Geraldo de Majella

Abaixo a burguesia, viva o anarquismo

O militante anarquista mais conhecido em Alagoas é Nô Pedrosa. Nasceu em Santa Luzia do Norte (AL), há 75 anos, no dia 7 de setembro de 1940, e foi registrado com o nome de Walfredo Pedrosa de Amorim. Filho de Hermes Calheiros de Amorim e Lidia Pedrosa de Amorim. Por ironia do destino, nasceu no dia em que o Brasil comemora a Independência de Portugal.

        Nô Pedrosa pertence a uma família com tradição e militância política na esquerda alagoana. O irmão mais velho, o escritor e engenheiro Valter Pedrosa de Amorim, foi o primeiro que iniciou a militância política quando se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), na segunda metade da década de 1950. Nô e Waldir Pedrosa de Amorim seguiram o primogênito; dos quatro irmãos, três militaram no PCB.

        O que liga as famílias Calheiros-Amorim a Miranda são os irmãos Hermes, irmão de Hermé Calheiros, que por sua vez casou-se com Manoel Simplício de Miranda e constituíram uma prole com dez filhos, entre eles, os jornalistas Jayme e Nilson Amorim de Miranda, dirigentes do PCB em Alagoas.

        Os primos constituíram um núcleo destacado na estrutura do PCB nas décadas de 1950 e 1960. O ativismo do jovem Nô Pedrosa ajudou a formar vários núcleos de jovens militantes comunistas no movimento estudantil secundarista e universitário.

        O golpe civil-militar de 1964 levou os irmãos Jayme e Wilton Miranda, Nô e Valter Pedrosa para o cárcere, e outros irmãos e primos para a vida incerta na clandestinidade. Nilson, Anivaldo, Waldemir e Clístenes Miranda tiveram de sair de Alagoas e viver em outros estados clandestinamente.

        Nô Pedrosa ao sair da prisão continuou a militância política, voltou a estudar na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e a sonhar com uma possível resistência armada, e dessa maneira derrotar a ditadura. O tempo passou, prisões voltaram a acontecer, líderes estudantis foram presos e submetidos a tortura em Alagoas e por todas as partes do país.

        A delegacia de Ordem Política e Social (Dops) anotou na ficha do Nô Pedrosa, após o golpe civil-militar de 1964, o seguinte: “participou de todos os movimentos grevistas nos sindicatos filiados ao CGT, em companhia do comunista Nilson Miranda e outros. Tomou parte ativa nos comícios programados pelo CGT. Desenvolve atividades comunistas no meio dos estudantes. Distribui literatura comunista e boletins subversivos. Preso no movimento revolucionário de 31 de março de 1964”.  

        A militância comunista se esvai, e Nô Pedrosa torna-se cada vez mais um anarquista em franca aliança com os demais grupos de militantes de esquerda. Não deixa de ser curiosa a sua atitude. O que não mudou entre uma fase e outra foi a capacidade de aglutinar jovens seguidores. Fez da porta da biblioteca pública estadual e dos corredores da Ufal o seu palco de proselitismo político-ideológico.       

Esse personagem é uma raridade em nossos tempos, despojado de qualquer apego a bens materiais. Para muitos é tido como louco; para outros, é um ser integrado à paisagem urbana de Maceió e umbilicalmente vinculado à Biblioteca Pública Estadual (BPE).

O fato de nunca ter vendido a sua força de trabalho a qualquer patrão o torna um ser livre das amarras da sociedade capitalista. Encantado com os livros, continua a viver como nasceu: livre. De uma coisa ele não pode ser acusado: de que não gosta de livros e de bibliotecas. Fez disso um sacerdócio. Digo isso consciente de que estou proferindo uma heresia, já que o incrédulo anarquista talvez não entenda que o seu modo de viver é um sacerdócio.

Vida longa ao camarada Nô Pedrosa.

Meus irmãos.

(*)Tibério Canuto Queiroz Portela

 

Meus irmãos.


Eu tenho muitos irmãos.Precisaria de um ábaco para contá--los.
Nunca ví o rosto desses meus irmãos e sequer sei seus nomes.
Mas sei de sua dor. Eles fogem dos horrores de uma guerra insana e ensandecida, milhares de vezes mais maldita do que a Rosa de Hiroshima.
Essa bomba não destruiu apenas duas cidades. Destruiu um país, a Síria, de uma arquitetura e cultura milenar. E espalhou meus irmãos sírios pelo mundo.
Como não verter lágrimas ao saber que meus irmãos estão se afogando nas águas do Mediterrâneo e sendo marcados como se fossem gados?

