isso pedir para divulgarem e unir esforços para o continuarmos juntos, apelando à vossas colaboração: esperamos artigos (publicados ou inéditos), imagens, sugestões para podermos todos os dias oferecer novidades de conteúdos.

pela equipa do BUALA

Marta Lança
buala@buala.org

Eram meninos e dificilmente se tornariam homens.

Eram todos pretos. A miséria que os rodeava tinha cor indefinida. Ou miséria tem cor? Eram todos pretos e estavam estranhamente rígidos feito transeuntes de efêmera passagem pela vida.
A morte os fazia mais pretos e de tão pretos, indigentes invisíveis. A invisibilidade demarcando espaço com a indiferença alheia. Foram mortos enquanto dormiam.Nenhum de bala perdida. A bala do racismo é certeira.
Eram todos pretos e dormiam no limbo de uma existência sem muita significação. Nem para eles. Nem para os outros. Praticavam pequenos roubos na vizinhança comercial e a noite dormiam em colchão de papelão disputado a tapas. Às vezes encontravam um saco de cimento...
O pequeno ainda usava uma chupeta pendurada no pescoço e a alma recheada do oco da cola de sapateiro.
Quantos anos? Talvez cinco. Mirrado. Sete? Quem sabe? Alguém quer saber?
A piedade cristã embrulha os corpos com jornais. Notícias fresquinhas de mortes iminentes. Sem mãe. Nem pai. Todos pretos. Todos meninos. Todos solidão. Todos passado.
Eram meninos diferentes de todos os outros que moram em nossas casas. Eram meninos com a selvageria das ruas. Vence quem mais esperto for. Eram meninos que não conheciam as letras, nem com elas formavam sonhos.
Eram meninos com a ferocidade que só o abandono provoca e demora uma vida para reabilitar. Eram meninos e dificilmente se tornariam homens.
Uma vez os vi disputando os restos de sanduíche dos lixos. Sanduíches e restos de papel higiênico.
Quantas vezes tomavam banho? Quem os aconselhava a escovar dentes. E antes de embrulhar-se com o saco de cimento qual oração pronunciavam?
Acreditavam em Deus? Tinham medo de escuro?
Eram todos meninos. Todos pretos. Todos pobres. Meninos pretos que morreram como homens. Assassinados.
 

Erlon Chaves, Veneno ou Mocotó?

Garimpando na internet no Blog Meu Lote www.neilopes.blogger.com.br achei esse texto de Nei Lopes, escrito numa terça-feira em 14 de agosto de 2007. Achei um excelente texto!

