Geraldo de Majella

Minhas Alagoas São Outras I

 

A primeira vez que fui a Penedo ainda era adolescente. Encantei-me pela cidade, amor à primeira vista. A visita foi rápida, meu pai tinha compromissos e não poderia me apresentar a cidade. Anos depois, voltei para conhecer e caminhar pelas suas ruas e becos.

Iniciei a segunda visita, desta vez, em companhia de amigos pela Praça 12 de Abril, onde olhei admirado o rio São Francisco, entrei na igreja de N. S. das Correntes, uma obra de arte barroca de 1729.

O estilo barroco, os azulejos portugueses, mais tarde soube serem policromados e o altar-mor folheado a ouro. Tudo na igreja era majestoso, aliás continua sendo e permanecerá assim por séculos sem fim.

Alguém, durante a visita, falou de um esconderijo no subsolo utilizado pelos escravos, que tinham a proteção de religiosos.

Entre lendas e mitos me apresentaram a Penedo, uma cidade heroica e pomposa, aristocrática nas suas tradições, mas que só anos depois me familiarizei com a sua história.

O Museu do Paço Imperial me impressionou pela diversidade e pela variedade de obras expostas. O acervo, por ser particular, me impactou ainda mais.

Ao andar pelas ruas, subindo e descendo ladeiras, parando diante do casario, fotografando e sentando em suas praças, deparei com a Barão de Penedo, uma das que mais me atraem.

O prédio da Prefeitura, o Oratório dos Condenados à Forca, de 1769 – nesse local os prisioneiros rezavam enquanto esperavam a execução capital. Nessa quadra hoje há indicação de ter sido durante o período de dominação holandesa que foi erguido o Forte Mauricio de Nassau. A imponente Catedral Diocesana de N. S. do Rosário, construção de 1690, compõe o conjunto de prédios históricos.

Diante da Praça Rui Barbosa está o Convento de São Francisco e a igreja de Santa Maria dos Anjos, construídos entre 1660 e 1759. O estilo é barroco e rococó, também com altar-mor folheado a ouro e o museu com imagens sacras e móveis antigos, No mesmo conjunto arquitetônico está a Casa São Francisco, que conta a história da ordem franciscana.

O Teatro Sete de Setembro, de 1884, projeto do italiano Luigi Lucarini, em estilo neoclássico, é o primeiro teatro de Alagoas. A poucos metros fica a igreja de São Gonçalo Garcia, de 1758, com traços barrocos ornamentados por pedra calcária.

A Fundação Casa do Penedo é uma criação do médico psiquiatra e acadêmico Francisco Alberto Sales, que em 1992 abriu ao público a biblioteca de 50 mil exemplares de escritores alagoanos, nacionais e estrangeiros, e demais acervos. Em convênio com a Petrobras foram especialmente catalogados cinco mil livros e a biblioteca foi totalmente informatizada, disponibilizando ao público imagens de Penedo, todas digitalizadas para consulta por computador.

O meu retorno a Penedo será para conhecer as 1.200 imagens da cidade e o que for mais possível ver do acervo raro da Fundação Casa do Penedo.

Alagoas deve um reconhecimento público à generosidade do médico Francisco Alberto Sales e a seu espirito de preservação da história do Penedo e das Alagoas.  

 

Alagoas é onde o negro corre mais risco de ser assassinado no Brasil

Relatório da Secretaria Nacional da Juventude (SNJ) da Presidência da República apresenta o Índice de Vulnerabilidade Juvenil ― Violência e Desigualdade Racial IVJ, indicador inédito, utilizado no mapeamento, com o qual foi constatado que jovens negros de 12 a 29 anos estão mais expostos à violência. 

O estudo é resultado de uma parceria entre SNJ, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Ministério da Justiça e Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) no Brasil.  

Numa escala de 0 a 1, Alagoas (0,608) aparece como local de maior risco, seguido pelos estados da Paraíba (0,517), Pernambuco (0,506) e Ceará (0,502), na região Nordeste.

Nos estudos realizados tanto por pesquisadores como por órgãos do governo federal, invariavelmente o estado de Alagoas aparece no topo do pódio da escalada de violência.

“Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados”.

As ações anunciadas pelos governos federal e estadual não são factíveis, pois negligenciam o problema. É o caso do Programa Juventude Viva. Ao ser criado por motivação eleitoral e numa tentativa de responder às criticas, o governo federal tentou e não conseguiu agrupar programas consolidados nos ministérios e, com uma roupagem “nova”, apresenta-los aos estados e municípios.

O resultado é um fracasso. Inexiste como programa integrado e não articula com os estados e municípios ações concretas. Os entes federados, estados e municípios, também se desobrigam das suas responsabilidades.

O jogo de empurra é mantido e a escalada de violência cresce. Os jovens, negros e pobres são as principais vítimas, e a persistir a incúria governamental, a matança continuará sem fim. 

Reduzir a violência homicida e garantir direitos fundamentais é o desafio para o governo de Alagoas.

O marketing pode muito, mas não consegue esconder a realidade por muito tempo.