Mas eu tenho outros irmãos, além dos sírios.
Eles estão nos campos de refugiados de palestinos, no Norte e no Chifre da África, e no Afagenistão, claro.
Meus irmãos são espoliados por coiotes, afixiados em caminhões, verdadeiras câmeras de gás ambulantes, atravessam mares em barcos mais frágeis do que os de papel.
E meus irmãos sobreviventes - sim, há sempre alguém que sobreviva, assim como sobreviveram alguns judeus nos campos de concentração nazista - são recebidos por uma Europa dura e insensível, preconceituosa, intolerante e racista.
Meus irmãos são todos os que fogem da fome, da guerra, da intolerância religiosa, étnica, cultural e política.
No Dia do Irmão quero abraçar todos e gritar bem alto:
"Eu tenho tantos irmãos que não os posso contar. E uma irmã muito formosa chamada Fraternidade".

(*) Jornalista

Povos Indígenas

 

O livro Povos Indígenas, do professor pesquisador Dr. Jorge Vieira, retrata a realidade dos povos indígenas do Brasil, tendo como enfoque o ressurgimento e reivindicação da garantia dos direitos constitucionais das doze etnias no Estado de Alagoas nas últimas décadas.

Secularmente massacrados e espoliados de seus territórios desde o período colonial, em 1872, o então presidente da presidente da Província de Alagoas, Luiz Rômulo Perez Moreno publicou em relatório anual a extinção dos povos indígenas existentes, possibilitando como isso a transferência dos territórios indígenas para terceiros. Um século depois, no final da década de 1970, esses povos emergem no cenário estadual e nacional lutando por reconhecimento étnico e os direitos a assistência em saúde, educação e demarcação dos territórios.

No contexto das celebrações oficiais dos 500 anos do Brasil, é feito um balanço das políticas indigenistas implantadas pelos governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sustando o debate teórico sobre a esquerda e as diferenças étnicas.

Destacam-se nesse processo o papel das lideranças indígenas que se dedicaram ao apoio e à defesa dos direitos indígenas, a exemplo do cacique Genésio Miranda Geripankó e do pajé Antônio Celestino Xucuru-Kariri, como também das lideranças (in memorian) Maninha Xucuru-Kariri e Gecivaldo Xucuru-Kariri. Além dos sujeitos indígenas, registra-se o papel dos aliados, a exemplo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), bispos, padres e professores universitários.

Na oportunidade serão homenageados o cacique Genésio Miranda Geripankó e o pajé Antônio Celestino Xucuru-Kariri pela luta em defesa dos direitos indígenas, além do jornal O Semeador da arquidiocese de Maceió, por seu centenário e publicação das lutas indígenas.

O lançamento ocorrerá no dia 11 de setembro de 2015, às 9h, em Sessão Pública proposta pelo deputado estadual Ronaldo Medeiros (PT), no Plenário da Assembleia Legislativa de Alagoas, com participação de autoridades civis e religiosas, lideranças indígenas e população alagoana.

O dia em que Deus criou Alagoas

 

Escrevi certa vez que Deus, além de brasileiro, era alagoano. 
Em verdade, não se cria um estado com tanta beleza, sem cumplicidade. 
Sou capaz de imaginar o dia da criação de Alagoas. 
Ô São Pedro, pegue o estoque de azul mais puro e coloque dentro das manhãs encarnadas de sol; faça do mar um espelho do céu povilhado de jangadas brancas; que ao entardecer sangre o horizonte; que aquelas lagoas que estávamos guardando para uso particular, coloque-as neste paraíso. 
E tem mais, São Pedro: dê a esse estado um cheiro sensual de melaço e cubra os seus campos com o verde dos canaviais. 
As praias... Ora, as praias deverão ser fascinantementes belas, sob a vigilância de ativos e fies coqueirais. 
Faça piscinas naturais dentro do mar; coloque um povo hospitaleiro e bom; 
e que a terra seja fértil e a comida típica melhor que o nosso maná. 
Dê o nome de Alagoas e a capital pela ciganice e beleza de suas noites, 
deverá chamar-se Maceió e a padroeira; 
Nossa Senhora dos Prazeres.

Noaldo Dantas

Brasil Mais Seguro: com a palavra o ministro José Eduardo Cardoso.