Dia desses, relaxando da labuta, resolvemos no Lote ouvir uns discos desses de requebrar o esqueleto, desses que confirmam que nossos Deuses africanos dançam. E como dançam!
Sacamos então, lá da estante, discos com “muito balanço” e “pouco conteúdo”, incluindo aí muita guaracha, muito són, muito suingue, muito rhythm & blues, muita batucada, e, entre esses, uns disquinhos relançados do polêmico Wilson Simonal, naquela do patropi e da pilantragem. Foi aí que, ouvindo, sacando as idéias, analisando os arranjos, o clima e lembrando das pessoas envolvidas, nos veio à mente a seguinte pergunta:
Quem foi realmente o maestro Erlon Chaves? Por que morreu tão cedo, aos 41 anos, depois de ser consagrado como regente e ótimo arranjador de música popular; presidente do júri internacional V FIC (Festival Internacional da Canção); de “comer mocotó”; de “tirar altas chinfras”, cheio de “balanço e de veneno”; de transmitir aquela imagem bacana e auto-suficiente... e depois ser taxado de “crioulo nojento”, que “só gostava de loura”, que “não se enxergava” e “nem sabia o seu lugar”. E, afinal, de que morreu Erlon Chaves?
Nascido na capital paulista em 1933, Erlon foi – segundo o Cravo Albin – regente, arranjador, pianista, vibrafonista, compositor e cantor. Em 1965, depois de ter composto para a Tv Excelsior uma sinfonia que se tornou tema de abertura da emissora, mudou-se para o Rio, onde foi diretor musical da TV Rio e um dos idealizadores do I Festival Internacional da Canção em 1966. Até que chegou a quinta edição do famoso festival, em plena ditadura de Garrastazu Médici. E aqui passamos a palavra ao amigo Zuza Homem de Mello, através das páginas de seu primoroso livro A Era dos Festivais: uma parábola (Editora 34).
Para a apresentação de “Eu Também Quero Mocotó” , na final de 25 de outubro de 1970, Erlon resolveu incrementar ainda mais o happening, que já ocorrera na apresentação classificatória da música, quando sua Banda Veneno, somando 40 pessoas entre cantores e músicos (eta, banda larga!), fez platéia e jurados dançarem ao som da canção, feita mesmo pra dançar, só à base de riffs dos metais, ritmo de boogaloo (a moda black de então) . E aí anunciou, segundo Zuza: “Agora vamos fazer um numero quente, eu sendo beijado por lindas garotas. É como se eu fosse beijado por todas aqui presentes”.
“Na platéia foi uma vaia só. Nos lares, algumas esposas brancas engoliram em seco, ofendidíssimas, ao lado dos maridos”. E o happening rolou.
Só que, segundo nosso amigo Zuza, “o espetáculo de um negro sendo beijado por loiras no encerramento do V FIC foi demais para os padrões conservadores da época, e Erlon Chaves foi levado, dias depois, para um interrogatório na Censura Federal”, ao qual se seguiu a prisão, segundo consta, pela influência de esposas de alguns generais da Ditadura, ficando o músico, depois de libertado, proibido de exercer suas atividades profissionais em, todo o território nacional por 30 dias.
No caldo grosso do “Mocotó”, Erlon, acuado, limitou-se ao seu trabalho de arranjador – da mesma forma que Toni Tornado, pela BR-3 apresentada no mesmo certame, foi “convidado a sair do país”. E Wilson Simonal, seu parceiro e amigo, acabou acusado de delator em 1972, comendo a partir daí o mocotó que a Ditadura azedou.
Apesar do relativo sucesso dos discos com repertorio internacional da Banda Veneno, lançados de 1972 a 1974, a carreira de Erlon Chaves acabava ali, naquele festival que, segundo o nunca assaz citado Zuza, “deixou um rastro de racismo, uma marca de preconceito contra artistas da raça negra, aquela que contribuiu para a música brasileira, como também para a cubana e a norte-americana, com o elemento mais proeminente de seu caráter, o ritmo”.
Em 14 de novembro de 1974, Erlon Chaves, que transmitia a todos nós com seu talento, charme, sorriso e simpatia aquela autoconfiança que a nós todos ainda nos faltava, enfartou, quando olhava uns discos de jazz numa loja da zona sul, e morreu. No ato.
Será que morreu de seu próprio “veneno”? Este veneno de que nos faz querer também comer o “mocotó” dos espaços de excelência, das instâncias do poder, do conforto material, do acesso ao saber, do êxito, do respeito enfim!? Ou será que morreu porque era um “crioulo metido e pilantra”, que “não sabia seu lugar”, só “gostava de mulher branca” e “carro do ano”; que, de repente, quem sabe, queria até ver seus filhos – absurdo!
 

Os Privilégios em ser Branca

Reproduzo abaixo do blog:  "aqueladeborah.wordpress.com "texto que achei interessante escrito pela Deborah Sá, em abril de 2010. Façam suas interpretações...