 

A criminalidade é o tendão de aquiles do governo

 

O programa Brasil Mais Seguro é o título do Acordo de Cooperação assinado em 2012, entre o Ministério da Justiça e o Estado de Alagoas e a prefeitura de Maceió “visando à implementação, o desenvolvimento e a consolidação de um conjunto de ações imediatas e estruturantes nos órgãos de segurança pública que tenham como prioridade ações e metas voltadas para áreas de maior vulnerabilidade criminal, com a finalidade de integrar objetivos comuns entre o Ministério da Justiça e o Estado de Alagoas e o Município de Maceió, para redução da criminalidade violenta”.

O Brasil Mais Seguro é uma “caixa preta” e a sociedade pouco ou nada sabe a seu respeito. A mídia e a sociedade tiveram conhecimento tópico e seletivamente divulgado pelo governo. 

A transparência, antes preconizada, é um dos princípios sonegados à sociedade e aos envolvidos na execução do programa desde o início, em 2012.   

Envolto em sigilo, o programa tem pontos positivos; o primeiro é a integração das cúpulas da área de segurança estadual (Polícia Militar, Civil e Corpo de Bombeiros, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal), o Poder Judiciário e o Ministério Público Estadual. Esse trabalho teve início no governo anterior (Teotônio Vilela), tendo continuidade na atual administração.

O segundo: o esforço em estruturar e integrar as ações policiais no âmbito dos municípios com altos índices de criminalidade;

a construção de dois centros de detenção provisória no interior, um em União dos Palmares e o outro em Arapiraca;

e o anúncio do repasse para a Segurança Pública do resultado positivo da receita do DETRAN.

Esse conjunto de intenções anunciadas pelo governador são indicativos positivos e poderão, a fórceps, colocar em prática alguns pontos do programa Brasil Mais Seguro.   

O resultado parcial da redução dos homicídios nos três primeiros meses, comemorado pelo governador e pela cúpula da segurança pública é apenas um indicativo a mais para haver confiança. Mas para a sustentabilidade no médio e longo prazo são necessárias outras ações estruturantes e a transparência inclusive nas estatísticas. 

A reversão dos índices epidêmicos de violência homicida não acontecerá se não vier precedida de um conjunto de políticas públicas de segurança pública e políticas sociais. Para tanto, faz-se necessária a integração consensual dos entes federados no âmbito estadual.

 O governo estadual está paralisado diante da matança de jovens negros e moradores da periferia de Maceió e de outras cidades de Alagoas. O Brasil Mais Seguro propõe trabalhos de integração da segurança pública com a sociedade. O que tem sido realizado?

Mapear as áreas de crescente criminalidade é relativamente fácil, e anunciar com ares de “eficiência” mortes sem explicações ou sob a classificação de “auto de resistência” tornou-se a única participação do Estado nas comunidades.

Não há saída possível e duradoura do abismo monstruoso em que Alagoas se encontra. A redução temporária de homicídios e até uma explosão maior não acontecem devido ao trabalho da Força Nacional nos bolsões de criminalidade de Maceió. É o que dizem estudos encomendados pelo Ministério da Justiça.  

 A criminalidade é o tendão de aquiles do governo e um terror para a sociedade.

 

 

Entrevista para o Blog do Carlito Lima

1 - Nome: Geraldo de Majella

2- Idade: 20 a 40 (  )   30 a 50 (  )   40 a 60 (x )  +60 (  )

3- Profissão: Historiador

4- Onde mora (cidade): Maceió-Alagoas

5- O que mais gosta em você: do conjunto, estou satisfeito como sou.

6 - O que menos gosta em você: do desvio do septo.

7- Hobby: caminhar na orla e em trilhas; cinema, leitura, música, passeios, assistir a futebol na televisão.

8- Livros inesquecíveis (3 a 5): Vidas Secas e Memórias do Cárcere (Graciliano Ramos), Poema Sujo (Ferreira Gullar), A Rosa do Povo (Carlos Drummond de Andrade), Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto), Cem anos de Solidão (Gabriel García Márquez) e Quatro Séculos de Latifúndio (Alberto Passos Guimarães). 

9- Autores prediletos (3 a 5): Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade.

10- Filmes inesquecíveis (3 a 5): Memórias do Cárcere de Nelson Pereira dos Santos, Zorba, o Grego de Michael Cacoyannis, O Vagabundo, de Charlie Chaplin, Ladrões de Bicicleta de Vittorio de Sica e La Dolce Vita de Fellini.

11- Ator predileto: Paulo Gracindo.

12- Atriz predileta: Fernanda Montenegro.

13- Diretor predileto: Nelson Pereira dos Santos.

14- Músicas inesquecíveis (3 a 5): Foi um rio que passou em minha vida de Paulinho da Vila, Carinhoso de João de Barros e Pixinguinha, Asa Branca de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Construção de Chico Buarque de Holanda e Chega de Saudade de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

15- Compositor predileto (3 a 5): Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Vinicius de Moraes, Paulinho da Viola, Paulo Vanzolini e Gonzaguinha.

16- Melhor cantor: Nelson Gonçalves e Milton Nascimento.