 

O programa Brasil Mais Seguro foi lançado com pompa pelo ministro da Justiça José Eduardo Cardoso ainda na gestão do governador Teotônio Vilela, em 2012.  Alagoas estava – e continua ainda - acumulando altos índices de criminalidade. A repercussão negativa dos números crescentes da violência em Alagoas, fez com que o Ministério da Justiça, a toque de caixa, implantasse o programa Brasil Mais Seguro.

A ideia continua sendo louvável. Mas falta efetividade na construção e execução do programa. A pactuação  entre os entes federados estabelecida através de um convênio é um ato formal, apenas. Pouca consequência tem tido. Dezenas de itens teriam de ser executados pelo governo federal, pelo estado de Alagoas e pela prefeitura de Maceió e não foram até agora. Muito pouca coisa tem sido realizada. A não ser os repasses financeiros mensais destinados ao pagamento das diárias dos membros da Força Nacional pelo Ministério da Justiça que estão trabalhando em Alagoas.

O ministro José Eduardo Cardoso aproveitando a sua passagem por Maceió poderia prestar contas à sociedade alagoana das ações do programa Brasil Mais Seguro. Assim a sociedade ficaria informada do andamento do programa de sua autoria que “servirá" de protótipo para a redução da violência no Brasil.

Com a palavra o ministro José Eduardo Cardoso.

  

Lava-Jato e as Mãos Limpas

No Brasil como na Itália, a corrupção foi institucionalizada. Disso, creio que não haja qualquer sombra de dúvida. E também não há dúvida de que as mudanças no cenário político nacional têm sido percebidas como um sinal de mudança qualitativa no Brasil. Os moradores dos andares de cima nunca foram incomodados pela ação do Estado; agora, para surpresa geral, estão tendo de se explicar diante da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

        O andar de cima da sociedade brasileira é constituído pelos megaempresários e diretores de empresas privadas, por dirigentes de grandes empresas estatal, no caso específico da Petrobras, a maior empresa do Brasil e uma das grandes no ramo petrolífero no mundo. E os políticos com mandatos, ex-parlamentares, ministros e ex-ministros de Estado e do Tribunal de Contas da União. E um séquito de operadores de níveis variados.

O modo de olhar por sobre os ombros, como quem diz: “não vai dar em nada”. Esse modo conformado de encarar a vida nacional tinha realmente prevalecido diante de mudanças quase imperceptíveis ocorridas.

A primeira mudança é que o Brasil completou trinta anos de normalidade democrática. Nesse período, largo para uma história pontilhada de quarteladas e golpes militares, nada de anormal ocorreu. As instituições funcionaram sem sustos de fantasmas oriundos das casernas. Esse é um ganho “nunca antes visto na história desse país”.

A segunda mudança vem ocorrendo num ritmo relativamente lento, mas constante. É a renovação de áreas do Estado brasileiro, como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Controladoria-Geral da União, órgãos vitais na modernização do Estado brasileiro. Esses e outros órgãos foram fortalecidos e/ou criados durante o regime democrático, ou seja, a partir de 1985.

A operação Mãos Limpas na Itália teve como saldo a investigação de 6.059 pessoas, dentre elas 872 empresários, 1.978 administradores e 438 parlamentares, dos quais quatro haviam sido primeiros-ministros.

A Lava-Jato está longe do fim. Os números relativos aos investigados correm em segredo de justiça e são parciais, mas o resultado político e econômico é alvissareiro. É possível manter-se esperançoso no Brasil, e tão importante quanto o aprofundamento de operações de combate à corrupção é o brasileiro permanecer vigilante e jamais desacreditar na democracia.

A opinião pública, na democracia, é quem controla os agentes estatais e as empresas privadas. As mudanças qualitativas por que o Brasil está passando necessitam de aprofundamento. 

O Brasil esta mudando, o Brasil precisa continuar no caminho das mudanças.

 

  

 

Perseguido pela Ditadura Militar pós-64, o Professor Marques de Melo foi declarado Anistiado Político pelo Ministério da Justiça.

 

Presidente da Comissão Nacional de Anistia  formalizou pedido de desculpa  do Estado Brasileiro pelos prejuízos ao itinerário intelectual do Primeiro Doutor em Jornalismo do Brasil  e pelos sofrimentos causados à sua  família,  naquele período.   Co-fundador da ECA-USP,  INTERCOM e ORBICOM,  Jose Marques de Melo exerce, há 20 anos,  o cargo de Diretor-titular da Cátedra UNESCO   de Comunicação na Universidade Metodista de São Paulo.