Hoje resolvi almoçar fora (99% dos dias almoço marmita), depois de montar meu prato “modesto” com arroz e agrião, feijão, escarola, cenoura, palmito, batata sorriso, fritas, polenta (carboidrato no frio ), sorridente perguntei a uma senhora se eu poderia me sentar ao seu lado (um dos poucos lugares disponíveis). Ela assentiu.
Meu prato era muito maior que o dela, já que mulheres em geral comem pouco se comparadas com homens. Em seu prato havia uma carne rosa (salmão?) e uma marrom, arroz integral e alguns legumes. Quando estava finalizando meu prato soltei um suspiro (daqueles que a comida está muito boa. Não estava “explodindo”, só expressando satisfação). E a mulher fez uma cara estranha pra mim e eu respondi com um sorriso:
- Comer é tão bom né?
- Hum, é mesmo… a melhor coisa da vida.
- Uma das melhores de fato.
- (Silêncio) Olhando pro meu prato com cara de “que ogra”.
- Eu como mesmo
- Tô vendo…
- Tem gente que conta calorias, sou feliz assim, fora que quase não como
gordura saturada e minha saúde está ok. Pra que me privar não é mesmo?
- É, porque aí já vira doença, igual a menina da novela, você acompanha?
- Não, quando eu chego em casa já acabou…
- Ah, aquela mãe tem muita paciência com ela! De onde você é?
- Eu sou do Centro, mas trabalho aqui perto.
- Hum, pensei que você era do Sul (fez gesto de “rosto” na cara).
- Não. Minha mãe é Pernambucana, meu pai é Paulista.
- Bem, tenho que ir. Qual seu nome? Prazer, boa tarde.
Assim que ela saiu duas senhoras conversavam o quanto era difícil ter que pagar tantas contas: O carro, a empregada, o supermercado…
Este tipo de situação me faz sentir desconfortável: Perceber como o mundo me vê.
Será que se eu fosse negra ela conversaria comigo?
A cor da minha pele faz toda essa gente com comportamentos estranhíssimos (falar de empregada na categoria “coisas” e achar que salva o mundo porque paga alguém que limpa a privada da família -volta pra casa de pé no ônibus lotado para limpar outra casa), se identificar comigo.
Minha mãe é Pernambucana, veio pra SP ainda pequena, minha bisavó paterna veio da Itália para trabalhar como mão de obra barata.
Meus pais passaram por muitas dificuldades quando crianças, meu pai não concluiu o ensino fundamental (e é analista de sistemas), minha mãe faz hoje a primeira faculdade: Serviço Social. Trabalhou “em casa de família” onde separavam os talheres dela dos outros.
Mas quem me vê não conhece minha história e a impressão que eles têm é essa: Sou como os filhos deles que usavam uniformes bonitos e comiam Pringles sem nunca lavar um banheiro.
Não quero dizer que sou coitadinha branca (eca! longe disso!), reconheço que mesmo com tanta coisa ruim na minha vida, é fácil imaginar que muitos acontecimentos foram relacionados com a minha cor. Reconhecer privilégios é fundamental.
Quando a classe média se chama de pobre e brancos falam que não tem vantagens sociais “sofrendo de maneira igual” isto NÂO é verdade.
* Fui escolhida para ser Branca de Neve (mesmo gorda) em uma peça da
escola, qual garota negra é escolhida como princesa?
* Nunca xingaram meu cabelo ou queimei a testa pra alisá-lo.
* Nunca se afastaram de mim com medo que eu assaltasse.
* Nunca falaram: “Deborah, essa cor não combina com sua pele”.
* Embora não use maquiagem, são direcionadas a pele branca usualmente.
* Nunca falaram: Este estilo que você ouve é música de branco-com uma careta em seguida -.
É horrível privar/restringir uma menina negra de ser quem ela É.
É óbvio que não percebo outros grandes problemas por não vivenciar a realidade da mulher negra. Um que noto e me magoa é ouvir meninos/garotos/homens negros dizendo que querem namoradas loiras.
Não pretendo liderar a luta da mulher negra, julgo importante que mulheres brancas não se esqueçam que fatos muitas vezes imperceptíveis a nós, fazem a diferença da forma como o mundo nos trata. Mulheres negras são exemplos de superação.

 

Abertas até 15 de junho inscrições para seleção de estagiários na ONU

Repassando nota da Secretaria de Políticas de Promoçaõ da Igualdade Racial-SEPPIR

 


A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial
(SEPPIR) e o Ministério das Relações Exteriores (MRE), abrem de 1º a
15 de junho de 2010, o 2º processo de seleção para 3 estudantes
( negros(as), pretos(as) e pardos(as)) cursando mestrado ou doutorado
na área de Ciências Humanas ou Sociais, interessados em estagiar na
Delegação Permanente do Brasil em Genebra, Suíça e acompanhar as
atividades do Alto Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas
(ONU).

O estágio terá duração de três meses (ano de 2011), não será
remunerado e está inserido no Programa de Formação Complementar e
Pesquisa na Área de Direitos Humanos da Agência Brasileira de
Cooperação, que oferecerá os recursos para passagem, hospedagem,
alimentação e transporte dos candidatos selecionados. A análise dos
currículos será realizada por Comissão Científica composta por
representantes dos Ministérios proponentes e da Sociedade Civil.
Os pré-requisitos para as vagas são:
* Ter idade máxima de 35 anos;
* Ter concluído ou estar em vias de concluir pós-graduação
("stricto sensu") em área conexa aos temas abrangidos pelo programa de
formação complementar e pesquisas humanas e sociais;
* Ter domínio comprovado da língua inglesa;
*Ter disponibilidade de dedicar-se em tempo integral.