17- Melhor cantora: Elizete Cardoso e Elza Soares.

18- Viagens inesquecíveis(3 a 5): Palmeira dos Índios, São Paulo, Rio de Janeiro, União das Repúblicas Socialistas Soviética - URSS  e Chile.

19- Grandes figuras da humanidade (3 a 5): Karl Marx, Friedrich Engels, Martin Luther King, Nelson Mandela e Einstein.

20- Grandes brasileiros (3 a 5): Luís Carlos Prestes, Darcy Ribeiro, Marechal Rondon, Orlando Villas Boas, Anísio Teixeira, Gregório Bezerra e Aurélio Buarque de Holanda.

21- Grandes alagoanos (3 a 5): Zumbi dos Palmares, Aureliano Cândido Tavares Bastos, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Jorge Cooper, Teotônio Brandão Vilela, o Menestrel.  

22- Quem merece um ovo podre na cara: Ninguém. O desprezo é mais eficaz.

23- Time que torce: Clube de Regatas Brasil (CRB), Vasco da Gama e São Paulo.

24- Bebida predileta: Whisky e Vodka, quando bebia.

25- Prato predileto: macarronada bolonhesa.

26- Frutas prediletas: pitanga, sapoti, mangaba, caju e manga-rosa.

27- Flores prediletas: rosa, violeta, girassol, cravo, gardênia, orquídeas, maria-sem- vergonha.

28- Programa predileto: Namorar

29- A melhor forma de relaxar: Namorando e ouvindo boas músicas.

30- Uma sabedoria de vida: “Faça como um velho marinheiro/ Que durante o nevoeiro/ Leva o barco devagar”.

31- Programa de televisão predileto: Dossiê Globo News com Geneton Moraes Neto e Globo News Literatura com Edney Silvestre e Claufe Rodrigues.

32- Programa de televisão mais chato: Todos os programas policiais.

33- Último livro que leu ou está lendo: Luís Carlos Prestes, Um revolucionário entre dois mundos, de Daniel Aarão Reis, foi o último que li. Agora estou relendo Ninho de Cobras, do poeta alagoano Lêdo Ivo.

34- Hora de dormir e acordar: Durmo por volta das 23 e acordo às 6 horas.

35- Pior sentimento humano: o ódio.

36- O mais bonito sentimento humano: a solidariedade.

37- Um sonho: Não tenho apenas um sonho, tenho vários. A erradicação da fome e da miséria em Alagoas e no Brasil, viver num país onde a democracia e a renda seja mais bem distribuída e as desigualdades sejam reduzidas entre as classes sociais. Acordo, passo o dia e durmo sonhando nessa perspectiva; às vezes penso ser uma miragem. O sonho e a utopia são irmãos siameses, pelo menos para mim. O jornalista e escritor Eduardo Galeano disse certa vez: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

38- Uma frustração: Não é propriamente frustração, é uma constatação. A história não se repete, a não ser como farsa. As esquerdas em alagoana ganharam várias eleições seguidas e não conseguiram consolidar um projeto de governo e muito menos um projeto de poder. A história não perdoa os que erram, e os que perdem o bonde da história ficam plantados na estação. Assim aconteceu com a esquerda em Alagoas. A minha geração nesse aspecto perdeu o bonde.

39- Uma realização: O fato de ter sido pai e fazer o que fiz em 54 anos de vida me tornaram uma pessoa feliz e de bem com a vida. Tenho amigos, bons amigos. Esse capital é importante para quem valoriza amizades. Lutei pela redemocratização do Brasil com o que havia de melhor em mim: a juventude. Tenho consciência de que fui mais um anônimo na multidão, nunca me incomodei com isso; o mais importante, para mim, é que estive no front e hoje posso dizer: “Confesso que lutei”. Tenho uma vida comum, nada especial, sempre me indignando com as injustiças.   

40- Passeio predileto: ir a Penedo, cidade barroca e ribeirinha das Alagoas. Outro passeio predileto é Olinda, cidade coirmã e barroca de Pernambuco. Esses dois lugares são os meus dois cantos preferidos, no Nordeste.

41- Projetos: Estou trabalhando em dois livros e pretendo concluí-los em breve, até dezembro. 

42- Com quem gostaria de trocar de lugar durante um mês? Trocar de lugar não é propriamente o meu desejo. Mas me contentaria em acompanhar, escondido, o dia a dia do ministro da Fazenda Joaquim Levy. Talvez compreendesse melhor as razões do arrocho econômico e como tem sido o diálogo ente Levy e a presidente Dilma Rousseff.  

43- Se ficasse náufrago numa ilha por 6 meses e pudesse escolher um(a) único(a) companheiro(a) de infortúnio, quem escolheria? A minha escolhida é Vânia Regina; com ela posso ficar mais tempo nessa ilha imaginária.

44- Se ficasse invisível por uma hora, onde iria xeretar: A minha opção seria o camarim das passistas do Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, no Rio de Janeiro.