 

Reunida em Brasília para deliberar sobre casos pendentes,  a Comissão nomeada pelo Ministro da Justiça  para aplicar a legislação da Anistia Política aos cidadãos penalizados  pela Ditadura de 1964, examinou, no dia 13 de julho de 2015,   o processo de n. 2009.01.63528, referente à declaração do Prof. Dr. José Marques de Melo como anistiado político e à conseqüente reparação  a que faz jus nos termos da lei.

Analisado judiciosamente pelo Conselheiro Manuel Severino Moraes de Almeida, o processo culminou com o parecer que atesta a perseguição sofrida pelo Requerente,  evidenciada em  documentos fidedignos, justificando-se portanto o seu “deferimento”. Posto em votação, o relatório foi aprovado por unanimidade.

Antes de proferir o veredicto processual,  o Presidente   Paulo Abrahão notificou a presença, no recinto,   do  Prof. Dr. Marcelo Briseno Marques de Melo e de sua esposa, a Dra. Priscila Zerbinato Marques de Melo, respectivamente filho e nora, representando  o Requerente, impossibilitado de comparecer ao ato, por motivos de saúde :

Declaro formalmente o Sr José Marques de Melo anistiado político brasileiro, por decisão unânime desta Comissão de Anistia.  Neste momento,  o Estado Brasileiro formaliza o pedido de desculpas pelas perseguições, pela prisão, pelo tempo em que esteve afastado do seu emprego e por todos os reflexos causados também à sua família.”

Finalizando a sessão, o Dr. Abrahão informou que os “autos do processo de Anistia”, conforme recomendação do Relator Moraes de Almeida, serão enviados para a Comissão da Verdade na USP, com a finalidade  de “contribuir para o desenvolvimento dos trabalhos e acesso ao direito à memória e à verdade da mesma instituição”. 

Retrospecto

José Marques de Melo iniciou sua trajetória intelectual como jornalista, engajando-se no movimento estudantil,  no começo dos anos 60, na cidade de Recife. Integrou a delegação pernambucana que participou do histórico Congresso da UNE no Hotel Quintandinha (Petrópolis).  Foi protagonista de episódios notáveis como a mobilização da imprensa para cobrir as visitas de Célia Guevara e Joffre Dmazedier ao Nordeste.

Respaldando a ascensão política de Miguel Arraes, veio a integrar sua equipe de governo nas áreas de educação e cultura. Preso e processado pelos golpistas de 1964, viu-se na contingência de migrar  para São Paulo, contratado para lecionar na Faculdade de Jornalismo mantida pela Fundação Cásper Líbero e prestando concurso na Universidade de São Paulo para integrar o corpo docente fundador da Escola de  Comunicações Culturais.

Em ambas as instituições,  enfrentou resistências e sofreu perseguições, encabeçando a lista dos professores que o General Ednardo D`Avila, comandante do II Exército,  rotulou como  “subversivos”, determinando sua defenestração do sistema universitário. Por se tratar de documento sigiloso, os atos dele decorrentes permaneceram inacessíveis (alguns incinerados), na tentativa  de assegurar a incolumidade dos funcionários que integravam o “terceiro estágio”, atuando como “dedos-duros” nas “assessorias de segurança e informação” dos Reitores que abdicaram das prerrogativas da autonomia universitária, nos estertores do regime militar (particularmente no período 1974-1979), quando cresciam em todo o país os clamores pela Anistia.

Fortuna crítica

Antecipando-se à decisão histórica da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – INTERCOM – acolheu proposta no sentido de homenagear o fundador da entidade, publicando a coleção Fortuna Crítica de José Marques de Melo (São Paulo, INTERCOM), reunindo textos exegéticos da sua obra acadêmica, escritos por mais de uma centena de colegas e discípulos, em 4 volumes: 1 – Jornalismo e Midiologia, 2-  Teoria e Pesquisa da Comunicação, 3 -   Comunicação, Universidade e Sociedade, 4 – Liderança e Vanguardismo – cuja organização  coube a Osvando J. de Morais, Sonia Jaconi, Eduardo Amaral Gurgel,  Iury Parente Aragão e Clarissa Josgrilberg Pereira.