Para candidatar-se ao programa, o estudante deverá enviar até
dia 15 de junho o currículo pelo e-mail: seppir.onuestagio@ planalto. gov.br
Comunicação Social/ SEPPIR
MAGALI NAVES
Chefe da Assessoria Internacional-Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República. SEPPIR-PR
Fone:(61)3411-3665-Fax(61)3226-5625
Esplanada dos Ministérios - Bloco A - 9º andar
CEP: 70054-906 - Brasília - DF - Brasil

 

Entre ser mulher, negra e deficiente, sinto que sou mais discriminada nos bancos pela cor da minha pele.


Diversidade é o discurso contemporâneo da legitimação do diferente. A consciência do SER profundamente enraizada na cultura do direito individual, como bem social e coletivo. Equidade!
Desde o Brasil colônia o povo negro foi estigmatizado com o inadequado sentido da “coisificação” assumindo o incomodo lugar movediço de mero objeto produtivo. Era preciso produzir para ter serventia e negros doentes eram “produtos” desqualificados.
Apesar dos 122 anos que nos separam da abolição inacabada, o imaginário social cristalizou, como se fosse uma imagem geracional, a falsa e racista concepção da inferioridade étnica da população negra.
Estigma que funciona como instrumento de controle social para desvalorizar, desacreditar e marginalizar uma população que na atualidade ainda sofre o emprego ideológico da história que alicerçou memórias segmentadoras.
Como é ser negro e deficiente no Brasil?
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (2004) existem quase 25 milhões de deficientes físicos no Brasil, 47% dos quais são negros (11.649.256)
No tocante à distribuição geográfica as regiões Norte e Nordeste têm 16,1% e 16,7 % dos deficientes ao passo em que 12,9% estão no Sudeste.
Quais são os estudos existentes no Brasil sobre as características estigmatizadas – ser negr@ e deficiente físico?
Qual o lugar social do personagem de Monteiro Lobato, Saci-Pererê, um deficiente negro?

A deficiência como hiato racial entre negros e brancos.

Muita gente apresenta certo “desconforto’ ao compartilhar o espaço com uma pessoa deficiente, e se o deficiente for negr@...
“B. foi contratada por uma instituição financeira dentro da cota para deficientes exigida pela lei. Logo nos primeiros dias de trabalho, ela sentia os olhares atravessados e a cara fechada das pessoas, principalmente no elevador. Uma gestora que trabalha no seu departamento nem a cumprimentava, mesmo após os insistentes “olás” de B. Daí para as piadinhas racistas foi um passo.
“Até o dia que me irritei e cobrei o fim das piadinhas de negro. Exigi respeito e, a partir do momento em que as pessoas me viram andando com o pessoal do Sindicato, as piadinhas pararam”, conta.
B. é a única negra no seu departamento. Segundo o Mapa da Diversidade, o número de bancários negros representa menos que 3% da categoria. “O número de negros é extremamente baixo e talvez isso reforce o preconceito.
Entre ser mulher, negra e deficiente, sinto que sou mais discriminada nos bancos pela cor da minha pele”, diz B.
A síndrome Down pode não fazer distinção de cor antes do nascimento, mas há fará alguns anos depois. Um estudo realizado em 2001 pelo Centro de Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos concluiu que, em média, brancos com a síndrome vivem o dobro do tempo que os negros. Como especialistas ainda não sabem explicar o porquê de tamanha disparidade, o assunto ainda merece mais pesquisas. (Paulo Alberto Otto, da Universidade de São Paulo (USP).
Porque os/as pesquisadores não despertaram para o território de investigação sobre a mortandade de downs negros?
Segundo um site na internet: “É fundamental deixar claro que entre os surdos há uma série de subgrupos: ser surdo negro não é o mesmo que ser surdo branco ou rico ou pobre ou mulher”
Nada é mais eficiente em sua deficiência do que o racismo brasileiro!

 

Secretaria de Educação Especial/MEC propõe diálogo ampliado sobre negritude e deficiência.