45- Quais as prioridades do Brasil: São muitas. Os políticos brasileiros, regra geral, vivem de costas para a Nação. Educação, saúde e segurança pública são as três áreas que as pesquisas de opinião apontam como as reivindicadas pela população. E, mesmo assim, nada de significativo acontece nessas áreas. A sociedade civil está, felizmente, reinventando o caminho para pressionar os governos. Os gritos das ruas e as postagens nas redes sociais têm mudado o comportamento da população em relação aos governantes. Espero que as mudanças apontem caminhos para as transformações concretas e que, acontecendo isso, os mais pobres sejam incluídos na agenda governamental.

46- Quem admira no Brasil de hoje: A minha admiração é pelo antigo; as duas personalidades que admiro são os ex-senadores Pedro Simon e Eduardo Suplicy.

47- Quem admira em Alagoas, hoje: Continuo admirando o ex-deputado e advogado José Costa, o poeta Sidney Wanderley, o antropólogo Edson Bezerra e o anarquista Nô Pedrosa.

48- Existe esperança no Brasil? Claro que existe. “Não vamos desistir do Brasil”. Eu tenho esperança no Brasil, e mais ainda no povo brasileiro. O Brasil é maior que as crises. O Brasil é maior e melhor que os governantes.

49 - Dê um grau de 0 a 10 às seguintes figuras:

       - FERNANDA MONTENEGRO – 1.000

       - DJAVAN – 1.000

       - DILMA ROUSSEFF − 3

       - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO − 5

       - HELOÍSA HELENA − 5

       - RENAN FILHO − 3

       - MARINA SILVA − 7

       - ARTHUR CHIORO (Ministro da Saúde) − 4

       - SÉRGIO MORO (Juiz do Petrolão) − 10

       - RUI PALMEIRA − 4

50- Um recado para os leitores da ESPIA.

O meu recado eu quero deixar através de uma música, Preciso Me Encontrar de autoria de dois grandes da MPB, Candeia, compositor carioca e do genial Cartola.

 

Preciso Me Encontrar

 

Deixe-me ir

Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

Deixe-me ir

Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

 

Quero assistir ao sol nascer

Ver as águas dos rios correr

Ouvir os pássaros cantar

Eu quero nascer

Quero viver

 

Deixe-me ir

Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar

Diga que eu só vou voltar

Depois que me encontrar

 

Quero assistir ao sol nascer

Ver as águas dos rios correr

Ouvir os pássaros cantar

Eu quero nascer

Quero viver

 

Deixe-me ir

Preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

 

Deixe-me ir preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

Deixe-me ir preciso andar

Vou por aí a procurar

Rir pra não chorar

 

O encontro do carcereiro com os filhos do preso político

A prefeitura do Recife homenageou, ontem (15), o engenheiro Pelópidas Silveira (1915-2008), numa solenidade realizada no Museu da Cidade do Recife, no antigo Forte das Cinco Pontas. O prefeito do Recife, Geraldo Júlio (PSB), o ex-prefeito Gustavo Krause, o vice-governador Raul Henry e muitas outras autoridades estiveram presentes ao ato.

Pelópidas Silverira foi prefeito em três momentos da cidade do Recife, sendo o primeiro prefeito eleito em 1955 pelo voto popular. As homenagens fazem parte das comemorações do centenário de nascimento do ex-prefeito.

        A prefeitura do Recife criou o Instituto da Cidade engenheiro Pelópidas Silveira, para pensar a cidade para o futuro, resgatando o planejamento urbano como um legado histórico deixado pelo ex-prefeito, a marca mais importante deixada como gestor público.

        Pelópidas Silveira influenciou várias gerações de administradores e políticos em Pernambuco. Além de prefeito, foi professor na Escola de Engenharia e no curso de arquitetura da Escola de Belas-Artes; também contribuiu como um dos criadores do Instituto Tecnológico do estado de Pernambuco, sendo vice-governador na administração de Cid Sampaio.

        A constituição da Frente do Recife, aliança entre os partidos de esquerda, é um dos seus principais legados. Quando em 1º de abril de 1964 aconteceu o golpe militar, foi preso nas primeiras horas, teve o mandato de prefeito e os direitos políticos cassados durante dez anos e permaneceu preso oito meses e meio.

        Ao sair da prisão reiniciou a sua carreira profissional, como engenheiro consultor da Brasilgás. Só em 1980 foi reintegrado à docência na Universidade Federal de Pernambuco. Em 1981 requereu a aposentadoria.

        Foi na prisão que o então tenente Carlito Lima o conheceu e com ele estabeleceu uma relação de amizade e solidariedade. Essa relação inusitada entre um tenente do exército e presos políticos a todos surpreendia e durou por mais de meio século.

        O capitão reformado Carlito Lima foi convidado pela família de Pelópidas Silveira para participar da solenidade, sendo recebido no antigo Forte das Cinco Pontas com abraços e beijos pelos três filhos do ex-prefeito: a médica Hebe, arquiteta Thaís Silveira e o músico Thales.