A coleção está sendo doada pela INTERCOM a bibliotecas e centros de pesquisa em comunicação de todo o país, simbolizando o espírito de luta do Guerreiro Midiático (como foi caracterizado o Professor Marques de Melo pelo seu biógrafo Sergio Mattos), não esmorecendo em sua epopéia para legitimar as ciências da comunicação no Brasil.

Medalha de ouro

No dia 5 de setembro de 2015, às 19 horas, no Rio de Janeiro, durante o 38º. Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, o Diretor do  CIESPAL, Francisco Sierra, fará entrega da Medalha de Ouro que representa o reconhecimento da comunidade acadêmica da comunicação aos  3 mais importantes Pensadores da Comunicação na América Latina. Ao lado do Professor Marques de Melo, figuram, nessa distinção, o boliviano Luis Ramiro Beltrán e o colombiano Jesus Martin Barbero.

Outras homenagens

No próximo dia 20 de agosto, o Professor Marques de Melo recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Alagoas. Ainda não foi agendada a solenidade em que a Universidade Federal do Piauí lhe outorgará semelhante comenda.

Fonte: Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação / 17/07/15

 

 

 

 

 

 

17 de julho de 1997, dezoito anos depois

(*) Kátia Born

O dia 17 de julho de 1997 passou para a história de Alagoas como o dia em que o povo exigiu, nas ruas de Maceió, a renúncia do governador Divaldo Suruagy. A crise moral, ética, econômica e administrativa tornou o nosso Estado ingovernável. Os funcionários públicos ficaram durante dez meses sem receber os seus salários e o crime organizado controlava integralmente a segurança pública.

A administração se achava nas mãos de um secretário da Fazenda que conduziu calma e seguramente o Estado ao maior abismo econômico do século XX. Alagoas ficou à deriva. Era o fim do ciclo iniciado em 1983, quando a fraude derrotou José Costa e a administração estadual consistia num condomínio que algumas famílias e a oligarquia dominavam a ferro e fogo.

Amanheci o dia 17 de julho no programa do França Moura, na Rádio Gazeta de Alagoas. Era possível perceber o clima pesado. As lideranças sindicais achavam-se nas ruas de Maceió já no início do dia; policiais militares e civis armados, em meio a milhares de servidores e populares, marchavam em direção à praça Dom Pedro II, onde fica a Assembleia Legislativa. Tudo poderia acontecer, até mesmo um banho de sangue. Certamente muitos poderiam morrer crivados de balas dos militares.

Durante o dia 16 recebi informações da assessoria militar do meu gabinete, de companheiros do movimento sindical e de outras fontes, inclusive de oficiais superiores do Exército brasileiro. Nada indicava que o dia 17 seria um dia em que os servidores fariam mais uma passeata denunciando o estado de miséria e abandono.

Ao amanhecer o dia 17 de julho, o prédio da Assembleia Legislativa foi tomado militarmente pelo Exército. As tropas ocuparam-na ostensivamente e se postaram em sentido de defesa do Poder Legislativo. Os militares da PM, sob o comando da suas entidades de classe, também se postaram em posição de ataque. Estava montado o cenário ideal para a guerra anunciada.

Antes do dia 17 de julho mantive contatos com militares das Forças Armadas, que me externaram preocupação com a situação caótica e, sobretudo, pelo claro, para eles, descontrole na segurança pública. A cadeia de comando na Polícia Militar estava combalida, segundo avaliação de oficiais superiores do Exército, o que para eles era um fato inconcebível.

Os militares residentes em Alagoas acompanhavam o dia a dia e, pasmem, não acreditavam que a Polícia Militar fosse capaz de manter a ordem, e muito menos a segurança pública, devido à insubordinação da tropa e ante a possibilidade de ocupação do Palácio Floriano Peixoto ou mesmo da Assembleia Legislativa.

O descontrole e a crescente mobilização dos servidores civis e militares e da população indicavam a gravidade dos fatos. Aumentava ainda mais a crise de Poder, evidenciando a ingovernabilidade.

A sucessão de tragédias familiares vinha acontecendo dia após dia. Funcionários públicos desesperados cometiam suicídio: assassinavam seus familiares e em seguida atentavam contra a própria vida. A falência no comércio em Maceió e nas cidades do interior crescia enormemente; um rastilho de sangue e dor se propagou por toda Alagoas.