Recebo na manhã do dia 01 de junho um telefonema de Misiara Oliveira- chefe de gabinete da Secretaria de Educação Especial, Ministério de Educação nos falando sobre a leitura do artigo que publicamos neste blog, dia 31/05 sobre o título:” A construção das relações de poder na educação segrega as pessoas diferentes, tornando-as desiguais”.
Misiara reafirma a importância do convite a SECAD/MEC para a indicação de 02 representações do movimento negro (Alagoas e Bahia) para participação no Seminário Internacional:“A Escola Aprendendo com as Diferenças” e continua: “o convite visava justamente isso: possibilitar a reflexão extra-grupo sobre os limites e possibilidades da educação inclusiva, o que pressupõe entender, explicar, pensar e contextualizar a diversidade como um permanente processo de ensino-aprendizagem”.
Entusiasta Misiara reafirma o compromisso da SEESP/MEC na perspectiva de consolidar a implementação da “educação inclusiva como um paradigma educacional fundamentado na concepção de direitos humanos, que conjuga igualdade e diferença como valores indissociáveis, e que avança em relação à idéia de eqüidade formal ao contextualizar as circunstâncias históricas da produção da exclusão dentro e fora da escola” e propõe a realização, o mais breve possível, de uma escuta nacional sobre a temática: “negritude e deficiência” , novos caminhos para o estudo da Lei Federal nº 10.639/03 e outras questões pertinentes.
Pessoalmente fico feliz com a positiva repercussão das proposições do blog Raizes de África junto à SEESP, como também da maturidade política apresentada pela gestão da Secretaria Nacional (não é todo dia que a gestão estatal responde de pronto e positivamente), ao perceber nossos argumentos como um olhar contributivo para o desenvolvimento de uma política macro que invista, sem as estereotipadas barreiras sociais, em um processo de humanização na construção da identidade étnica do deficiente.
Nos apressamos, através de uma ligação telefônica em levar ao conhecimento de Leonor Araujo, coordenadora geral de Diversidade/SECAD/MEC as proposições da SEESP.
Leonor demonstrou uma enorme satisfação e referenciou positivamente a Secretaria de Educação Especial pela iniciativa de pensar políticas que se inter-relacionam e estabelecem a interação entre atrizes/atores estatais constituindo assim uma abrangente rede de trabalho sobre deficiência e educação das relações étnicorraciais.
Elói Ferreira, ministro-chefe da Igualdade-racial foi enfático: é uma nova frente que se abre de combate ao racismo.
 

Tempos de Casa-Grande é uma afronta oportuna ao mito da democracia racial.

Reproduzimos a opinião de Maria Luiza Tucci Carneiro - Universidade de São Paulo]   sobre o livro  Tempos de Casa-Grande, de Silvia Cortez Silva, que já publicou inúmeros artigos em revistas e livros, analisando temas como livros proibidos, intelectuais e antissemitismo.
O lançamento do livro acontecerá terça-feira, 08 de junho, às 19 horas, na Livraria Cultura, Paço Alfândega. Rua: Madre de Deus s/n. Lojas 135/135/229. Recife/PE
Fone: (81) 2102-4033

 

Tempos de Casa-Grande, antes de ser polêmico, é um livro corajoso por colocar em cena uma faceta pouco conhecida de Gilberto Freyre: a de intelectual racista e, em particular, antissemita. Integra-se ao conjunto de estudos que, nestas últimas décadas, têm revisitado o pensamento do grande "Mestre de Apipucos".
Silvia Cortez Silva não se furta de reconhecer uma das marcas mais importantes da obra freyriana e que, muitas vezes, foi eclipsada pela força do mito da democracia racial. Demonstra como o racismo e o racialismo foram acobertados por interpretações do próprio Freyre que, em Casa-Grande & Senzala, insiste na idéia de que a mestiçagem é o principal traço da identidade brasileira. Ao analisar os textos de Freyre, a autora traz uma contribuição especial: instiga-nos a reavaliar uma das mais importantes interpretações sobre o Brasil na década de 1930. Se Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, é um "divisor de águas" na história do livro e da cultura brasileira, Tempos de Casa-Grande, de Silvia Cortez Silva, é um marco na historiografia brasileira. Através de uma linguagem perspicaz inspirada na mitologia grega, a autora realiza uma verdadeira arqueologia do saber construído por Freyre. Tarefa difícil, apesar do tempo de Silvia ser outro, distanciado dos "tempos de Freyre", tempo morto, tempo de aprendiz, tempo de intolerância, tempo de integralismo e autoritarismo. Inquieta diante da força dos mitos, a autora não tem medo da fúria de Éolo. Este livro é uma afronta oportuna ao mito da democracia racial que, assim como a Fênix, renasce das cinzas.
 

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