         

       

 

 

Em Alagoas foi reeditada a lei de Talião: dente por dente e olho por olho

A lei de Talião é a expressão mais conhecida do código de Hamurabi (1780 a.C.), onde a máxima: “olho por olho e dente por dente” se tornou conhecida como o sistema de penas pelo qual o autor de um delito sofreria castigo igual ao dano por ele causado.

A lei de Talião foi praticada durante séculos e com maior abrangência no período obscurantista da Idade Média. A punição a ser aplicada obedecia a critérios diferenciados de acordo com a estratificação social em que estavam inseridos o criminoso e a vítima.

Mutatis mutandis, em Alagoas as autoridades responsáveis pela segurança pública têm procurado inspiração na lei de Talião. Em determinados momentos históricos, passa a utilizar-se da execução sumária de supostos bandidos ou bandidos de estratificação social empobrecida e de cor preta. E em outros, utilizam-se do “auto de resistência” como álibi, visto que as cenas dos crimes são desmanchadas pelos agentes públicos de segurança, desta maneira impedindo ou dificultando o trabalho da criminalística e da perícia técnica.

O Estado vem gradativamente perdendo o controle sobre a criminalidade, isso não chega a ser uma novidade, faz algum tempo. Por outro lado, a segurança pública não conta com a necessária credibilidade junto à população e passa a reagir na vã tentativa de afirmar-se como autoridade, com um grau cada vez maior de violência e consequentemente violando direitos e aterrorizando as comunidades por ele invadidas.

A violência estatal consentida e estimulada faz parte do processo de   retroalimentação e manutenção ideológica da guerra aos bandidos, em que vidas de policiais, cada vez mais, são ceifadas, e a dos supostos bandidos alcança números fantásticos, comparáveis aos dos países em guerra civil. A barbárie tem-se transformado num espetáculo midiático.

        A declaração do secretário Alfredo Gaspar de Mendonça: “prefiro um milhão de bandidos mortos que um policial em Alagoas assassinado” é o apoio necessário para uma tropa acuada e, no geral, despreparada para enfrentar com inteligência a crescente epidemia de criminalidade. E mais adiante, o secretário fundamenta a sua política de segurança pública, quando declara a um repórter em Santana do Ipanema: “Bandido em Alagoas na minha gestão só tem dois caminhos a seguir: ou se entrega e vai para a cadeia ou morre.”

        A barbárie instalou-se no território alagoano. Sejamos justos: o início não pode ser imputado à atual administração – é uma construção histórica em que o aparelho de segurança pública é o centro irradiador dessa concepção e seu protagonista há décadas.

O Estado − falo desse entre social com todas as suas vertentes: Executivo, Judiciário, Legislativo  − terá uma chance de superar a barbárie se compreender que o verso da medalha é a civilização. A segurança pública e o Executivo não entenderam, ainda, que na “guerra” o único vencedor é a criminalidade e seus protagonistas.

A História, antes da justiça, julga os agentes públicos.

Aposentadoria

 

O lugar onde se nasce tem significado especial; é comum a exaltação, cada pessoa fala da cidade onde nasceu – seja grande, média, pequena ou até mesmo uma aldeia; lugar distante, esmo da zona rural −, mas nem por essas circunstâncias, esquecido.

        Se o indivíduo é um andarilho, viajante, marinheiro mercante ou funcionário de companhia aérea, andou por mares, desembarcou e conheceu portos e aeroportos em lugares distantes e exóticos, nunca deixa de pensar em sua terra; quando não deseja retornar, mesmo que fosse em férias.      

Essa criação humana chamada cidade tem mudado rápida e intensamente. É comum encontrar, e não são poucos, os que nasceram na zona sul do Rio de Janeiro, por exemplo. Outros nasceram na periferia, mas o cidadão é carioca. O nascido na periferia diz logo que é suburbano.

É “lúdico”: grandes figuras do samba que nasceram lá, cantavam e cantam as suas origens com reverência. Essa região apartada da cidade se liga através da música, no caso do Rio de Janeiro. Mas não se identifica como periferia.

Há sutilezas na identificação do território. O suburbano não é, e não quer ser, identificado como morador da periferia.  As dificuldades materiais de cada morador ou da maioria deles indica em determinado momento da vida o grau de animosidade com a cidade.

O atraso no transporte coletivo, a violência urbana, a falta de emprego ou o baixo salário fazem com que o cidadão extravase uma certa dose de raiva da cidade. Maldiz a vida que vai levando.

É comum sentar num botequim ou em outro lugar qualquer e alguém dizer: “É impossível continuar morando aqui.” Ou coisas do tipo: “Viver nessa selva de pedra, aguentar o barulho, a poluição, a violência, chega! Estou contando os dias para me aposentar e ir morar numa cidade sossegada.”

Há momentos de desagradáveis notícias, quando a ira e até mesmo os ressentimentos predominam. Mas esse sentimento humano, da raiva, do desprezo é substituído por lembranças afetivas; brotam então do pensamento as memórias da infância já distante, mas que não são e que jamais serão esquecidas.