Terminada a entrevista com o radialista França Moura, fui ao encontro da multidão de funcionários públicos e populares na praça Dom Pedro II. Senti-me no dever de entrar no prédio do parlamento estadual, ocupado pelo Exército. Pelo microfone do carro de som dos manifestantes falei a todos e disse que iria como prefeita de Maceió adentrar o prédio. Postei-me entre os militares da Polícia Militar de Alagoas e dos policiais civis, e juntos derrubamos as grades – menos pela nossa força física e muito mais pela aglomeração da multidão forçando as grades. Desse momento em diante foi aberto fogo pelos militares do Exército. Felizmente, diante da multidão enfurecida, os militares recuaram.

A cena de guerra, a derrubada da grade e todo o clima de quase insurreição popular certamente abreviaram a renúncia do governador Divaldo Suruagy. O dia 17 de julho de 1997 mudou Alagoas. E o Partido Socialista Brasileiro (PSB) nesse contexto contribuiu enormemente para que ocorressem mudanças significativas em Alagoas.

(*) Dentista, ex-prefeita de Maceió e ex-Secretaria de Estado da Mulher, da Cidadania e dos Direitos Humanos.

Ainda sobre a violência na escola

 

A violência tem mudado o comportamento de pessoas e de instituições nos grandes centros urbanos, mas também em pequenas cidades do Brasil e do mundo. O senso de autoproteção manifesta-se e perpassa todas as classes sociais, mudando apenas a maneira da defesa. Individualmente, o cidadão de classe social mais abastada ergue muros intransponíveis, instala sistemas de vigilância eletrônica em suas residências e/ou condomínios, contrata guarda-costas, cria cães ferozes, investe parte significativa da sua economia para a própria proteção e a dos familiares.

        As instituições públicas e privadas utilizam-se dos modernos recursos tecnológicos à disposição no mercado. As pessoas cercam-se com redes elétricas contra bandidos e passam a viver a sensação de segurança, sendo diuturnamente vigiadas pelos olhos eletrônicos das câmaras.

        É perceptível a formação de enclaves em meio às cidades. Toda a energia “intelectual” volta-se para a defesa do patrimônio público e/ou privado, muitas vezes como se fosse um fim em si mesmo.

        Diante dessa realidade cruel, a escola está a caminho célere da blindagem. Está convertendo-se em pequenas fortalezas em meio a uma crescente área de excluídos social e economicamente que vivem nas periferias das cidades. Os condomínios residenciais de classe média tentam livrar-se da insegurança, como se isso fosse possível. É comum, hoje, nas escolas o gradeamento, os sistemas eletrônicos de proteção deixando transparecer que na escola, assim como nos presídios, há algo de semelhante à estética da segurança através dos muros altos ornados por lanças de metal ou cacos de vidros.    

        Criminalizar a pobreza certamente não é o caminho para entendermos o fenômeno do crescimento da violência em nosso país, mas serve para ficarmos atentos à brutal e crescente desigualdade social que o modelo capitalista tem imposto globalmente. Pela gravidade do problema devemos refletir se esse tipo de sociedade é satisfatório. Eleger o consumo, mais que isto, cultuando-o como se divindade fosse.

O que dizer da outra ponta do problema? A falta, cada vez maior, de perspectiva de futuro para os jovens que chegam ao mercado de trabalho, mundialmente exigente, sem que tenham tido oportunidade de estudar em escola pública de qualidade, torna-os inevitavelmente incapazes de ascender socialmente através do trabalho digno na indústria, no comércio, no setor bancário ou como funcionários públicos.

        Evidentemente que a pobreza e a miséria de maneira isolada do contexto social não explicam a crescente violência, nem são a fonte geradora de tal fenômeno. Para resolver a questão é preciso refletir sobre o fato, com a devida responsabilidade e agilidade que a situação requer. Interferir mudando o modo de pensar os fenômenos e as situações excepcionais. A violência é um tema que deve despertar o Estado e a sociedade em conjunto, para enfrentar esse “dragão da maldade”.

        As ideias que nortearam a manutenção da ordem dentro dos muros da escola de há muito foram superadas pela vida e, claro, pelas circunstâncias a que a escola foi submetida: ao desprezo e paulatinamente ao desmonte físico, como se fosse a terraplanagem da sociedade da ignorância – sem escola pública para os filhos da classe média e para os filhos dos trabalhadores de baixa renda.

        O espaço público que é a escola transforma-se num enclave, sendo também uma vitima da violência. A incivilidade e a agressão recorrente no interior e no entorno da escola têm sido motivos de esgarçamento dessa tão importante instituição.       