Muitas vezes os versos da Canção do Exílio, do maranhense Gonçalves Dias, rompem o silêncio imposto pela saudade e pela distância da terra amada, maltratada, nunca esquecida − versos tantas vezes recitados na infância, que lembrados, retornam com a força de um furacão:

 

“Minha terra tem palmeiras,

 onde canta o sabiá;

 as aves, que aqui gorjeiam,

 não gorjeiam como lá”.

 

        Essa briga constante com a cidade é comum; não significa uma ruptura total, mas um desabafo dos que amam e também odeiam; uma relação ambígua que segue vida afora. Nessa relação não é permitido bater. Isso nunca.

        O trem que atrasa, a greve de ônibus, as rebeliões nos presídios, os apagões frequentes, tudo enfim de ruim ocorre e, no mais das vezes, quase simultaneamente. A denúncia do atraso dos trens que vão e vêm do e para o subúrbio, no caso carioca, é um tema recorrente de sambas. O Trem atrasou, de Paquito, Estanislau Silva e Artur Vilarinho, serve como meu apoio.  

 

“Patrão, o trem atrasou

Por isso estou chegando agora.

Trago aqui um memorando da Central

O trem atrasou, meia hora

O senhor não tem razão

Pra me mandar embora”.
 

        Até o dia em que o sujeito se aposenta e vai embora da cidade. Aliviado, diz orgulhoso: “Vou comprar um molinete, anzóis, todos os apetrechos para me dedicar à pesca.” Mas o zumbido da cidade permanece como se fosse um despertador rebelde que todos os dias dispara.

        A cidade, seja metrópole ou não, permanece presente, num sinal evidente de um mundo vivido que resiste em abandonar o pescador aposentado, o caminhante de todas as manhãs ensolaradas à beira-mar.

         

             

                  

O Programa Brasil Mais Seguro não faz de Alagoas um lugar seguro

 

O ministro da justiça José Eduardo Cardoso, o então governador Teotônio Vilela Filho e o ex-prefeito Cícero Almeida, no dia 27 de junho de 2012, assinaram o Acordo de Cooperação para o desenvolvimento de ações do Programa Brasil Mais Seguro no estado de Alagoas. O estado servirá como protótipo do projeto, que em seguida seria implantado no restante do país. Essa é, ou foi, a concepção desenhada na Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça.

        O Programa tem o slogan “Quem ama Alagoas constrói a paz”. Os objetivos definidos teoricamente deveriam promover a atuação qualificada e eficiente dos órgãos de segurança pública e do sistema de justiça criminal. O ponto fora da curva tem sido alguns itens essenciais preconizados pelo convênio, como: o foco na qualificação dos procedimentos investigativos, a falta de uma politica pública de segurança pública e o envolvimento dos municípios com maiores índices de criminalidade.

        O anexo I do Plano de Trabalho diz que para “o enfretamento à impunidade estão previstas ações de fortalecimento da perícia forense e da polícia judiciária, enfrentamento às organizações criminosas, forças tarefa da Força Nacional de Segurança Pública na investigação de homicídios e a integração entre os sistemas policiais e judiciais, com participação ativa do Ministério Público, do Poder Judiciário e da Defensoria Pública”.

        O que acontece no cotidiano é o oposto das determinações acordadas e ou pactuadas entre as partes. As autoridades policiais anunciam os “autos de resistências” antes da perícia forense e de a polícia judiciária iniciar o trabalho de coleta de informações da cena do crime. Esse flagrante desrespeito à legislação tem sido rotineiro.

        A mudança de concepção no fazer segurança pública acordado pelo estado de Alagoas e pelo Ministério da Justiça preconiza “o policiamento ostensivo e de proximidade voltado às áreas mais vulneráveis do Estado, considerando o mapa da violência, e a criação de centros de comando e controle integrados”.

        Esse é outro compromisso firmado através do convênio, e na prática não cumprido. Mesmo assim é possível ler alguns press releases das assessorias de comunicação relatando eventos ou a implantação de serviços nas comunidades carentes.

        O discurso construído está escudado na percepção de que a população que vivencia a sensação de insegurança será protegida com o discurso do enfrentamento ao bandido. A consequência dessa prática são as execuções sumárias de supostos marginais.

A sensação de insegurança da população não alterou desde que foi implantado o Programa Brasil Mais Seguro. O crescimento da taxa de letalidade entre os policiais cresceu possivelmente numa relação direta com a ação de enfrentamento à criminalidade como principal ou única forma de reduzir ou conter a criminalidade.  

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado em outubro de 2013 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública registra que Alagoas detém o maior número de homicídios: são 2.048, configurando uma taxa de 64,5% para cada grupo de 100 mil habitantes.

Em 2014, tiveram morte violenta 14 policiais em Alagoas. A SDS não vem a público explicar com clareza o que motivou essas mortes de policiais. Essa atitude não é casual, mas motivada pela concepção de guerra deflagrada ou continuada como estratégia de segurança pública. O resultado esperado é, infelizmente, o aumento da letalidade em Alagoas e a incapacidade da segurança pública para explicar tamanho clima de violência.

É urgente repensar o Programa Brasil Mais Seguro: “Quem ama Alagoas constrói a paz”.