        Recortemos os tipos de manifestações de violência que há em outras localidades e passemos a trabalhar com o que atinge frontalmente o caso alagoano. Logo veremos que estamos num ponto intermediário entre as regiões conflagradas do Sudeste e do Nordeste brasileiro.  

 

 

 

A Violência na Escola

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A violência tem se manifestado de forma crescente e variada na sociedade brasileira. Em algumas regiões, como as metropolitanas, que são densamente habitadas, as ações ligadas ao consumo e tráfico de drogas têm causado transtornos à população de um modo geral. Sejam moradores das favelas, da classe média ou da elite, o fato real é que ninguém, hoje em dia, está imune aos efeitos danosos da violência.

        A escola, por definição, é um espaço aberto e democrático, mas tem sido nas últimas décadas, palco de ações violentas. Deixou de ser incomum atos isolados de rebeldia e até mesmo de violência praticada por alunos, que a despeito de algum tipo de problema emocional ou pequenos desentendimentos ocasionais, eram resolvidos através do dialogo na sala do coordenador(a) pedagógico ou, em casos mais graves, na direção. Felizmente, porém, tais ocorrências não chegavam a afetar o cotidiano da escola ou colocar em risco a segurança coletiva da unidade de ensino.

        Esse território, a escola pública ou privada, instituído legalmente e respeitado por todos por ser área destinada exclusivamente ao saber e à formação intelectual, moral e ética dos alunos tem se tornado, notadamente, nos centros urbanos mais adensados do Brasil, em localidades de grande risco, inclusive de vida.

        Diante da crescente violência na escola enquanto espaço físico, os alunos, professores e funcionários têm se tornado presas fáceis dos traficantes, sejam “varejistas” que vendem, consomem e convivem, muitas vezes, como aluno e/ou com os alunos no mesmo ambiente, fazendo desse  espaço e do entorno,  ponto de comercialização de drogas, atraindo com essa relação todas as mazelas originadas pelas disputas do comércio de drogas junto às crianças e adolescentes.

        As constatações de que tem aumentado o número das manifestações de violência na sociedade, seja no trânsito, nos lares, nos esportes ou nas escolas é evidente, mas resta saber o que os educadores podem fazer para tentar estancar essa “hemorragia” que não pára de sangrar. Claro que não será a escola isoladamente que vai reverter esse quadro geral de expansão da violência. No entanto algumas perguntas devem ser feitas, diante desse grave problema. Tem sido discutido nas salas de aulas e nas reuniões de professores uma saída para tão sufocante questão? Ou isso é um problema da polícia?

        O comum e usual no ambiente escolar é rapidamente deslocar a discussão colocando como uma questão onde a responsabilidade é da polícia pura e simplesmente. Assim, criminalizando o problema, talvez se encontre uma solução duradoura e quem sabe segura para todos: escola, alunos, funcionários e família.

        A complexidade da questão é a chave do problema. Se fosse de fácil resolução a policia já teria resolvido. Mas essa questão é bem mais complexa do que se imagina, devendo envolver outros atores na discussão. Chegando-se a um ponto de convergência, principalmente, entre os formuladores de política de segurança: que só a atuação da polícia não resolve o problema.

        Há uma necessidade de se realizar estudos aprofundados e integrados, pois quem está na ponta do sistema, nesse caso em particular, são os profissionais da educação, que não têm experiência e nem formação específica para tratar da questão como especialistas. Para tanto, a multidisciplinariedade, a parceria com Organizações Não Governamentais e a rápida integração da escola com a comunidade, poderão ser saídas pontuais para o problema da insegurança na escola.

Com essa constatação, o distanciamento que há entre escola e comunidade, se torna um dos problemas centrais na relação de poder interno na escola. E nesse caso cabem dois questionamentos: se a violência está no interior da escola e também no seu entorno, ou seja, na comunidade, por que atrair essa população “violenta” para a escola? E, como a escola vai se relacionar com essa gente? Penso que estes são elementos chaves para o problema.

        Exigir da escola que mude sua forma de agir, já tradicional e secular é algo difícil, mas perfeitamente possível. Porém deve ser em sintonia e aberta ao novo, que é o seu envolvimento no enfrentamento do problema da violência, e portanto na falta de segurança no seu cotidiano. Esse tipo de questão jamais foi pensada, pelo menos nessa magnitude e urgência. É chegada a hora.

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