Aurélio, sinônimo de dicionário

 

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira [1910-1989] nasceu no norte de Alagoas, na pequena Passo de Camaragibe. Quando jovem, morando em Maceió, iniciou a sua vida profissional como professor de português. Na década de trinta foi estudar direito em Recife, onde se bacharelou.

Em Recife estudou com quatro alagoanos que se tornaram amigos de toda a vida: Aloysio Branco, Antonio de Freitas Cavalcanti, José Moraes da Silva Rocha e Mário Gomes de Barros Rêgo.  

Bacharel em direito, não atuou como advogado. Dedicou-se ao magistério tanto como professor primário quanto como professor de literatura portuguesa e francesa. Trabalhou ainda como funcionário público municipal em várias funções, desde Oficial de Gabinete do prefeito Edgar de Góes Monteiro até Diretor da Biblioteca Municipal e, cumulativamente, ocupou a função de diretor do Departamento de Estatística e Publicidade da prefeitura de Maceió, em substituição a Rui Palmeira.  

Mestre Aurélio fez parte de uma geração de grandes intelectuais nascidos em Alagoas, como Alberto Passos Guimarães, Valdemar Cavalcanti, Humberto Bastos, Jorge de Lima, Aloysio Branco, Carlos Paurilio, Manuel Diegues Júnior, Mário Brandão, Rui Palmeira, Raul Lima e Théo Brandão.

Acrescente-se a essa relação Graciliano Ramos, o mais velho entre eles, e os aqui residentes Raquel de Queiros, José Lins do Rego e Tomás Santa Rosa, cearense e paraibanos, respectivamente.

A vida de mestre Aurélio em Maceió e no Rio de Janeiro esteve sempre envolvida com a língua portuguesa, seja ensinando, ou como revisor de livros e jornais, seja traduzindo de línguas estrangeiras para o português, ou escrevendo contos e pesquisando.

O saber popular ajudou o mestre a criar tantas palavras e verbetes. Vivia anotando tudo, principalmente a gíria cotidiana do povo. O dicionário Aurélio foi responsável por democratizar e desmitificar nossa língua, assimilando palavras de uso coloquial e do cotidiano até então ignoradas pelas pesquisas lexicográficas.

Em 1975, o Novo Dicionário da Língua Portuguesa – sua principal obra − foi lançado. A partir desse momento tornou-se o livro mais vendido no Brasil, fazendo de Aurélio sinônimo de dicionário.

Mas quem pensa ou pensava que a vida dessa figura era de clausura, está ou esteve enganado. Um novo Aurélio sempre deixou a mesa de trabalho para sentar em outra: a da boemia. Aquele homem aparentemente circunspeto desde jovem, era conhecido como boêmio na Maceió provinciana das primeiras décadas do século XX.  

Na capital alagoana, muitos amigos da época de juventude se tornaram parceiros nas rodas literárias e/ou de boemia. A maior parte da sua vida foi vivida na cidade do Rio de Janeiro, mas quando vinha passar férias em Alagoas era inevitável entrar na boemia.

Aurélio reunia-se com o jornalista Arnoldo Jambo, o teatrólogo Bráulio Leite Júnior, o poeta Carlos Moliterno, o cronista e político Teotônio Vilela, o industrial Napoleão Moreira, o escritor Emer Vasconcelos, a poeta e atriz Anilda Leão, dentre outros.

Esses encontros literorrecreativos ocorriam em residências de amigos ou nos bares, como o antigo Bar das Ostras, no banho da Bica da Pedra ou apreciando a lagoa Mundaú, bebericando no Pontal da Barra.

As honrarias e o reconhecimento em vida aconteceram e foram muitos, mas a maneira simples de viver e de encarar a vida o imortalizou. As academias − brasileira, alagoana de Letras e a brasileira de filologia e outras instituições a que pertenceu − não foram mais importantes do que o reconhecimento popular.

A imorredoura consagração aconteceu naturalmente fruto do valor de sua obra, sem que houvesse qualquer campanha de marketing. O reconhecimento popular de um trabalhador intelectual no Brasil não é tão comum assim. Aurélio conseguiu.

Indicação de leitura:

Marcos Vasconcelos Filho

Marulheiro – viagem através de Aurélio Buarque de Holanda

Maceió -Edufal, 2008, 339 p.

Carta Aberta ao governador Renan Filho

 

Senhor Governador Renan Filho:

 

A maior conquista do povo brasileiro, no pós-ditadura militar, foi a eleição da Assembleia Nacional Constituinte e o que dela emergiu, a nova ordem constitucional que sepultou o autoritarismo ditatorial. 

A Carta Magna batizada pelo deputado Ulisses Guimarães como a Constituição Cidadã recepcionou direitos sociais e econômicos nunca antes mencionados num texto constitucional.

        Governador, li atentamente o discurso de posse e não encontrei uma única vez referência aos direitos humanos. O que mais se aproximou foi: “Este chamado à união, fraternal e sincero, eu o faço em nome de um valor humano, o mais alto deles, a maior conquista do mundo civilizado – a democracia”.

Talvez Vossa Excelência não tenha ainda percebido que a sua fala ou o silêncio sejam interpretados pelos seus auxiliares e gestores na área da segurança pública como uma ordem. Ou a concordância com a falta de transparência e o cumprimento legal das investigações após os sucessivos “autos de resistências”.

A transparência é um dos princípios do Estado democrático e a democracia é a maior conquista do mundo civilizado,  com o que concordamos integralmente.

Governador, as polícias civil e militar continuam sendo “reservas” do autoritarismo oriundo da ditadura militar. As polícias não agem como instituições defensoras da ordem constitucional, sendo nelas recorrente a violação dos direitos civis.

Vossa Excelência, pela juventude, pelos compromissos assumidos publicamente durante a campanha eleitoral, se assim desejar, poderá operar mudanças na concepção dos seus subordinados na área da segurança pública.

O discurso da ordem e da lei é insustentável e ineficaz tem sido usado apenas para aumentar o estado beligerante e autoritário das forças públicas de segurança. Esse discurso é velho e o levará ao cabo de sua gestão como governador à decepcionante realidade de que não foi capaz de estruturar uma política pública para a área da segurança pública. A explicação será encontrada com relativa facilidade pela opção autoritária e violadora dos direitos humanos.

Governador, ainda, me valendo do discurso de posse, em boa hora foi dito que: “Todos sabem que Maceió tornou-se uma das capitais mais violentas do mundo. Aqui morre-se de graça, e mata-se a qualquer pretexto”.

A reversão desses terríveis índices de criminalidade não será alcançada através da força bruta, da declaração de guerra e do incitamento à violência feito explícita ou veladamente.

Governador, o seu antecessor contratou consultores na área da segurança pública de excelente qualidade e com capacidade comprovada. Cito um, o professor Luiz Flávio Sapori. O produto de seu trabalho nunca foi posto em prática, e menos ainda norteou o planejamento da segurança pública alagoana.

É importante, me permita o direito de sugerir, que Vossa Excelência ouça outras vozes que não as vozes macabras dos “Falcões armados”, dos que primam pela manutenção do alto teor de adrenalina e que advogam a “doutrina” do enfretamento armado contra os moradores das periferias de Maceió e das cidades do interior.

Governador, o professor Sapori, na edição da Folha de São Paulo de 4/3/2015, diz: “Ainda é recorrente entre os gestores da segurança pública no Brasil acreditar que o trabalho de policiamento ostensivo é o mais decisivo no controle rotineiro da violência urbana.

“A investigação policial, por sua vez, teria um status secundário, limitando-se a fundamentar o inquérito policial direcionado à instância judicial.

“É um grave equívoco que tem comprometido seriamente a capacidade do poder público de enfrentar a criminalidade. A atividade de investigar homicídios, por exemplo, coletando e sistematizando as evidências de sua autoria e materialidade, é imprescindível ao controle do próprio crime”.

Essa é a maior dificuldade na sua gestão: mudar os rumos da segurança pública de Alagoas.

Governador, os relatórios oficiais são as melhores fontes para com pompa e circunstância o governante ser enganado a partir de gráficos e de estatísticas falseados. Os da segurança públicas são uma fonte fantástica, basta, Vossa Excelência pedir uma série histórica, pois não terá números confiáveis dos seus antecessores e agora, na sua gestão, essa área está sob suspeita.  

Vossa Excelência, tenho lido na mídia, é um internauta e faz bom uso das redes sociais, usando estas ferramentas modernas para divulgar ações da sua gestão. O mesmo não ocorre com alguns dos seus subordinados que usam as redes sociais para fazer apologia da execução de supostos marginais, inclusive postam imagens de cadáveres empilhados em viaturas da polícia militar, atitude acintosa de violação das normas legais, em que a cena do crime deve ser preservada.

Essa atitude contribui enormemente para aumentar a impunidade, sinaliza para a tropa que esse deve ser o procedimento e cultua o ódio como instrumento de vingança ou justiçamento, prática abominável para ser tolerada por um governo democrático.

Governador, não desejo cansá-lo. Sei das suas inúmeras atribuições e da agenda diária pesada. O BOPE tem sido utilizado em qualquer ação. A última ocorreu no dia 27, no CEPA, quando reprimiu adolescentes e causou transtornos a todos.

Os governadores Teotônio Vilela Filho e Ronaldo Lessa, este seu aliado, não permitiam que a pretexto de manutenção da ordem pública o BOPE fosse às ruas reprimir manifestantes, até mesmo durante as grandes manifestações de junho de 2013.

O Centro de Gerenciamento de Crises e Direitos Humanos da Policia Militar é o mais capacitado do Brasil e vem sendo desmobilizado numa “politica” de sucateamento. Esses bravos policiais têm cumprido missões históricas nos últimos vinte anos em Alagoas nas negociações de conflitos.

A persistir a orientação do confronto, não tardará e algum manifestante será vitima da violência policial.

Governador, lhe desejo o que de melhor se pode desejar para alguém que foi eleito democraticamente para conduzir os interesses de Alagoas: saúde e paz.

       

 

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